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Indignidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.11.13

A riqueza nunca me afligiu. Sempre convivi bem com ela mesmo quando tinha muito pouco. Porém, não deixo de pensar sobre o sentido que terá a elaboração dos rankings dos mais ricos, dos mais opulentos, dos mais ostensivos na exibição. O voyeurismo é um passatempo de todos os tempos a que sempre se dedicaram alguns pobres de espírito. Mas num momento como este, que Portugal e uma boa parte do mundo cruzam, em que a pobreza cresce a olhos vistos, em que a imprensa relata casos de crianças que chegam à escola sem pequeno-almoço, e outras ainda nem sequer adolescentes que se limitam a ter uma exígua refeição diária, faz algum sentido anunciar aos quatro ventos, como ainda há dias se dizia na rádio, que a fortuna de 870 milionários portugueses cresceu 715 mil milhões de euros, apesar da crise económica?

Saber, segundo revelava um relatório da UBS, que há mais 85 milionários no meu país devia ser motivo de satisfação. Lamento que não seja esse o caso. As novas teorias da relativização da pobreza substituíram a velha teoria da relatividade. Não sei se alguém saberá hoje qual o quadrado da distância que separará aqueles novos milionários dos novos pobres, nem se existe alguma relação proporcional entre ambas. São equações que me ultrapassam. Saber que os ricos estão mais ricos ou que aumentou o número de milionários só pode ser motivo de satisfação numa sociedade civilizada quando esse crescimento corresponde a um enriquecimento global, a uma diminuição do número de miseráveis, de sem-abrigo e de pobres em geral. Uma sociedade que se compraz a atribuir prémios de mérito a ricos que enriquecem num ambiente de miséria, desconstrução social e desestruturação dos laços de solidariedade em que assenta uma comunidade, é uma sociedade em estado terminal. E não é preciso um tipo chamar-se Mário ou Francisco para percebê-lo. Basta abrir os olhos. A pobreza e a forma como ela cresce em Portugal, perante a indiferença de uma casta de serventuários do poder, é que me aflige e nos torna a todos ainda mais indignos do chão que pisamos.

A Exame e outras revistas e jornais de negócios e de economia deviam dedicar-se à elaboração de rankings dos mais pobres. Deviam dá-los a conhecer, dar-lhes as capas das melhores revistas, o melhor papel, os melhores fotógrafos, o melhor espaço na comunicação social. Essa gente merece. A luta que diariamente travam pela sobrevivência vale mais do que o conforto de qualquer gabinete. E podia ser que dessa forma aparecessem uns quantos "Amorins" para os irem tirando da pobreza.

Uma sociedade que se alheia da pobreza que medra no seu meio está condenada a desaparecer. E temo que o que se siga não seja melhor, porque o problema não se resolve com bancos alimentares. As pessoas ainda sentem. Felizmente.


20 comentários

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De Marta Sousa a 28.11.2013 às 08:18

Exactamente, muito bem dito.
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De Anónimo a 28.11.2013 às 08:46

Um dos melhores textos que li aqui no DO.
Chapeau!
mp
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De Antonio Maria a 28.11.2013 às 14:55

Concordo plenamente.
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De Nuno Carrasqueira a 28.11.2013 às 09:31

Quando os pobres fizerem capas de revista, as revistas serão acusadas de explorar a miséria alheia...
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De Sérgio de Almeida Correia a 28.11.2013 às 10:24

Nuno,

Isso depende da forma como as coisas se façam. Melhor do que ninguém, os bons jornalistas sabem-no bem.
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De Salvador a 28.11.2013 às 09:43

Não gosto muito do recurso a citações, mas não resisto:

"E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"

Almeida Garret
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De Luis Eme a 28.11.2013 às 09:43

claro que faz sentido, Sérgio.

quanto mais não seja, para que não existam dúvidas de que há sempre alguém a lucrar (e de maneira) com a crise e com o aumento da pobreza.

não estamos todos a ficar "pobrezinhos" com a crise, como nos querem fazer crer os governantes.
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De Patrícia Reis a 28.11.2013 às 09:49

Subscrevvo, Sérgio!
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De da Maia a 28.11.2013 às 10:08

Caro Sérgio,
este é dos melhores textos que li sobre o assunto. Parabéns.

Sobre as equações, a gravidade antiga foi substituída pela relatividade moderna, e apresentam-na num ícone com a língua de fora. Qualquer referencial passou a valer, para se perder um referencial absoluto. Aparece como distorção decretada por inquisidores modernaços, que aprenderam como queimar a informação e não os livros.
Autorizam a conservação da matéria e energia, mas não explicam para onde vai a informação que se perde no último sopro que aqui damos.
Essa informação não se perde nos fornos incineradores, sobe para outras contas, onde já não há física, mas onde não se perde a matemática, nem a lógica.
Cumprimentos.
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De JP a 28.11.2013 às 11:03

Sérgio, eles não ficam mais ricos APESAR da crise.
Ficam mais ricos POR CAUSA da crise.

Acha que as reduções de salários, de indemnizações de despedimento, flexibilização das leis laborais, reduções de IRC, isenções de IMI para os fundos imobiliários, PPP's, privatizações de monopólios naturais são benéficos para quem?

Já o disse e reafirmo: Este governo tem uma agenda extremista de condenação à miséria da generalidade da população em nome da salvação da elite.

E depois ainda se admiram dos sinais de violência...
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De am a 28.11.2013 às 11:19

Concordo em absoluto com o texto.

Contudo:

Parece-me que não cabe às revistas e jornais que refere, a exposição publicada da miséria. Não é esse o seu objecto editorial. Cabe sim aos jornais diários e às televisões.
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De Vasco a 28.11.2013 às 11:46

Isto está tudinho na Bíblia.

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