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Da descaracterização de um país

por Ana Vidal, em 06.11.13

"Havias de os ver, havias de os ver. Mestres sem assinatura é o que eles sempre foram e continuam a ser, mais hábeis e pacientes como nenhuns. De martelinho sagaz, aparelham pedaços de basalto na concha da mão que depois implantam na brancura dos passeios como quem implanta diamantes negros. Capricham nos artifícios, são tão mestres na figura livre como no traçado geométrico e se for preciso vão até às inscrições caligráficas num rigor de compêndio emplumado. Calceteiros. Em inglês não sei como se diz mas eu chamar-lhes-ia ilustradores ou joalheiros de calçadas, se não fosse literário de mais chamar-lhes assim. São eles, fica sabendo, que embelezam e combrem de memórias os caminhos que nós, os de Lisboa, cumprimos todos os dias."                                                                                                                                                 

José Cardoso Pires, in "Lisboa - Livro de Bordo"


Eu chamar-lhes-ia desempregados ou emigrantes, que é menos literário mas muito mais duramente real.


4 comentários

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De Luís Lavoura a 06.11.2013 às 11:40

(1) Não é descaraterização de um país mas apenas de algumas cidades. Boa parte das cidades portuguesas - sobretudo as do Norte - não tem calçada dita "à portuguesa".

(2) Ser caraterístico (typical, como dizem os ingleses) tem custos elevados para os habitantes. Muitos ossos se devem partir em Lisboa fruto de escorregadelas nos passeios em pedra. A pedra em pavimentos é uma coisa muito bonita, toda a gente concorda, mas muito perigosa, porque tende a ser altamente escorregadia.
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De Ana Vidal a 06.11.2013 às 22:18

1. Não foi por acaso que escrevi "país" e não "cidade". Em primeiro lugar, porque a calçada à portuguesa faz parte do património nacional, e é como tal que tem sido divulgado e reproduzido em locais tão distantes como Macau ou o Brasil; em segundo lugar, porque a minha intenção com este post é chamar a atenção para o problema e não alimentar ódios fáceis por António Costa ou outro responsável qualquer.
2. Verdade, a pedra em pavimentos é escorregadia. Sugiro então que se substitua por quadrados de linóleo tudo quanto é pedra de pavimento por essa Europa fora em praças, ruas, edifícios, igrejas, etc. Haveria uma baixa espectacular dos níveis de desemprego europeus e um florescimento súbito de uma nova indústria. Tudo vantagens, portanto.
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De Luís Lavoura a 07.11.2013 às 09:38

Não ponho em causa que a calçada dita "portuguesa" (na verdade, lisboeta) faça parte do património nacional, o que afirmo é que ela não é uma caraterística do país, apenas é uma caraterística de algumas das suas cidades.
Quanto à sua sugestão, concordo, sempre que a pedra cause riscos para os transeuntes ela deverá ser substituída por pisos mais convenientes. A funcionalidade e, sobretudo, a segurança têm sempre primazia sobre a estética.
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De Ana Vidal a 08.11.2013 às 02:48

Muito bem. Aproveito então a onda de utilitarismo e proponho que se mande destruir toda a estatuária urbana, essa perfeita inutilidade que pode constituir uma ameaça aos transeuntes em caso de sismo. E também, já agora, que se mande substituir todas as fontes por torneiras com tanques para lavar a roupa. Sempre serviriam para alguma coisa.
Isto é o que me ocorre assim de repente, mas haverá com certeza muitas outras ideias igualmente aproveitáveis.

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