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Empresas e promoção da natalidade

por João André, em 03.12.13

No Arrastão, Daniel Oliveira escreveu sobre o envelhecimento da população portuguesa. Refere no post um inquérito pelo INE onde as razões para a baixa fecundidade são expostas. O principal culpado é o esperado: a situação financeira dos casais. Não discuto este ponto. Se eu tiver dificuldades em pagar a minha casa e a minha comida também hesitarei antes de decidir ter filhos.

 

A este aspecto gostaria no entanto de acrescentar outro, talvez pouco presente em Portugal no momento, mas cada vez mais notório noutros países europeus: a carreira dos casais (não só das mulheres). As empresas modernas exigem aos seus quadros qualificados cada vez mais disponibilidade. Isto significa que uma vida familiar é um obstáculo frequente à progressão profissional. Há filhos que adoecem, há que levá-los às creche ou escola, há que os ir buscar, levá-los às suas actividades, brincar com eles, ajudá-los com as suas tarefas, educá-los, vesti-los (literalmente - uma birra de uma criança quando está a ser vestida pode levar a atrasos complicados na chegada ao trabalho), etc. Isto para lá da questão óbvia da licença de maternidade e do tratamento pela mesma medida de homens e mulheres por parte das empresas.

 

A realidade é que, mesmo um casal que tem uma boa situação financeira e profissional, poderá ter tendência a adiar os filhos à espera de um momento em que a sua carreira tenha atingido um patamar mais estável onde uma criança não complique as suas obrigações. Infelizmente, num mundo empresarial onde há cada vez maior mudança de funções (para motivar empregados), essa estabilidade não é facilmente atingida.

 

Antes que me perguntem, não tenho uma solução mágica para mudar a situação. Muitas empresas promovem o trabalho flexível, a partir de casa, por exemplo. Esta solução tem demonstrado que os empregados são mais eficientes e produtivos e, muito importante, mais felizes. Também acaba por aumentar o número de horas que um empregado trabalha, mas poderá ser uma troca aceitável. Outras soluções passam por ter creches e jardins de infância da/na empresa (só possível para grandes empresas ou em associação com outras pequenas e médias empresas) e ter horários flexíveis.

 

Este não será um problema da generalidade da população portuguesa, mas serve para ilustrar como não podemos esperar que o governo venha, por artes mágicas, resolver tudo. Há uma responsabilidade da sociedade civil e das empresas privadas para com o tecido socio-económico em que estão inseridas. Cumpri-la pode ser não só um imperativo moral, pode também trazer benefícios próprios.

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23 comentários

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De Carlos Duarte a 03.12.2013 às 09:14

Caro João André,

De acordo. E outra medida que considero essencial (e aqui joga mais na igualdade de género) seria a obrigatoriedade de o pai gozar pelo menos 35% da licença de maternidade (até um máximo de 65%). Para acabar com a posição de desvantagem que as mulheres têm em termos de carreira.

Mas há mais: acho mais que legítimo que os filhos contém de 50%-100% como sujeitos passivos para efeitos de IRS (i.e. rendimento / sujeitos passivos para estabelecimento da taxa). E que o mesmo ocorresse para fins de IMI (entrar com um coeficiente de "uso efectivo" da habitação).

Mas, sinceramente, vejo poucas pessoas de facto interessadas nisto. A visão de curto prazo sobre a nossa sociedade impera.
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De João André a 03.12.2013 às 10:38

Eu evitei falar exclusivamente do caso feminino precisamente por isso, porque fora a pressão sobre as mulheres, mesmo que se dessem as oportunidades às mulheres e condições para gozar licença de paternidade semehantes à da licença de maternidade, os problemas que referi acima continuariam a existir. Claro está que tem razão, um bom passo seria estender as licenças aos pais de forma a que o casal pudesse escolher quem fica em casa durante o período de licença. Idealmente, para um período de X meses, os pais poderiam até alternar (desde que notificando devidamente, claro está).

O problema que refiro é que essa ausência jogaria contra eles.
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De Carlos Duarte a 03.12.2013 às 10:47

Pois, eu percebi que tenha evitado focalizar nas mulheres (até para afastar a "brigada do instinto maternal" que só vem ao de cima quando se fala de licenças de maternidade), mas seria positivo "nivelar" as condições entre géneros.

Quanto ao adiamento "puro e duro" e a progressão na carreira, é complicado e passa, em parte, pelo cultivo da nossa noção de família com elemento basilar da Sociedade (não, não é o individuo, como clamam os "liberais com aspas" cá do burgo nem são entidades amorfas como é apanágio da Esquerda - o "Povo", a "Sociedade" ou o "Proletariado"). E isso passaria obviamente por dar o devido mérito a pais e mães de família, considerando esse facto, a sua capacidade / disponibilidade para equilibrar vida familiar e profissional como uma mais-valia.
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De cristof a 03.12.2013 às 09:54

nãosenota emPortugal?!!De todos osmeus conhecidos nota-se e bem;adiam o nascimento do primeiro filho e já poem em duvida a vinda e outro. Alem do outro problema melindroso -pois não estamos a falar de criara cavalos ou galinhas: como lidar com a ultrapassagem do tempo optimo de fecundação e as consequencias fisicas e de saude que naturalmente acontecem. certo que temos recursos medicos cada vez melhores,mas tambem degradação do defice e degradação do material genetico.
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De João André a 03.12.2013 às 10:42

Caro Cristof, entre o meu círculo de amigos também se nota. Por isso escrevi sobre o assunto. Mas reconheço que a maioria dos portugueses terá outras preocupações ainda antes dessa. É uma consequência natural dos baixos salários e da precariedade do emprego.

A saúde é de facto um problema. A probabilidade de uma criança nascer com problemas de algum tipo aumenta com a idade da mãe (muito menos que com a do pai). Nisso tem toda a razão. Por isso temos os dois problemas em simultâneo: quando o casal é mais jovem (na casa dos 20 anos) não tem dinheiro nem estabilidade para ter filhos. Mais tarde tem a pressão do trabalho. Depois surge o problema da idade.
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De IsabelPS a 03.12.2013 às 10:08

Quando eu comecei a frequentar a Suécia (há quase 40 anos) a situação demográfica era preocupante. Provavelmente tão ou mais preocupante que a portuguesa actual, com a diferença que lá o cidadão comum também se preocupava com o assunto, ao que me pareceu. Uns 20 e tal anos mais tarde, via-se por todo o lado casais com duas e até três crianças pequenas, e os meus amigos confirmaram que se tinha conseguido dar a volta e inverter a tendência. Curiosamente, só vejo gente a arrepelar os cabelos sem nunca ver referência às soluções dos países escandinavos para este problema. Que provavelmente não seriam aplicáveis a Portugal, mas que pelo menos mereceriam alguma discussão pública. Será que temos de inventar a roda de cada vez?
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De João André a 03.12.2013 às 10:44

Tem toda a razão Isabel e toca num aspecto importante: as políticas de outros países devem ser estudadas não para serem implementadas, mas para compreender como poderiam indicar o caminho a seguir. Certamente que num país com um estado social mais fraco que o sueco (e a ser destruído) não poderemos implementar as mesmas medidas. No entanto há medidas que poderiam ser compreendidas, e não falo apenas por parte do governo. As próprias empresas compreendem que têm que se adaptar. E isso faz uma diferença enorme.
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De IsabelPS a 03.12.2013 às 12:01

O estado social sueco é forte, mas não é que não tenha sido objecto de mudanças profundas, nomeadamente a nível da legislação laboral e das pensões, para garantir a sua sustentabilidade. Passaram por uma crise bancária grave nos anos 90 e não a empurraram com a barriga. Uma característica da sociedade sueca é a procura de consensos e, se bem os conheço, debateram as várias alternativas dolorosas necessárias para preservar aquilo que consideravam essencial. Uma possibilidade que me parece longínqua em Portugal...
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De João André a 03.12.2013 às 13:44

A procura de consensos faz sentido em sociedades que compreendem que a discussão existe para procurar soluções. A portuguesa tem uma cultura diferente. Não vou bater nos portugueses a dizer que são incultos ou outra coisa qualquer. Simplesmente não são suecos. Por isso mesmo se podem retirar exemplos suecos para procurar soluções, mas transpô-los directamente não faz sentido.
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De cristof a 03.12.2013 às 15:47

valia a pena um post com com os pontos principais como se mudaram as coisas lá,
Não faz mal saber como os racionais fazem as coisas. Aguma coisa ha-de ficar e sempre se leva a discussãopara assuntos com fim eficiente. Avance que cá ficamoos a espera.
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De IsabelPS a 03.12.2013 às 20:19

Sei muito pouco, e pela rama. Mas posso tentar saber mais...
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De Francisco Melo a 03.12.2013 às 10:31

Um aspeto que deveria ser combatido é os dos custos elevados que os casais têm com infantários ou jardins escolas. Conheço casais que abdicaram de um 2º, 3º filho, porque o orçamento não chegava para os preços que são praticados, com a agravante de alguns casais não terem tão perto de si outro suporte familiar para tomar conta das crianças. Também aqui não tenho receita mágica, mas não tenho dúvidas que infantários com preços mais amigos da família talvez pudesse ajudar.
Relativamente à conciliação carreira/vida pessoal, é necessário que as chefias incentivem a tal, devendo começar nas suas próprias casas. Infelizmente, o cenário não é o melhor. Em muitas Empresas, os patrões ou são solteiros ou divorciados, ou se estão casados parece que estão com a Empresa e não com nenhum pessoa humana. E quando assim é, nenhum trabalhador arrisca sair mais cedo do trabalho sob pena de isso cair mal.
Não tenho dúvidas que um trabalhador é mais realizado quando consegue aproveitar bem o tempo junto dos seus, do que se estiver mais horas na Empresa. No leito da morte as recordações que se vão querer ter serão as do sorriso dos filhos, uma viagem inesquecível, ou alguma «tainada» com os amigos, etc. Mal de quem tiver apenas como melhor lembrança qualquer coisa relacionada com o trabalho.
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De João André a 03.12.2013 às 13:40

Tem razão em relação aos jardins de infância, por isso referi as empresas (ou grupos delas) que têm os seus próprios para funcionários (ou contribuem para as despesas). Obviamente que os jardins de infância, se privados, são abertos para dar lucro. Se para isso é necessário ter preços excessivamente elevados, então há algo que está a funcionar mal. Baixar os preços seria importante, mas não sei exactamente de que forma.

E é verdade: no final da vida, não será aquele relatório perfeito que lembraremos. Mas convém não esquecer que, num dia de 24 horas, quando pelo menos passamos 8 a 10 delas a trabalhar, é bom que gostemos do trabalho. O que significa que não devemos sentir-nos oprimidos por ele.
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De am a 03.12.2013 às 11:47

Pode haver milhentas razões para que os casais de hoje não queiram ter filhos, menos uma: a financeira.

Antigamente, havia muito mais miséria e os casais tinham uma carrada de filhos.

Meus avós tiveram 8. E o vosso?
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De João André a 03.12.2013 às 13:35

Os seus avós eram miseráveis, trabahavam (avô e avó) em empresas durante 8 a 10 horas por dia e tiveram 8 filhos? Tiro-lhes o meu chapéu.

Já a maioria dos pobres dessa altura (ou seja, a maioria da população) tinha filhos para que os ajudar no sustento da família. Faziam a 4ª classe, provavelmente mal, e iam para o campo/oficina/fábrica para ganhar a vida e trazer mais uns tostões para casa. A mãe normalmente ficava em casa e as avós vivam a dois passos (senão na mesma casa) e ajudavam a cuidar dos netos mais novos. Haveria certamente excepções, mas essas também não tinham por norma 8 filhos.

Se quer voltar a esses tempos diga-o. Eu cá prefiro não o fazer.
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De Helena Sacadura Cabral a 03.12.2013 às 11:51

Acresce que os avós que antes eram suporte familiar em presença, hoje, com netos pequenos, também trabalham...
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De João André a 03.12.2013 às 13:42

Não só Helena, no passado, era comum os casais não se afastarem muito das suas raízes. Os avós poderiam passar por casa dos netos e passar tempo com eles, ajudar nalguma tarefa, etc. Hoje em dia os avós (que estão mais velhos, porque os casais têm filhos mais tarde) vivem mais longe (é o paleio da mobilidade), o que retira essa rede de apoio familiar.
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De am a 03.12.2013 às 17:04

Não meu Caro

Hoje a maioria avós são rejeitados pelos filhos, abandonados nos lares, ou pior, numa cama de hospital.

Antigamente não havia o tal de "planeamento familiar", nem aborto livre e gratuito.
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De Vasco a 05.12.2013 às 00:29

É um problema discutido em Sociologia da Família e, por extensão, em Sociologia do Trabalho desde pelo menos os anos 80 do século passado. A meu ver só com o crescimento do número de pessoas autónomas (que criem micro-empresas ou trab. conta própria) se pode fazer pender a balança para o outro lado. As soluções ao nível da empresa já são postas em prática quer com creches no interior da firma, tele-trabalho, etc. Em Portugal há muito pouco disto, mas lembro que por exemplo os CTT tinham uma creche para o pessoal já nos anos 80.
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De João André a 05.12.2013 às 12:07

Essas são duas disciplinas que não surgem nos currículos de engenharia, pelo que não posso comentar esse lado.

Também posso dizer que também os serviços de segurança social tinham creches no edifício para filhos de funcionários.
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De Ana a 05.12.2013 às 01:22

Tal como está a nossa sociedade, desengane-se quem pensar que os pais vão ter mais filhos. O governo não vem por artes mágicas resolver tudo, mas uma coisa é certa, foi ele que destruiu os sonhos, as ilusões, o querer ser pai, mãe, o querer prolongar as gerações. Como se pode pensar ou apelar a que se tenham mais filhos, se os casais não têm trabalho, não têm casa, não têm como sustentar uma família? As empresas privadas, grande parte senão a maioria faliram, com as medidas de austeridade destes supra governantes. Como vão surgir novas empresas se não existe crédito bancário, nem pessoas para comprar? Com certeza não vamos pensar que podemos viver só do que exportamos, a não ser que nos tornemos numa Índia e outros que tal......Este governo destruiu e continua a destruir o país e nós estamos a apelar ao impossível...............
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De João André a 05.12.2013 às 12:10

Cara Ana, eu atribuo muitas culpas a este governo, mas não o de ter causado a diminuição da natalidade. Tê-la-à agravado, sem dúvida, mas não a causou, já vem de longe.

Quanto ao resto, a resposta é simples: espera-se que o país se reduza e empobreça tanto que um dia o investimento retorna, nem que seja à moda do estado novo. Algum dia a economia volta a crescer decentemente, não tenho dúvidas, só que até lá muitas vidas serão destruídas.
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De lucklucky a 05.12.2013 às 02:05

Errado.

A maior razão para a baixa natalidade são os custos de ter uma criança, não a situação financeira que é só uma pequena parcela dos custos.

Culturalmente o extremismo obsessivo, procura da perfeição a todo o custo domina a cultura da P/Maternidade. Só se tem uma criança quando se tem "condições".
Estas foram-se tornando ao longo do tempo cada vez mais exigentes...

É uma pressão imensa feita pelos próprios, permanentemente a verem-se ao espelho perguntando se são bons pais e o consequente medo de falhar: exige tempo, exige vontade, exige muita perda, exige muito para se atingir o "nível" dos "melhores pais".

A cultura "humanista" tornou as crianças caras demais.
Diamantes. Por isso tornou-as raras.
E o preço tem pouco que ver com dinheiro.

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