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Volto à matéria, até porque sei que os telejornais portugueses estão a abrir com notícias sobre os "raptos dos portugueses". E porque desconfio que a ponderação do Ricardo Mota, veterano delegado da RTP em Maputo, credor do respeito de quem não bota os "jornalistas" todos no mesmo saco, e homem de fibra que bem necessário é ter aqui, não chegará para evitar os efeitos do sensacionalismo de tantos dos seus pares. E os ecos destes no público, meio por causa daquela velha imagem da "áfrica" tenebrosa (siamesa, como se sabe, da do paraíso de palmar, camarão e mulheres fáceis, qu'isto dos mitos não precisam de ser logicamente coerentes, aliás não o devem ser), meio pela angústia das famílias e amigos dos portugueses aqui imigrados, e noutras paragens trans-sahelianas, que na aflição da saudade a "África Negra" lhes vai sendo mais ou menos a mesma e una.
Volto para narrar um pouco como se faz a notícia. A semana passada uma boa amiga perguntou-me se poderia dar o meu telefone a uma sua amiga, jornalista de uma estação televisiva portuguesa, para que eu comentasse o que aqui se passa. Uma entrevista telefónica, explicitou. Hesitei, o qu'é que um gajo tem para dizer?, a minha amiga insistiu, acedi, por telefone não custa tanto, mesmo que cortem ("editem") dificilmente poderão aldrabar o que direi. Podem manipular um pouco mas nunca inverter, é a vantagem da rádio, qu'isto com jornalistas portugueses todo o cuidado é pouco, aprendi com um aldrabão chamado Francisco Camacho, um que ainda hei-de deitar aos tubarões da Inhaca.
Passados uns dias lá me telefonou a tal co-amiga jornalista. Se estaria eu interessado em ser entrevistado, não naquele momento, mas um pouco depois, vinha ela agora preparar a situação. Balbuciei, até tímido, um pequeno "sim", e indaguei sobre o que me perguntariam. Então o que teria eu para dizer sobre os raptos acontecidos? Bem, disse-lhe que na prática nada mais do que aquilo que estava noticiado (há sempre um ou outro boato, uma ou outra teoria da conspiração, mas também não me iria estrear na televisão portuguesa como se Bandarra fosse). Então e ..e.. como está a comunidade portuguesa?, avançou a jornalista. Pois, hahaaaei eu (como é que se consegue explicar a uma jornalista que não há tal coisa como "comunidade portuguesa"?, como se consegue esmiuçar a realidade a uma impaciente profissional?), os portugueses estão ... reahhahaaei, na expectativa. Que mais poderia eu dizer à senhora? Ah, entristeceu-se-lhe a voz, pronto, então muito obrigado, depois nós contactaremos.
E foi assim que este bloguista do prestigiado Delito de Opinião não se estreou na televisão portuguesa.