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Da descaracterização de um país

por Ana Vidal, em 06.11.13

"Havias de os ver, havias de os ver. Mestres sem assinatura é o que eles sempre foram e continuam a ser, mais hábeis e pacientes como nenhuns. De martelinho sagaz, aparelham pedaços de basalto na concha da mão que depois implantam na brancura dos passeios como quem implanta diamantes negros. Capricham nos artifícios, são tão mestres na figura livre como no traçado geométrico e se for preciso vão até às inscrições caligráficas num rigor de compêndio emplumado. Calceteiros. Em inglês não sei como se diz mas eu chamar-lhes-ia ilustradores ou joalheiros de calçadas, se não fosse literário de mais chamar-lhes assim. São eles, fica sabendo, que embelezam e combrem de memórias os caminhos que nós, os de Lisboa, cumprimos todos os dias."                                                                                                                                                 

José Cardoso Pires, in "Lisboa - Livro de Bordo"


Eu chamar-lhes-ia desempregados ou emigrantes, que é menos literário mas muito mais duramente real.


2 comentários

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De Maria a 06.11.2013 às 22:44

Concordo consigo, a calçada portuguesa é bonita, trabalhosa e com arte. Geralmente o calcário mistura-se com o basalto dando origem a obras de arte dignas de apreço de todos os que a admiram. Ficam na memória de quem por cá passa e a levam na máquina fotográfica, para recordação futura. Mas a nossa calçada não se ficou por aqui, foi para além do Atlântico. Quem tem o prazer de passear no calçadão de Copacabana no Rio de Janeiro, terá a felicidade de ver que a nossa arte está espelhada no chão e que por mais singela que seja, os outros olham-na com uma obra de arte de homens humildes capazes de esculpir as ruas, dando-lhes outra beleza e outra vida.
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De Ana Vidal a 06.11.2013 às 23:16

E em Macau, e no Japão, e em outros lugares onde os portugueses levaram a sua cultura e o seu património. Mas não é uma arte "singela", Maria, pelo contrário: esculpir uma pedra na mão, dando-lhe a forma que se quer com golpes certeiros de um simples malho, tem muito que se lhe diga. Infelizmente, a escola de calceteiros que existia em Lisboa já fechou. Depressa deixará de haver quem domine esta arte.

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