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Noticiar Moçambique

por jpt, em 07.11.13

 

Volto à matéria, até porque sei que os telejornais portugueses estão a abrir com notícias sobre os "raptos dos portugueses". E porque desconfio que a ponderação do Ricardo Mota, veterano delegado da RTP em Maputo, credor do respeito de quem não bota os "jornalistas" todos no mesmo saco, e homem de fibra que bem necessário é ter aqui, não chegará para evitar os efeitos do sensacionalismo de tantos dos seus pares. E os ecos destes no público, meio por causa daquela velha imagem da "áfrica" tenebrosa (siamesa, como se sabe, da do paraíso de palmar, camarão e mulheres fáceis, qu'isto dos mitos não precisam de ser logicamente coerentes, aliás não o devem ser), meio pela angústia das famílias e amigos dos portugueses aqui imigrados, e noutras paragens trans-sahelianas, que na aflição da saudade a "África Negra" lhes vai sendo mais ou menos a mesma e una.

 

Volto para narrar um pouco como se faz a notícia. A semana passada uma boa amiga perguntou-me se poderia dar o meu telefone a uma sua amiga, jornalista de uma estação televisiva portuguesa, para que eu comentasse o que aqui se passa. Uma entrevista telefónica, explicitou. Hesitei, o qu'é que um gajo tem para dizer?, a minha amiga insistiu, acedi, por telefone não custa tanto, mesmo que cortem ("editem") dificilmente poderão aldrabar o que direi. Podem manipular um pouco mas nunca inverter, é a vantagem da rádio, qu'isto com jornalistas portugueses todo o cuidado é pouco, aprendi com um aldrabão chamado Francisco Camacho, um que ainda hei-de deitar aos tubarões da Inhaca.

 

Passados uns dias lá me telefonou a tal co-amiga jornalista. Se estaria eu interessado em ser entrevistado, não naquele momento, mas um pouco  depois, vinha ela agora preparar a situação. Balbuciei, até tímido, um pequeno "sim", e indaguei sobre o que me perguntariam. Então o que teria eu para dizer sobre os raptos acontecidos? Bem, disse-lhe que na prática nada mais do que aquilo que estava noticiado (há sempre um ou outro boato, uma ou outra teoria da conspiração, mas também não me iria estrear na televisão portuguesa como se Bandarra fosse). Então e ..e.. como está a comunidade portuguesa?, avançou a jornalista. Pois, hahaaaei eu (como é que se consegue explicar a uma jornalista que não há tal coisa como "comunidade portuguesa"?, como se consegue esmiuçar a realidade a uma impaciente profissional?), os portugueses estão ... reahhahaaei, na expectativa. Que mais poderia eu dizer à senhora? Ah, entristeceu-se-lhe a voz, pronto, então muito obrigado, depois nós contactaremos. 

 

E foi assim que este bloguista do prestigiado Delito de Opinião não se estreou na televisão portuguesa.


11 comentários

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De Vento a 07.11.2013 às 12:45

Caro jpt,

desculpe-me mas não entendi bem. Qual é o seu problema? A situação em Moçambique ou a situação desse Moçambique que diz falarem e escreverem?

Ouvi dizer, de fontes fidedignas (que é o povo qu aí vive), que em Moçambique também estavam a violar raparigas (muito antes destes acontecimentos) e que, não obstante este acto ignóbil, os violadores no final marcavam-nas com ferros em brasa. Também ouvi dizer que este povo, aí nas mashambas, estava a organizar-se para contrariar estes criminosos e tentar dar-lhes caça. Será que isto não é importante saber? Será que não é importante saber que perante criminosos que raptam toda a cautela é pouca? Será que não é importante saber que cesteiro que faz um cesto faz um cento?
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De jpt a 07.11.2013 às 14:56

O meu problema, para tomar as suas palavras, é a explosiva situação em Moçambique. Tentei, no postal imediatamente anterior, sumarizar (em formato hiper-reduzido) as questões angustiantes que se colocam em Moçambique na actualidade mais imediata.
Outra coisa é o problema, de novo para usar a sua expressão, que me levou a escrever este postal, que é o da superficialidade e sensacionalismo, muito típico da abordagem jornalística portuguesa sobre a realidade moçambicana. Não é isso que enche as minhas preocupações diárias ou as conversas. Mas é uma questão. Ou seja, o meu problema que se refira a situação moçambicana, mas é o como se refere. De quando em vez tenho aqui referido a situação, e sua evolução. Não sou jornalista nem moçambicanólogo mas tenho procurado deixar neste blog alguns indícios do que se passa [poderá consultar na barra da direita o meu perfil (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/user/balcaodacantina) e desde Abril que tenho feito algumas alusões ao que se vem passando.

Acontece que o Delito de Opinião é um blog português, um colectivo bem preenchido e plural, e não quero enchê-lo de textos sobre Moçambique (e já aqui comentaram que escreve demais e longo), acho que seria abusivo e desinteressante para a maioria. Eu blogo noutro sítio, há uma década, e aí, num colectivo mais virado para Moçambique (mas não só), vou (e vamos) referindo com mais detalhe o que vai acontecendo por cá. Sobre o caso que refere, que não é com esse conteúdo exacto, mas muito aparentado deixei na altura referência nesse outro blog, o ma-schamba. Poderá, caso lhe interesse e acredito que sim, consultar um texto mais geral sobre o fenómeno da vigilância popular nos bairros de Maputo e a vaga de crença no G-20, os engomadores das vítimas, ocorrido há dois meses - e que denota que a criminalidade urbana é muito mais consistente e perene do que estes raptos na zona burguesa, pois apesar de ter sido uma situação mítica, denotava uma grande insegurança social.
Está aqui: http://ma-schamba.com/1657968.html

Sobre o mesmo caso do chamado "G-20", com mais detalhe e dor, deixei também o texto que publiquei no jornal "Canal de Moçambique", "Com Alexandria", dedicado ao meu amigo escultor assassinado, linchado, pelas brigadas de vigilância popular. Poderá encontrá-lo aqui:
http://ma-schamba.com/1662461.html

Está, e todos os interessados em Moçambique, convidado para seguir o ma-schamba (o Pedro Correia e todos os outros co-bloguistas não se ofenderão com esta descarada publicidade). Repito, não somos jornalistas, uso e usamos pinças para falar da situação moçambicana (e são pinças assumidas), reclamo-nos estrangeiros. Mas poderá encontrar algumas ideias, minhas e nossas, sobre o país. Pode ser que eu diga muita parvoíce, e exagerei ao longo dos anos no fel brotado (particularmente sobre a situação portuguesa). Mas com toda a certeza que não falo de Moçambique a partir de meia dúzia de telefonemas rápidos para portugueses que, na sua boa-fé, possam alimentar a vontade de títulos sensacionais.

Cumprimentos.
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De jpt a 07.11.2013 às 15:00

O sistema do Sapo tem este inconveniente de não se poder emendar os comentários. Como tal peço desculpa pela sintaxe amarfanhada e por alguns erros,coisas de teclar super-rápida.
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De Vento a 07.11.2013 às 15:55

jpt,

Compreendo-o, e concordo. Aceito o convite.
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De Moz a 08.11.2013 às 07:31

Ouvir dizer? E isso eh mais importante do que relatos em primeira pessoa? Violações de raparigas existe em qualquer parte do mundo, e Moçambique não eh excepção . Sobre engomar, já se provou que isso não passava de boatos. Havia mais boatos que actos criminais. Uma coisa caricata, naquele tempo que existia esse boato, o crime comum diminuiu, porque os próprios criminosos tinham medo também Um conselho: Não te fies em ouvir falar. Ouvir falar não se escreve.
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De Vento a 07.11.2013 às 12:55

Por outro lado, jpt, em adenda ao anterior comentário, a África negra, na sua matriz, é a mesma e "una" (entenda-se sobre os fenómenos culturais e tribais que por vezes também geram um certo apartheid). Claro está que existem também fenómenos de aculturação que necessitam ser ponderados. A tentativa de branquear a África negra tem sido um dos maiores erros desses protagonistas.
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De jpt a 07.11.2013 às 15:02

É uma questão mais vasta, mas não caberá aqui a discussão (debate). Em grande (esmagadora) parte não concordo consigo, nessa "unicidade". Seria, talvez, a coisa mais interessante para discutir, mas agora não dá. E vai isto sem qualquer sobranceria (na escrita rápida não há entoação, não é assim?) Cumprimentos
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De Vento a 07.11.2013 às 15:51

Cumprimentos também para si,

Como afirma a questão é vasta, mas este aspecto que apresentei não está dissociado dessa vasta questão, é parte da mesma. Quando digo que é parte da mesma também não nego que nessa vasta questão se inferem outros emaranhados, que lhes são externos, e que determinam a situação actual (a começar pelo exemplo da Etiópia uns séculos antes).

Por outro lado, a situação de guerra que se viveu em muitos desses países obrigou a uma migração das populações, concentrando-as em grandes centros (Luanda (5 milhões), Maputo (2 milhões), Nairobi...); e esta população, aí concentrada, das mais diversas origens e etnias soube criar alguma solidariedade (a solidariedade de quem sofre a mesma angústia). Serão estas gerações, somadas às vindouras, que, por esta convivência e experiência, poderão de alguma forma mudar a realidade profunda da África Negra (com excepção para a RSA cujo xadrez, neste momento, é outro). E quando afirmo "poderão de alguma forma mudar..." refiro-me também ao perigo de algum conflito quando o surto migratório, caso haja uma paz segura, se der, e que se dará inevitavelmente, mas em sentido inverso.
Por último, essa "unicidade" é uma característica dos povos quer africanos, quer do médio e extremo oriente, quer americanos... e também na europa. Porém, o processo de unificação leva gerações, e ainda está em curso.
O fenómeno da globalização que hoje se vive será determinante para a morte do liberalismo acéfalo e também para a unificação dos povos. Porque estes, conscientes de um destino comum e da realidade do outro, transformarão o rosto das nações. Isto não significa que existirá uma uniformidade cultural, mas o respeito pela unidade na diversidade.
Abraço
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De lucklucky a 07.11.2013 às 15:20

Há culturas muito diferentes em África. Pela história, pela economia e actividade da tribo: mais guerreira ou mais dedicada ao comércio, mais nómada ou mais sedentária e pelas vitórias e derrotas nas guerras, religião etc...
Logo não é a mesma e "una". E as diferenças não são só culturais são também físicas.
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De Anónimo a 07.11.2013 às 16:02

E é essa diversidade que subjaz na palavra "una" (entre aspas).
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De Anónimo a 13.11.2013 às 09:33

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