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Da descaracterização de um país

por Ana Vidal, em 06.11.13

"Havias de os ver, havias de os ver. Mestres sem assinatura é o que eles sempre foram e continuam a ser, mais hábeis e pacientes como nenhuns. De martelinho sagaz, aparelham pedaços de basalto na concha da mão que depois implantam na brancura dos passeios como quem implanta diamantes negros. Capricham nos artifícios, são tão mestres na figura livre como no traçado geométrico e se for preciso vão até às inscrições caligráficas num rigor de compêndio emplumado. Calceteiros. Em inglês não sei como se diz mas eu chamar-lhes-ia ilustradores ou joalheiros de calçadas, se não fosse literário de mais chamar-lhes assim. São eles, fica sabendo, que embelezam e combrem de memórias os caminhos que nós, os de Lisboa, cumprimos todos os dias."                                                                                                                                                 

José Cardoso Pires, in "Lisboa - Livro de Bordo"


Eu chamar-lhes-ia desempregados ou emigrantes, que é menos literário mas muito mais duramente real.


30 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 06.11.2013 às 16:35

Ó Ana o texto é lindíssimo e o trabalho dos calceteiros admirável.
Mas as mulheres com saltos altos vêem-se gregas na calçada portuguesa. Esta, a meu ver, deveria situar-se em zonas sem trânsito e na parte antiga da cidade.
Há casos em que a beleza não é compatível com a modernidade. A zona em que vivo é um amontoado de ruas com buracos e pedras soltas que já me mandaram para o hospital...
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De Ana Vidal a 06.11.2013 às 22:53

Helena, conto-te um episódio que tem alguns anos: num programa que o Pedro Rolo Duarte tinha na televisão e para o qual eu fui convidada (não me lembro em que canal), perguntaram-me que sugestão eu daria para melhorar a vida na cidade. Entre outras coisas - mais verde, mais esplanadas, mais rio - pedi um subsídio para as alfacinhas que gostam de andar de saltos. Era uma graçola, claro, mas a verdade é que saltos e calçada portuguesa são incompatíveis.
Mas o que me parece é que as principais queixas que ouço - e esta caixa de comentários é um bom exemplo disso - não são em relação à calçada mas ao péssimo estado em que ela está, causando acidentes como o teu. Ora isso é falta de manutenção e incúria, coisa que pode resolver-se e até devolve o emprego a muitos calceteiros que estão parados e têm orgulho e gosto na sua profissão. E já agora, não sendo eu especialista no assunto, não seria possível transformar a calçada num piso mais definitivo e estável montando as pedras em cimento em vez de areia? Ou dando uma aguada de cimento sobre as já existentes, depois de reparadas? Não sei, fica a sugestão. Estamos no séc. XXI, os materiais de construção evoluíram, suponho que se possa pensar uma alternativa que contorne os inconvenientes e mantenha a estética, em vez de se partir logo para a extinção pura e dura.

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