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Camus sempre jovem aos cem anos

por Pedro Correia, em 06.11.13

 

"Tudo o que degrada a cultura encurta o caminho para a servidão"

Camus

 

Dizia há dias alguém, já não sei onde, que Albert Camus deixou de ser lido. É mais um disparate entre tantos outros que vamos vendo e ouvindo por aí. Nenhum autor francês do século XX marca tanto as gerações contemporâneas como o Nobel da Literatura de 1957. O Estrangeiro, obra-prima do romance, mantém-se como campeão de vendas da editora Gallimard, mais de 70 anos depois de ter surgido pela primeira vez nas livrarias. Traduzido em 56 línguas, com 180 mil exemplares impressos por ano só em França, é recordista nas edições de bolso, ultrapassando O Principezinho, de Saint-Exupéry. Grande publicações, como Le Monde e Le Point, lançaram por estes dias edições especiais integralmente dedicadas ao autor d' O Mito de Sísifo, falecido com apenas 46 anos, em 1960, num brutal acidente de automóvel.

Neste ano do centenário do seu nascimento -- que amanhã se assinala -- multiplicam-se as biografias, os ensaios e as teses sobre este homem que nasceu órfão de pai numa família muito pobre em Mondovi, na costa oriental da Argélia, e se manteve até ao fim da vida dividido, com o coração em África e a cabeça na Europa. Na sua perspectiva, as margens dos dois continentes -- banhadas pelo mesmo sol mediterrânico -- deviam funcionar como prolongamentos naturais e não como muros levantados em nome de ideologias alheias ao anseio de felicidade do ser humano.

Camus, esgotado? Muito longe disso. A tal ponto que continuam a ser impressos inéditos seus. Em Agosto, a descoberta de uma carta que enviara na década de 40 a Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir foi notícia destacada em França. A Gallimard acaba de lançar a correspondência que manteve entre 1944 e 1958 com Roger Martin du Gard, Nobel de 1937, na sequência do volume de 2007 que reunia a extensa comunicação epistolar entre o autor d' A Peste e o poeta René Char, o escritor com quem sentia maior afinidade, talvez pela vocação solar de ambos que os levou a tornarem-se vizinhos, a partir de 1958, numa aldeia da Provença.

 

O sol é uma presença constante na obra de Camus. Mersault, o anti-herói d' O Estrangeiro, mata "por causa do sol" sem deixar de se sentir "absurdamente feliz". Não por acaso, um romance terminado em Maio de 1940. No preciso momento em que a França sucumbia às hordas blindadas de Hitler. No preciso momento em que o absurdo irrompia da forma mais dramática nos labirintos do mundo, escrevendo em letras de sangue que não haveria desfecho aprazível para o destino humano.

Camus viu tudo, viveu tudo, foi um homem do seu tempo. Mas teve a lucidez suficiente de não embarcar nos equívocos da época em que lhe calhou viver. Tomou partido, rompeu sem ambiguidades com os falsos libertadores que traziam consigo novas grilhetas.

Chamou vítimas às vítimas, chamou carrascos aos carrascos. Não embarcou em indignações selectivas. Não se enganou no essencial.

 

Quando os tanques soviéticos esmagaram as revoltas operárias em Berlim-Leste (1953) e na Polónia (1956) apontou o dedo acusador aos ditadores sem rosto que oprimiam com requintes de cinismo as classes trabalhadoras em nome do futuro, "única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos".

Quando se erguiam guilhotinas em nome da "razão do Estado", proclamou a sua oposição tenaz à pena de morte. Como Tarrou, personagem d' A Peste, filho de um procurador que conduzira pessoas ao cadafalso e desde então decidira "recusar tudo o que, de perto ou longe, por boas ou más razões, faça morrer ou justifique que se faça morrer".

Quando os nacionalistas argelinos espalhavam o terror em nome do combate ao colonialismo, não hesitou em escandalizar a esquerda parisiense -- ele, que sempre se intitulou de esquerda e era um dos raros intelectuais franceses com origem proletária -- ao contestar essas acções de violência pseudo-revolucionária. Com uma frase que provocou ondas de indignação entre muitos dos seus contemporâneos: “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.”

Hoje, sabendo o que sabemos, qualquer de nós subscreve estas palavras. Porque uma luta deixa de ser justa no preciso instante em que faz derramar o sangue de inocentes.

 

Camus teve razão antes do tempo quando inverteu o axioma leninista, deixando claro que os fins não justificam os meios. Tornou-se assim uma das maiores referências morais do mundo saído dos escombros da II Guerra Mundial. Ainda os canhões não se haviam calado e já ele escrevia, num dos seus magníficos editoriais do jornal Combat, estas linhas de pendor profético que podem servir de mote a todas as gerações vindouras: "Seria perigoso recomeçar a viver com a ilusão de que a liberdade devida a um indivíduo lhe é concedida sem esforço nem dor. A liberdade merece-se e conquista-se."

Dramaturgo, romancista, filósofo, ensaísta, cronista, contista, editorialista, jornalista: foi excepcional nos mais diversos géneros literários. Na forma e no fundo, no tema e no estilo. Outros passaram de moda. Ele não: permanece imune à voragem do tempo que tem sepultado tantos ídolos de épocas passadas.

O Primeiro Homem, o romance incompleto que transportava na pasta, ainda em rascunho, quando o retiraram do veículo em que perdeu a vida, foi lançado em 1994 e aí percebeu-se como a sua popularidade se mantinha intacta: logo na primeira semana, mais de 50 mil exemplares escoaram-se das livrarias. Quantos escritores imaginariam conseguir um best seller três décadas e meia depois da morte?

 

Sim, continua a ter leitores. E a actualidade do seu pensamento -- tão ou mais notável como ensaísta do que como romancista -- é indiscutível. Na sua recusa intransigente do compromisso dos intelectuais com sistemas totalitários, na sua obstinada luta contra a violência como instrumento de acção política e na sua afirmação de que "todo o despotismo, mesmo provisório", deve ser rejeitado sem reticências.

"Para muitos, a sua obra é um farol. Uma dessas obras capazes de mudar uma vida", escrevia há dias François Busnel num editorial da revista Lire, prestando sentida homenagem ao desaparecido mais presente de que há memória nas letras francesas.

Milhões de leitores subscrevem certamente estas linhas.

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26 comentários

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De Filipe Arede Nunes a 06.11.2013 às 16:58

Grande texto, gostei muito de o ler.

Camus é um dos meus autores favoritos. Entre as obras que dele tive oportunidade de ler destaque para O Estrangeiro, A Peste e A Queda. A temática do absurdo e as reflexões sobre a natureza humana são magnificamente tratadas nos seus livros que são de leitura muito recomendada.
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De Pedro Correia a 06.11.2013 às 19:52

Camus é um dos meus autores de sempre, um autor a que regresso a todo o momento e com quem nunca deixo de aprender alguma coisa. Seja na ficção, seja no ensaio, seja nos textos jornalísticos. Quem não o conhece ainda deve conhecê-lo sem demora. O centenário que amanhã se assinala é um excelente pretexto, Filipe. E obrigado por essas palavras tão generosas.
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De João Campos a 07.11.2013 às 00:54

"Quem não o conhece ainda deve conhecê-lo sem demora."

Esta será uma das minhas resoluções para 2014. E isto graças a este teu excelente texto.
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De Pedro Correia a 07.11.2013 às 12:34

Obrigado, João. A ideia é mesmo essa: atrair novos leitores para a obra magnífica deste autor que, mesmo tendo desaparecido tão cedo, continua a interpelar tanto a consciência cívica do homem contemporâneo.
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De Anónimo a 06.11.2013 às 19:25

Bela homenagem, Pedro.
Camus é, sem dúvida, um escritor fundamental, que nos deixou livros inesquecíveis.
Contudo, também me lembrei muito da Sophia que, se estivesse entre nós, completaria hoje 96 anos.
Dois Escorpiões, dois escritores muito 'solares', a lembrar e a ler sempre.
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 06.11.2013 às 20:01

Certos escritores são inesgotáveis na sua expressão universal, Antonieta. É o caso de Albert Camus, sem sombra de dúvida.
Ainda bem que gostou desta singela homenagem. Camus é um dos autores da minha vida.

Sophia é um dos nossos tesouros literários. Já tive o prazer de escrever sobre ela aqui: delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2618640.html
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De sammyopaquete a 07.11.2013 às 00:09

Bela evocação.
Saber hoje que não seria possível «crescer» sem ter lido Albert Camus.
Voltar sempre e descobrir, com outros olhos, novos olhares.
Escreveu Camus, num dos volumes dos seus «Cadernos»

« Há que afirmar que como escritores traímos perante a História se não denunciarmos o que é para denunciar. A conspiração do silêncio é a nossa condenação aos olhos daqueles que hão-de vir depois de nós.»

Um abraço.
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De Pedro Correia a 08.11.2013 às 00:45

Um excelente pensamento de Camus. Mais um. Um abraço, meu caro Sammy.
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De João P. Silva a 07.11.2013 às 00:09

Boa noite,

Caro Pedro Correia, obrigado por me ter lembrado (enquanto leitor do Delito de Opinão) do centenário do grande Albert Camus.
É absolutamente impossível (tem que ser!) que os livro de Camus deixem de ser lidos. Tal como os livros de John Steinbeck, descobri os de Albert Camus (entre outros) através da biblioteca municipal da minha freguesia, e desde então tornaram-se nos meus escritores estrangeiros preferidos.
Do meu ponto de vista considero que a razão pela qual os livros de Camus poderão estar a deixar de serem lidos, prende-se com o facto de existir uma, aparente, diminuição na divulgação dos grandes escritores do passado às gerações do presente e consequentemente dos ensinamentos e enriquecimento cultural que estes podem dar a cada um de nós e acima de tudo, a grande capacidade que têm de nos fazerem pensar, algo que parece cada vez mais raro nos dias que correm (posso parecer mais velho, mas tenho 31 anos e esta é a infelizmente a ideia geral dos tempos actuais).
O comentário já vai longo e vou já acabar, mas devo acrescentar que a escrita de Albert Camus (e também do já referido Steinbeck) me provoca dois sentimentos distintos, o primeiro é o desejo de começar imediatamente a escrever um romance, o segundo é o medo, o medo de não conseguir ser sequer comparável em qualidade a pelo menos 0,01% da obra mais pobre de Camus.
Uma vez mais saúdo-o por lembrar Albert Camus, a quem já o conhece, principalmente por ter feito alguém que não o conhece ter o desejo de amanhã comprar um livro, ou requisitá-lo na biblioteca local.

Cumprimentos,
João P. Silva
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De Pedro Correia a 08.11.2013 às 01:07

Eu é que agradeço, caro João Silva. Sobre Steinbeck tenho escrito alguma coisa também. Aqui, por exemplo:
delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5376762.html

Um abraço.
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De da Maia a 07.11.2013 às 01:36

Fiquei fã de Camus quando li o Estrangeiro.
Durante muito tempo considerei esse o único livro de ficção que tinha lido... os outros nunca me levaram ao fim. Por isso, a sua série de incompletos é quase uma sina minha. Devido ao cinema, sempre perdi pouco tempo com ficções alheias...

Camus é um filósofo da vida quando convida a morte a entrar no discurso.
A morte por "causa do sol" foi dos poucos assuntos filosóficos que me fez questionar certezas. Nascemos numa sociedade de elogio à potência, e raras vezes somos confrontados com a verdade da nossa impotência. Vemos a potência como uma conquista e não como uma oferta.
Até a impotência de Cristo na cruz é vista num quadro de prescindir da Sua omnipotência divina, e não num quadro de omnipotência interior, aceitando qualquer provação exterior.

Camus pareceu-me ser um estóico, e por isso menos celebrado que os epicurianos reinantes. Aos epicurianos existencialistas agradou-lhes o absurdo, mas não era esse absurdo que Camus enunciava, era o combate contra ele, pela racionalidade, convidando-o a entrar, para o derrotar.

Durante muito tempo esqueci-me de continuar a ler Camus, e só recentemente li algo do Mito de Sisifo. Já tinha convidado todos os absurdos, e não vi mais nenhum. Afinal, Camus não era tão estóico, acreditava na liberdade, e era a sua recusa de aceitar a prisão que lhe prendia o pensamento.
Um absurdo. Bastava-lhe descansar. Que descanse em paz.
Conto lê-lo de novo.
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De Pedro Correia a 08.11.2013 às 01:05

Caro da Maia, só posso agradecer-lhe o excelente comentário. Sério candidato a comentário da semana.
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De Luís Lavoura a 07.11.2013 às 09:27

Mondovi, na costa oriental da Argélia

A Argélia só tem costa a norte!

Ou então também dirá "Tavira, na costa oriental do Algarve", "Vila Praia de Âncora, na costa norte de Portugal", etc.
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De lucklucky a 07.11.2013 às 09:29

"...nasceu órfão de pai numa família muito pobre em Mondovi..."

Razão óbvia para ter sido abortado, sem pai e sem condições "sócio-económicas" teria tido certamente uma vida de sofrimento para ele e a para a Mãe do que aquele tolerado por certas cabeças bem pensantes.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2013 às 11:17

Brilhante texto, merecida homenagem ao autor que me fascinou quando o descobri, via O Estrangeiro, na adolescência, obra que reli há menos de um ano e reencontrei fresca como na primeira leitura. Penso que terás lido no Expresso essas afirmações que também me espantaram.
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De Pedro Correia a 08.11.2013 às 01:03

'O Estrangeiro', 'O Mito de Sísifo', 'A Peste', 'O Homem Revoltado', 'A Queda', 'O Exílio e o Reino', 'O Primeiro Homem'... Uma obra inconfundível, Teresa. Foi um dos escritores que mais me marcaram também. E continua a marcar.
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De isabel Mousinho a 07.11.2013 às 11:19

Eu subscrevo, Pedro, sem qualquer dúvida! E gostei muito deste post.
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De Pedro Correia a 08.11.2013 às 01:00

Obrigado, Isabel.
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De jj.amarante a 07.11.2013 às 13:22

Obrigado pelo texto sobre a vida e obra e pelos números, sobre a actividade editorial relativa à obra deste homem bom, que desmentem os estados de alma publicados em jornais por pessoas menos cuidadosas com a parte numérica da realidade.
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De Pedro Correia a 08.11.2013 às 01:00

Meu caro, nunca falta quem goste de pintar o quadro com tons que em nada condizem com a realidade. É uma forma de tentar sobressair, como outra qualquer. Dizer que "quase já ninguém lê Camus" é uma forma arrevezada de proclamar aos quatro ventos: "Só eu é que leio".
Enfim...
(agradeço-lhe o comentário)

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