Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Da efabulação e outras artes, também menores

por Pedro Correia, em 15.11.13

 

I

Há imensas coisas que se aprendem ao folhear um jornal ou uma revista. Às vezes sobre nós próprios. Ontem, por exemplo, fiquei a saber que participei em manobras destinadas a colocar o actual primeiro-ministro no poder. Está lá, com o meu nome e tudo, numa versão avalizada por uma fonte supostamente idónea e -- como é costume no jornalismo pós-moderno, contaminado pelos automatismos das chamadas "redes sociais" -- não sujeita a um esforço mínimo de contraditório. Não fosse alguma versão contrária estragar aquilo que parece uma boa história.

Diz essa fonte que eu terei participado numa conspiração que envolveu manipulação de fóruns radiofónicos e televisivos, disseminou contra-informação e destruiu reputações nas redes sociais e outras malfeitorias. Tudo a partir de um blogue chamado Albergue Espanhol quando Passos Coelho ainda se encontrava na oposição.

É espantoso como pode alguém convencer-se de que um blogue, tenha a força que tiver, é capaz de conduzir um determinado político ao poder. É também espantoso alguém convencer-se de que um blogue, a partir da oposição, pode no fundo ser mais do que aquilo que é.

 

II

Lamento desiludir aqueles que embarcam em qualquer tese sensacionalista, mas um blogue é apenas um blogue. Funciona como veículo privilegiado de reflexão e discussão de ideias, designadamente na esfera política: nada menos mas também nada mais que isso.

O Albergue Espanhol foi um blogue que existiu entre Janeiro de 2010 e Agosto de 2011 e juntou pessoas que tinham posições críticas em relação ao executivo de José Sócrates: se havia "linha editorial" naquele projecto era essa e mais nenhuma. Não fazia sentido prolongar a sua existência após a derrota eleitoral do anterior primeiro-ministro e por isso terminou naquele Verão, julgo até que por sugestão minha. Mas enquanto durou deu bastante que falar. Não por ser monolítico, longe disso. A prova é que entre os seus membros contava-se o professor José Adelino Maltez, um dos nomes mais respeitados do comentário político em Portugal. E o Luís Osório, que nunca ninguém identificou com o PSD. E o Luís Menezes Leitão, que mais tarde tive o gosto de convidar para o DELITO DE OPINIÃO e cujas posições extremamente críticas de Passos Coelho e do executivo PSD/CDS, na blogosfera e na imprensa, são de todos bem conhecidas.

"Conspiradores", todos eles? Acredite quem quiser. Há crenças para tudo.

 

III

E por falar em monolitismo: conversei sumariamente com alguns amigos por ocasião do lançamento do Albergue e deixei logo muito claro que nas eleições presidenciais do ano seguinte -- que mereceram grande atenção do blogue, como já se esperava -- a minha simpatia, à partida, recaía em Manuel Alegre. E recordo com satisfação ter sido eu o primeiro, numa série de 35 textos sob o título "Presidenciáveis", a sugerir em Janeiro de 2010 o nome de Fernando Nobre como possível candidato a Belém, o que viria a suceder um mês depois.

Por curiosidade, lembro aqui também os textos que, no âmbito dessa série, escrevi sobre Manuel Carvalho da Silva, António Barreto, Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres, Pedro Santana Lopes e o actual presidente da câmara do Porto, Rui Moreira. Vários deles manterão plena actualidade quando começarem a aquecer os motores para a próxima corrida a Belém.

 

IV

Lamento decepcionar os adeptos das teorias da conspiração, mas pela parte que me toca limitei-me a isto: exprimir ideias, escrever o que penso, expressar-me de acordo com a minha consciência, exercendo enfim um direito de cidadania em nome próprio. Que em certos casos é mais do que um direito: é também um dever.

Nas semanas que antecederam as legislativas de 2011 participei num almoço e num jantar entre Passos Coelho, dirigente do principal partido da oposição, e gente muito diversa da blogosfera, como a Ana Matos Pires e o Paulo Guinote, que tive o prazer de conhecer na altura. Mas teria feito o mesmo com qualquer outra iniciativa do género organizada por qualquer outro candidato. Nada mais normal que isso.

Nunca usei pseudónimo, nunca escrevi a pedido fosse de quem fosse, não obedeci a nenhum estado-maior partidário, nada sei sobre fóruns televisivos e radiofónicos a não ser como ouvinte ou telespectador, nunca tuitei na vida, não tenho nem tenciono ter Facebook.

O meu pensamento, de 2006 para cá, está patente na blogosfera e pode ser escrutinado a qualquer momento. Nos blogues Corta-Fitas, Forte Apache e És a nossa Fé, além do Albergue e deste DELITO DE OPINIÃO, que surgiu em Janeiro de 2009 e foi desde o primeiro dia um espaço de liberdade e pluralismo. Se há projecto na blogosfera que sempre congregou pessoas das mais diversas tendências, em saudável intercâmbio de ideias, é este mesmo. Faz parte da sua matriz genética, a liberdade vem-lhe da raiz.

 

V

Dir-me-ão: mas os bloguistas partiram dos blogues noutras direcções. Até para o Governo, para a Assembleia da República (do Carlos Abreu Amorim ao João Galamba, da Inês Teotónio Pereira à Mariana Mortágua), para os partidos e para as empresas. A actual ministra da Agricultura, Assunção Cristas, começou a tornar-se conhecida num blogue que defendia o não no referendo ao aborto. Álvaro Santos Pereira, ex-titular da pasta da Economia, foi um bloguista muito lido antes de receber o convite para integrar o executivo. Miguel Poiares Maduro escreveu no blogue Geração de 60, em cuja ficha técnica ainda figura. E não faltam secretários de Estado, como o Carlos Moedas, o Pedro Lomba, o Bruno Maçães e o nosso colega Adolfo Mesquita Nunes, que também começaram por notabilizar-se na bloga.

Também não faltam bloguistas nos gabinetes governamentais, começando no do primeiro-ministro. Durante 22 meses, como é público, exerci eu próprio funções de adjunto no gabinete do ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares. Uns continuam, outros saíram, alguns entraram: nada mais normal. O próximo executivo, tenha a cor que tiver, contará igualmente com pessoas que escrevem ou escreveram em blogues.

Haveria algum motivo para não ser assim?

Sucede isto em toda a parte onde existe opinião livre: constitui uma homenagem implícita dos poderes fácticos ao potencial analítico da escrita blogosférica. Mas reparem: onde se nota mais a influência bloguística é nos órgãos de informação. É incontável, por um lado, o número de jornalistas que têm blogues. E, por outro, os blogues foram e são viveiros de talentos que permitiram renovar e rejuvenescer em anos recentes o elenco de comentadores em todos os jornais e todos os canais televisivos, tornando a opinião mais acutilante, mais estimulante e mais plural. Gente tão diversa como o Pedro Mexia, o Pedro Marques Lopes, o Tiago Mota Saraiva, o Pedro Adão e Silva, o André Abrantes Amaral, o Henrique Raposo, o Daniel Oliveira, o Rui Tavares, o José Mário Silva, a Helena Matos, a Carla Quevedo, o Alberto Gonçalves, o João Pereira Coutinho, o Luciano Amaral, o Hugo Mendes, o Joel Neto, o Luís Januário, a Maria João Marques, o Francisco Mendes da Silva, o Alexandre Homem Cristo, o Pedro Lains, o Tomás Vasques, o Bernardo Pires de Lima, o José Pedro Lopes Nunes, o Francisco Proença de Carvalho, o Luís Rainha, o Ricardo Arroja.

A lista é quase interminável. 

 

VI

Há hoje bloguistas em todo o lado. Até no desemprego: a alguns deles mal sobra o dinheiro para ir comprando revistas e jornais -- acreditem que sei bem do que falo.

Tal como há mitómanos por toda a parte: alguns confundem desejos com realidades, imaginam-se pequenos reis-sóis ou génios do manobrismo político. Efabulam enredos e chegam ao ponto de acreditar neles.

Sem terem sequer a lucidez de um Groucho Marx, incapaz de pertencer a um clube que o aceitasse como membro.

Autoria e outros dados (tags, etc)


80 comentários

Sem imagem de perfil

De Caetano a 15.11.2013 às 00:38


Parece-me mais uma coisa de comadres.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.11.2013 às 21:34

Uma coisa em forma de assim, como diria o O'Neill.
Sem imagem de perfil

De gty a 15.11.2013 às 00:39

Há quem tenha a pudicícia de onze mil virgens... quando toca a desacreditar os outros. Apressam-se a rasgar as vestes, o que é, aliás, pouco consentâneo com a virgindade.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 11:00

Isso é verdade. Rasgar vestes pouco ou nada tem a ver com virgindade, real ou virtual.
Sem imagem de perfil

De Vento a 15.11.2013 às 01:01

Pedro,

conheci um pouco da história da sua vida, e apreciei. Apreciei muito a oposição a Sócrates (o desgramado bem que o mereceu). Apreciei o apoio a Passos Coelho, só para que o "desgramado" saísse de lá e não por virtudes do Passos. Apreciei também a "nossa fé", nessa vale a pena preserverar, pois o reino é dos que pereservam.
No resto dou-lhe um conselho: não ligue, mude antes de partido, torne-se independente. Casque nos gajos a torto e a direito. Não perdoe a nenhum. Os tipos não merecem. Vote quando tiver que votar e mande os tipos à à à à ou pró pró pró (peço desculpa, mas quando me enervo gaguejo. Logo acabarei).
Sem imagem de perfil

De Vento a 15.11.2013 às 01:13

Por favor,

onde está aquela escrita em mandarim, leia-se: preserveram
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 11:11

Obrigado, caro Vento. Só não tenho que mudar de partido porque nunca pertenci a nenhum. Mas não renego uma só linha de um só texto que escrevi nos diversos blogues em que participo ou participei (todos fundados ou co-fundados por mim).
Por vezes escuto histórias da carochinha dando a entender que nesses anos de intensa intervenção política na blogosfera só havia blogues de um lado. Os "do Passos". Como se não houvesse também os outros. Os do Sócrates. Os do Portas. Os do anti-Passos, oriundos do PSD. Com autores empoleirados em permanentes tribunas televisivas.
Ao contrário do que alguns historiadores da treta dão a entender, houve muita mobilização blogosférica nas mais diversas frentes. Pró-quase tudo, antiquase tudo.
Nada mais salutar. Os blogues servem para isso.
Falo por mim: tenho amigos em todos esses grupos. E orgulho-me de ter fundado um blogue (este mesmo) que soube sempre congregar gente de todos esses grupos e também gente que nunca teve nem quer ter grupo nenhum.
A fronteira que sempre tracei foi muito diferente. A dos que escrevem em blogues com assinatura e a dos que escrevem em blogues sob o anonimato. Defendo ao máximo os primeiros, mesmo que pensem de forma oposta à minha, e desprezo os segundos, que dão mau nome à blogosfera.
Gosto do confronto às claras. Bastaria isso para ser incapaz de me associar aos cenários que vi descritos na tal publicação.

Saudações Leoninas, sempre.
Sem imagem de perfil

De Paulo Gorjão a 15.11.2013 às 01:18

Caro Pedro, não vale a pena atribuir grande importância à entrevista. Parece-me evidente que o tipo é um lunático sem tino.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 10:52

Um abraço, Paulo.
Sem imagem de perfil

De Drº José Povinho a 15.11.2013 às 01:20

Eu, em nome de toda a minha família, quero deixar aqui o que sentimos.
Estamos todos muito tristes com o que veio, agora, a publico. A entrevista que fala do seu nome é uma bomba que para já deixa-nos a todos muito constrangidos, pois é tanto o indecoro que no momento estamos completamente perdidos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.11.2013 às 21:36

Aceite o meu manguito, "doutor" José Povinho. Estimando as suas rápidas melhoras.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 15.11.2013 às 01:49

Caro Pedro,

gostei de o ler.
Muita gente não se apercebe que muitas vezes as coisas que parecem não custar nada são muito caras, e o que se pode dizer num contexto é diferente do que se pode dizer noutro.
Não teria que fazer esta "carta", fê-lo, e fê-lo muito bem.

Um abraço,
da Maia
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 11:12

Muito grato, da Maia. Pela sua sabedoria e pelos seus bons conselhos. Tenho aprendido muito consigo e com outros leitores nas caixas de comentários deste blogue. Poucas coisas me fazem sentir tão gratificado como isso.
Abraço retribuído com gosto.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 15.11.2013 às 20:23

O apreço é mútuo, e como sabemos, quando o mar puxa para dentro, basta flutuar e guardar forças para nadar na direcção certa com a próxima vaga. Abraço.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.11.2013 às 21:37

Sábio conselho que farei por seguir. Não só agora.
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 15.11.2013 às 09:26

Há quem seja importante e há quem se ache importante. E também há gente que, por ser gorda, julga que tem o rei na barriga...
Todos somos importantes e eu (importante), fiquei triste por o amigo não fazer qualquer referência à minha contribuição, anónima e gratuita, para a feitura e para o êxito deste blogue. Por isso, qualquer dia invento uma tese de que estou, aqui, a ser maltratado, escrevo-a em português o mais escorreito possível e vou angariar uma entrevista à minha pessoa, a dizer mal do Delito de Opinião, que, além disso, terá andado envolvido numa conspiração para não eleger o Menezes…
Numa altura destas, não se pode esquecer a colaboração dos comentadores, anónimos ou não. Será que só servimos para encher chouriços?
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 10:55

Grato pelas suas palavras, caro Tiro ao Alvo. Nunca o seu pseudónimo esteve tão certo.
Sem imagem de perfil

De Lutz Brückelmann a 15.11.2013 às 09:30

Caro Pedro,
obrigado por este texto! Obviamente não tem nada de mal ser bloguista, ter filiação partidária, fazer campanha, trabalhar para o governo. Bem o mal pode ter o que se lá faz. Trabalhou para o Relvas, enfim, como eles, mas acredito sinceramente que não participou nas campanhas sujas.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 10:58

Caro Lutz, anos de exposição pública - dia a dia - na blogosfera, sempre com assinatura, deixam rasto, permitem criar um perfil evidente aos olhos de qualquer leitor que saiba ler. Esse perfil existe - e de algum modo este blogue é o espelho dele.
Um abraço.
Sem imagem de perfil

De Desconhecido Alfacinha a 15.11.2013 às 09:44


Estimado Pedro Correia,

Apenas o seguinte:

Forte abraço e segue-se em frente...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 10:53

Isso mesmo. Um abraço, meu caro Desconhecido (cada vez menos) Alfacinha.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 15.11.2013 às 09:51

Ainda bem que puseste os pontos nos ii. Como tua amiga e colega de profissão apetece-me também dizer, para que conste, que ao contrário de muitos "jornalistas no activo" nem sequer escrevias na secção de política nacional do jornal onde trabalhavas quando publicavas as tuas opiniões no blogue que a entrevista da Visão refere. O teu comportamento sempre se pautou por uma rectidão que muito admiro e que sei que te é reconhecida por todos os que te conhecem bem, incluindo políticos dos mais diversos quadrantes.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2013 às 11:22

Obrigado pelas tuas palavras, Teresa. Nem referi isso por me parecer escusado, mas não fica mal lembrá-lo. E provavelmente terei mesmo de falar disso noutro texto, se for necessário.
Um beijo muito grande.

Comentar post


Pág. 1/4



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D