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Aonde é que pára a polícia?

por Luís Menezes Leitão, em 23.11.13

Nenhum regime consegue subsistir se não assegurar que tem o monopólio da violência. Precisamente por isso é que é suicida provocar sentimentos de revolta em forças armadas ou policiais, mesmo que se trate de questões mais prosaicas como o seu estatuto e remuneração. A revolta militar que conduziu ao 25 de Abril foi desencadeada precisamente em virtude da insatisfação causada pelo Decreto-Lei 353/73, de 13 de Julho, que colocou militares do quadro permanente em risco de ser ultrapassados por oficiais mais novos. Quando o governo de Marcello Caetano recuou já era tarde, pois a revolução estava em marcha. O ataque ao estatuto profissional dos militares foi assim o rastilho que desencadeou a revolução.

 

 

Em 1989 tivemos uma contestação policial, com a célebre história dos secos e molhados. Nessa altura o Governo de Cavaco Silva, pela mão de um Ministro da Administração Interna até então completamente desconhecido do público, Silveira Godinho, resolveu atirar a polícia de choque contra os polícias que se manifestaram em defesa do direito a constituir associações sindicais. Apesar da repercussão internacional das imagens de polícias a controlar polícias, a verdade é que a autoridade do Governo saiu reforçada do episódio, demonstrando que continuava a ter o controlo das forças policiais, que não hesitavam em actuar sobre os seus colegas recalcitrantes. Mais tarde, no entanto, viria a ser dada razão aos manifestantes, uma vez que a polícia já dispõe de associações sindicais.

 

 

É por isso que não tem comparação o que se passou na quinta-feira passada. A imagem que passou para a opinião pública foi a de que a polícia que guardava o parlamento não estava disposta a reprimir o protesto de colegas seus, tanto assim que os deixou sem qualquer problema levantar a barreira e chegar às portas do edifício.

 

 

A partir daí os manifestantes só não entraram no parlamento porque não quiseram. Ao mesmo tempo, e de forma quase profética, Mário Soares na Aula Magna avisava para os riscos de a violência chegar ao país. Efectivamente, e por muito bem comportados que os portugueses sejam, se o Governo deixar de ter autoridade sobre a polícia, não consegue impedir uma escalada de violência. Nesta altura, já se fala em a polícia fazer uma greve às multas, completamente ilegal, e que abre um perigoso precedente. É que a seguir à greve às multas, pode seguir-se uma greve à perseguição dos criminosos.

 

O Governo sentiu-se por isso posto em xeque e percebeu que tinha de mostrar a sua autoridade. Segundo se refere aqui, Miguel Macedo exigiu ao Director da PSP, Paulo Valente Gomes, que fizesse rolar cabeças dentro da polícia e, como ele se recusou a fazê-lo, tal determinou a sua demissão. Com esta atitude, o Director demitido vai ser considerado um herói pelos polícias, sendo o seu substituto visto apenas como um homem de mão do Ministro. Trata-se de uma estratégia absolutamente suicida, a fazer lembrar Marcello Caetano, quando demitiu Spínola e Costa Gomes por não irem à cerimónia da brigada do reumático. A haver demissão, parece-me que a mesma deveria ser do próprio Miguel Macedo, que deveria ter assumido perante o país a responsabilidade pelo que se passou no parlamento.

 

Muita gente tem desvalorizado os avisos de Mário Soares. Mas a verdade é que, apesar dos seus quase 90 anos, o homem continua perfeitamente lúcido e já viu muita coisa. Esta revolta policial é um sinal claro de que as coisas se estão a tornar muito complicadas para o Governo. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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21 comentários

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De Bento Norte a 23.11.2013 às 12:31

O que se passou não pode ter constituído um ensaio geral para a violência que Mário Soares e os que ajoelham a seus pés tanto reclamam? Se tiver que haver violência não pode ser o governo a ser chamado a pagar intenções desordeiras que borbulham á vista na cabeça e na boca de outros que enxovalham vergonhosamente altos cargos que ocuparam á conta dos quais continuam a sugar-nos gananciosamente o orçamento. Curiosamente enquanto o antigo presidente da república dava a sua missa na Aula Magna apontando o perigo de uma nova ditadura, alguns canais de TV davam grandes planos de figurantes que apoiam e mesmo ajudaram a criar e sustentar regimes totalitários.
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De Luis Eme a 23.11.2013 às 12:49

concordo com a opinião do Luís.

o rastilho foi aceso. vamos ver se ainda é possível apagá-lo.

mas quando este primeiro ministro não demite a ministra das finanças e ministro dos negócios estrangeiros, não seria agora que demitiria o ministro da administração interna...

vamos ver os próximos episódios...
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De Vento a 23.11.2013 às 13:06

Lúcido é este seu texto assim como muitas das reflexões que tem produzido aqui no DO.

Sim, é verdade, não obstante algumas gaffes, o que Mário Soares tem produzido e contra o que se tem insurgido. Também é verdade que é necessário mostrar a esta rapaziada que, não obstante a idade, algo deve ser feito para contrariar a estupidez e as criminosas políticas que têm vindo a ser impostas e tão amavelmente seguidas por estes finos e sábios gestores.

Também eu fiquei especado com o discurso de Miguel Macedo. E este discurso nada mais revelou, com aquela afirmação "e eu aceitei de imediato" (referindo-se à aceitação da demissão), que uma falsa mensagem sobre o que é (não) ter poder para gerir uma situação de insatisfação que é grave e que começa a ser visível também naqueles que possuem, juntamente com toda a sociedade, a incumbência de manter a ordem.

Aqui chegados, é necessário reflectir sobre a causa desta desordem. A causa dela está quer no PR quer no executivo.
Depois de uma entrada que fez lembrar o estilo de rufiões em que insultavam um país e que demonstravam andar por aqui sem medo de ninguém, por se entenderem donos de uma verdade transcendente que não era capaz de ser apreendida por "anormaizinhos" que vivem neste jardim de doutos eleitos, segue-se um discurso de apelo a um consenso que se traduz em manter o que já deu provas de não poder continuar.

Depois de semearem a miséria e a devastação, menorizando-se e revelando a sua verdadeira dimensão, desculpam-se publicamente na casa dita da democracia afirmando que essas medidas que estão a implementar tem como autor o anterior governo.
Esta menorização de si mesmos reflecte não só incapacidade de gerarem ideias consentâneas com a necessidade do país como também a total ausência de discernimento para encontrar o pedal que breca a "viatura".
Adicionalmente, querendo fazer passar uma mensagem de desculpabilização sobre si mesmos, dão a entender falsamente que a sua verdadeira política tinha como objectivo correr com a troika em Junho de 2014.

Depois de tudo isto, também pretendendo fazer passar uma mensagem de falsa autoridade, e perante um episódio tão caricato quanto rídiculo, querem fazer crer que o sentido da ordem é fazer respeitar a merda de uns 100 metros (com) barreiras, quando eles já ultrapassaram todos os limites da ordem, do bom senso e da má governança.

Infelizmente este país caiu nas mãos de um PR e de um executivo que mais não fazem que atemorizar "criancinhas" com o papão mercado, levando-as a papar uma intragável e absurda refeição cozinhada pela sua própria inépcia.
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De da Maia a 23.11.2013 às 13:40

(Para texto e comentário. Muito bons.)
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De mammy a 23.11.2013 às 14:16

Concordo plenamente e estou esperançosa com nova era que nasceu com o protesto dos polícias.
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De Meiguinho a 23.11.2013 às 15:25

Confundir senilidade com lucidez não é lá grande augúrio.
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De Tiro ao Alvo a 23.11.2013 às 17:03

Também acho.
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De Luís Lavoura a 23.11.2013 às 16:58

pode seguir-se uma greve à perseguição dos criminosos

A Polícia Judiciária já está, dentro de certos limites, a fazer tal greve, ao recusar-se a trabalhar para além das seis da tarde.
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De Francês Básico a 23.11.2013 às 17:03

O Marocas que vá fazer avisos ao seu amigo Hollande que, nas sondagens mais recentes, reveladas esta semana, tem apenas 15% (índice YouGov) a 20% (índice IFOP) de cidadãos da terra dele que lhe são favoráveis.

França essa onde madame le Pen vai com 5 pontos de vantagem sobre os socialistas e se prepara para ganhar as eleições europeias de Maio próximo.
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De cristof a 23.11.2013 às 17:58

cumprimento com admiração a ponderada decisão de manter a serenidade tanto dos revoltosos como dos autoritarios . fizeram bem e deus os proteja para tenham sempre na vida essa postura serena e cordata. Deram sem querer uma chapada de luva branca a velhos senis que teimam em borrar agora o bom nome que amealharam na praça politica. os amigos deviam chama-los a razao pois é triste o espetaculo de quem nos habituou a admirar a sabedoria politica.
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De Carlos Cunha a 23.11.2013 às 19:47

pois é, aquela subida das escadas lembra as imagens épicas da tomada da bastilha e de iwo jima.
e por isso apagam as afirmações, em directo para as televisões, de um dirigente de uma associação de polícia defendendo a atitude dos polícias de serviço, que permitiram a subida da escadaria, com o facto de alguns dos manifestantes estarem armados e nem todos se encontravam na posse total das suas faculdades...
declarações que os honoráveis comentadores e opinadores preferem ignorar, convenientemente.
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De JgMenos a 23.11.2013 às 22:03

Como sempre, quem tem armas quer ser excepção!
Como sempre as oposições de esquerda esperam que quem tem armas as tire da indigência de ideias e iniciativas em que vegetam e delas façam a alternativa possível.

E desde que as aproximem do pote logo lhe chamarão uma vitória democrática.

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