Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Sophia em acordês? Não, muito obrigado

por Pedro Correia, em 30.10.13

 

I

Entro na Livraria Barata, espreito os títulos nos escaparates. Atrai-me a atenção um livro de contos de Sophia de Mello Breyner Andresen, da Porto Editora, intitulado Quatro Contos Dispersos. Contos que não conheço. Tratando-se ainda por cima de um género literário que tanto aprecio, pego num exemplar. Já disposto a levá-lo.

Mas eis que uma campainha de alarme soa dentro de mim: consulto a ficha técnica desta obra, editada em 2012. Lá surge o aviso aos incautos: "Este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa." Por outras palavras, muito menos eufemísticas: o livro vem redigido não como a autora o escreveu mas segundo as absurdas normas do pseudo-acordo ortográfico de 1990 que apenas a administração pública portuguesa aplica, felizmente ainda sem carácter obrigatório, e o resto do mundo lusófono ignora.

Esclarece a ficha técnica que os herdeiros de Sophia deram o necessário consentimento a esta edição, apesar das consoantes mutiladas. Algo que me deixa admirado, pois Miguel Sousa Tavares, um dos herdeiros da autora do Livro Sexto, é um dos mais notórios adversários do AOLP.

Poiso o livro, devolvendo-o ao seu lugar. Gosto muito da obra desta grande escritora, mas nem de borla levaria um volume que lhe desfigura a escrita. Ainda por cima com a chancela de uma editora cujo administrador e director editorial, Vasco Teixeira, se assume como crítico do convénio que se propôs "unificar" a grafia portuguesa sem ter atingido este objectivo, aliás indesejável.

 

II

Dirijo-me à secção de livros usados, na mesma livraria -- uma secção em expansão crescente pois há cada vez mais bibliotecas domésticas a desfazer-se na sequência de óbitos e divórcios e desentendimentos familiares de diversa ordem e dos efeitos da crise económica -- e descubro um exemplar da primeira edição d' O Secreto Adeus, o romance de estreia de Baptista-Bastos, faz agora precisamente meio século.

É uma das raras obras portuguesas de ficção centradas no jornalismo e numa redacção de jornal. Li-a há quase 30 anos, numa edição muito posterior a esta, que tem a nobre chancela da velha Portugália Editora e capa desenhada por João da Câmara Leme (1930-84), um dos nossos melhores ilustradores do século XX, também responsável pelo grafismo das edições originais de Felizmente Há Luar, de Luís Sttau Monteiro, Barranco de Cegos, de Alves Redol, e Apelo da Noite, de Vergílio Ferreira, entre tantas outras.

É uma edição em muito bom estado, integrada numa colecção então intitulada "novos romancistas", o que demonstra a velocidade de esgotamento deste género de rótulos. E traz, como atracção suplementar, um autógrafo do autor, datado de Junho de 1968 e dirigido a uma "confrade das letras", cujo nome menciona.

Nem hesito: trago comigo O Secreto Adeus (título de que sempre gostei). Custou-me 25 euros, preço módico atendendo à data da edição e ao autógrafo personalizado.

E com a vantagem suplementar de ter impressas todas as vogais e consoantes. Sem mutilações.

 

III

Lamento, caríssimos herdeiros de Sophia, mas tenho demasiada consideração pela autora dos Contos Exemplares para lê-la numa grafia que ela não escolheu nem certamente defenderia. Como nem o próprio editor defende.

Felizmente restam as edições antigas, cada vez mais disponíveis por aí. Felizmente também há ainda muitas editoras que resistem em render-se ao acordês, recusando perpetuar delitos de lesa-cultura em páginas impressas. Felizmente, neste ano de 2013, podemos ver Sophia bem reeditada. Abro a décima edição de Coral, por exemplo, lançada há poucos meses pela Assírio & Alvim (por ironia, pertencente ao grupo Porto Editora), escolho um poema ao acaso: "Nardo / Pesado e denso, / Opaco e branco, / Feito / De obscura respiração / E de nocturno embalo."

Assim mesmo. Sem a supressão de supostas consoantes mudas.

À memória de Sophia e daqueles que sabem respeitar o seu legado literário, aqui fica a calorosa homenagem deste leitor atento.

 

Leitura complementar:

Há males que vêm por bem

Como desperdiçar clientes em tempo de crise

Como desperdiçar clientes em tempo de crise (2)


64 comentários

Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 30.10.2013 às 13:55

vamos supor que não lê grego, mas quer ler um poeta ou escritor grego traduzido para uma língua que entenda e que a tradução para português está escrita apenas e só no tal acordês. vai preferir ler a tradução em inglês ou chinês?
ele há gente para tudo, oláseá
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 14:05

Não me refiro a um escritor grego, nem a um caso abstracto. Menciono um caso concreto, passado em Portugal, com uma escritora portuguesa - uma das melhores de sempre - que tem uma parte da sua obra mutilada por uma editora e outra parte da sua obra respeitada por outra editora, por sinal pertencente ao mesmo grupo editorial da primeira.
E tudo isto por causa de um "acordo" supostamente destinado a unificar a língua portuguesa, na sua versão escrita, e que não unifica coisa alguma. Nem sequer dentro do mesmo grupo editorial.
Como se não nos faltassem fenómenos do Entroncamento, tínhamos que inventar mais este...
Imagem de perfil

De João Campos a 30.10.2013 às 14:30

A pergunta não era para mim, mas dou-lhe resposta: optaria pela tradução inglesa. Com a vantagem acrescida de que a compraria por metade do preço da edição portuguesa, ou menos.
Sem imagem de perfil

De fernando antolin a 30.10.2013 às 15:56

João Campos, pelo comentário, chapeau !!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 15:58

E eu acrescento: língua inglesa que nunca precisou nem precisa de acordo ortográfico algum.
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 30.10.2013 às 20:21

yes, ou ναί em grego...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 21:23

Também pode ser em chinês: 'Hai' ou 係
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 30.10.2013 às 20:36

sim, não terá acordo ortográfico, mas teve a sua evolução ortográfica...
http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_the_English_language#Modern_English

e existirá língua mais fonética que esta? cough, cough, clap, clap, crash, crash, crush, crush, whistle, whistle, laugh, laugh...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 21:10

Evolução ortográfica, todas têm. "Acordo" imposto por meia dúzia de académicos à revelia de todos os pareceres científicos conhecidos é que não.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 03:35

Algo de vagamente semelhante a um "acordo ortográfico" seria impossível em Inglaterra, e por vários motivos: 1º Inglaterra é dos países com maior literacia, o que leva a que a ortografia estabilize: quanto mais culto o país, menos mudança ortográfica (seja ela evolutiva ou involutiva ). 2º A "ortografia fonética" foi uma ideia de há 250 anos... Ao mesmo tempo que em 1911 se estropiava o português, o ministro Afonso Costa prometia nem nome da "ciência" um Código Penal que acolhesse os ensinamentos da frenologia (sic) - sim a teoria das bossas de Lombroso . A ortografia fonética está ao mesmo nível.
Por último, 3º, - mas não menos importante: é impossível numa democracia avançada fazer um décimo do que aqui se quer fazer. Em Espanha - em que as mudanças, além das da hifenização, atingem 10 ou 12 palavras (sic) tudo é meramente indicativo. Explicava uma linguista da Academia que era impossível que o Acordo fosse obrigatório - por respeito para com os escreventes.

O acordês é um produto do atraso e da incipiência da democracia na sociedade portuguesa, um genocídio cultural.
Em qualquer país democrático a história da sua ilegalíssima imposição seria tratada como aquilo que é: um caso grave de polícia que podia começar logo na história da ameaça da dissolução da Academia pelo ministro da altura - história contada no Parlamento.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 18:29

Aqui, pelo contrário, a meia dúzia de crânios que pariu este aborto acabará com a fatal comenda ao pescoço.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 19:56

Depende apenas de nós.
Por mim, há factos suficientemente graves para inquéritos a sério.
Já em 2008, perante as razões políticas invocadas para o "acordo" (pelo malaca, por exemplo) o Prof. António Emiliano se interrogava onde tinham sido elas apresentadas enquanto propostas ao Povo Português - único soberano em democracia.
Quem mandatou o malaca e outros para fazerem escolhas políticas em nome do Povo Português? Onde foi isso deliberado, como, por quem e porquê? Onde estão as actas das reuniões com as delegações estrangeiras?
E depois admiramo-nos do que nos acontece...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 21:27

Não houve propostas públicas, não houve actas, não houve debate nacional, os pareceres científicos foram olimpicamente ignorados. Um processo que envergonha a democracia portuguesa.
Sem imagem de perfil

De gty a 01.11.2013 às 15:33

Um processo que leva à ilegitimidade do acordês
Aquela gente que nunca vai a votos mas está sempre no poder, não perceberá que é grotesco e insustentável que a ortografia da língua materna seja um motivo de dissenção profunda?
Na vida pública portuguesa há uma falta de sensatez que vai até à monstruosidade.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 03:39

Without a doubt!
Olha, um b que não se lê!
Why is there a "b" in doubt?
A não perder:
http://www.youtube.com/watch?v=YvABHCJm3aA
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 31.10.2013 às 10:20

pois...há quem discorde:

• Misguided Spelling Reforms
"The 16th and 17th centuries must surely be the Golden Age of . . . etymological tinkering. . . . A 'b' was added to debt, making explicit a distant link to Latin debitum. The 'b' might be justified in the word debit that we stole directly from Latin, but it was the French who gave us dette, and there was no 'b' in its spelling back then. Subtle and doubt also received their 'b' as an attempted spelling reform. Notice, too, that such is our high regard for the authority of the written language that these days we speak of these words as having a silent 'b.' The consonant was erroneously inserted, and now we accuse these words of losing it!

"Around the same time as 'b' was being added to debt, subtle and doubt, coude was given an 'l' so that it would look like would and should. The thinking here is even more wrongheaded. Could has no etymological connection whatsoever with words like would, and the addition of 'l' is totally unjustified."
(Kate Burridge, Gift of the Gob: Morsels of English Language History. HarperCollins Australia, 2011)
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 14:16

Que inveja! Em Inglaterra há, como em todo o mundo culto, discussões académicas.
O que não há é boçais campanhas de desinformação e atropelos à Democracia e ao Estado de Direito.
Quanto tempo demoraria o Parlamento Inglês - onde os deputados prestam efectivamente contas ao Povo (o deputado pode ganhar e perder o seu lugar por um voto) - a rejeitar uma proposta que alteraria a grafia de milhares de palavras da Língua Inglesa e que é rejeitada por 80% do Povo, com os seus grandes intelectuais à cabeça?
5 minutos? Entre gargalhadas?
Apenas em Portugal os hábitos herdados da ditadura permitem o presente abuso e desprezo pela Lei.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 18:30

Consoante que não se lê? Chumbo grosso nela.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 03:49

Tsc, tsc, a coisa vai-se modificar, Pedro Correia: o Bechara já avisou que o inglês está em mau estado, que precisa de uma ajuda brasileira e que ele, Bechara, podia ajudar. É de crer que, nos próximos anos, consiga uma cunha para almoçar com um bedel de uma das faculdade de Oxford ou Cambridge e lhe exponha o caso da reforma do inglês.
(Em Inglaterra há, bem entendido, lojas, mas ocupam-se com projectos de beneficência e não em sabotar a discussão pública ou em subverter as regras mais elementares da democracia).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 18:35

Onde haja língua com unificação à míngua, o Bechara lá chegara.
Sem imagem de perfil

De gky a 31.10.2013 às 03:11

Mas há dúvidas? Em inglês, claro!
O que eu tenho lido em inglês - e em francês - à custa do acordês!
Uma coisa tenho de confessar: tenho poupado dinheiro.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 18:35

Moi aussi, mon cher.
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 31.10.2013 às 20:40

vá a maria de dunquerque ou ládonde équelaé ouvir isto das poupanças por causa do acordortográfico e ainda mete 2 ou 3 destes no orçamento para 2014...
prámim émigual.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 21:15

O (des)acordo permite poupar. Em hífens e consoantes.
Sem imagem de perfil

De Miguel a 04.12.2013 às 23:04

"vamos supor que não lê grego, mas quer ler um poeta ou escritor grego traduzido para uma língua que entenda e que a tradução para português está escrita apenas e só no tal acordês. vai preferir ler a tradução em inglês ou chinês?"

Inglês, obviamente. Não só ficará mais barato, não só será o livro mais compacto e leve (pois é assim que os ingleses e americanos sabem fazer livros), como não terei de estar a corrigir mentalmente o texto linha sim linha não.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 05.12.2013 às 00:15

Tal e qual, Miguel.
Imagem de perfil

De Ssssstress a 30.10.2013 às 14:21

Apetece-me lembrar Pedro Homem de Melo que quando escreveu o que escreveu, fê-lo na língua e na vida em que tudo aprendeu. Permito-me, num claro abuso à sua também excelente poesia, substituir "vida" por "língua; e então seria assim:

"Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua LINGUA não."

Cumprimentos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 21:11

Vem muito a propósito.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 12:08

Aliás a grande maioria dos nossos poetas - de Pedro Tamen a Nuno Júdice, passando por Manuel Alegre - continua a escrever segundo a convenção luso-brasileira de 1945 (denunciada unilateralmente pelo Brasil dez anos mais tarde), não a de 1990, e milita frontalmente contra o analfabetismo acordístico.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 30.10.2013 às 14:35

O Pedro também não lê Camões nem Eça nem Fernão Lopes na grafia original - lê na grafia moderna. Não vejo, por isso, que confusão lhe faz ler Sofia na grafia atual.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 30.10.2013 às 16:17

Sophia e não Sofia, que ainda não vale tudo. No seu afã de cumprir as regras do acordês até os nomes próprios você modifica, Luís Lavoura.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 31.10.2013 às 00:48

Há uma tradição quanto aos nomes próprios que faz com que falemos da Rainha Isabel II e não Elisabeth II. Não me parece assim errado falar do nome próprio Sofia, e não da sua forma original - é um hábito e até norma com nomes próprios. É claro que o nome registado é Elisabeth num caso e Sophia no outro, mas isso não altera que sejam nomes próprios comuns, e possam ser usados como tal.

Quando o Estado obriga uma grafia de nomes, Sophia e Sofia são o mesmo nome.

Por outro lado, acho que na velha Europa, só em Portugal é que os residentes não se tinham que preocupar em adaptar a grafia/fonética dos seus apelidos ao país de acolhimento, quando passavam para os filhos, o que é revelador. Como exemplo basta reparar que até em Espanha os Bourbon passaram a Borbón.

Não foi apenas questão de acordo ou desacordo que uns tivessem ficado Baptista, outros Batista, uns Mello, outros Melo, etc... sabemos bem que há um não-sei-quê kitsch-chique nestas coisas, que fica bem numa conversa de senhoras entre scones e chá.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 31.10.2013 às 01:51

Não posso concordar consigo, da Maia, e ainda menos neste caso específico porque não se trata só de um nome de família mas também de um nome literário, uma marca. Seria igual, por absurdo, a chamar Nique à marca desportiva Nike porque na grafia portuguesa não se usa o K.

Mas fiquei a pensar em como ficaria o nome em acordês moderníssimo, logo este que é tão cheio de letras inúteis ou inexistentes em português. Vejamos: Sophia de Mello Breyner Andresen? Nem pensar. Ora deixa ver... talvez Sofia Melo Barata André. Que tal? :-)
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 04:49

Já vi escrito "x-ato", que é uma marca registada, assim conhecida internacionalmente.

O afã da criadagem daqui é implacável, correndo até o risco de desagradarem aos patrões: http://www.xacto.com.br/
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 12:04

Mais acordistas do que o "acordo". É o que mais para aí há. Acontece quando a subserviência se alia à necessidade imperiosa de parecer "moderno".
Sem imagem de perfil

De da Maia a 31.10.2013 às 11:11

Cara Ana, nem sempre temos que estar de acordo ;-)
Eu até prefiro usar os nomes na grafia original, para evitar confusão entre um Juan II castelhano e um João II português, ambos do Séc. XV. No entanto, a norma não é essa, e há um sentido comum nos nomes, ainda que pela origem a grafia seja diferente. Nesse caso devem ser usados na grafia em uso, e aqui, quer seja antes ou depois de 1990, o nome Sofia não teve alteração. É diferente o aspecto "marca" que pode ser inovador, do aspecto "nome próprio" que é um substantivo conhecido. Quando o Luís fala em "Sofia" está a falar da escritora e não da marca literária, creio eu.

De facto, Andresen é um patronímico que remeteria na nossa tradição a Andrés, como Henriques eram filhos de Henrique, Álvares de Álvaro, etc... mas o uso mais recente deu-se no singular e ficou apenas André, mesmo como apelido.
Repare que ninguém acha estranho dizermos Lencastre e não Lancaster - apesar da origem inglesa, o apelido era até escrito como Alencastro... mas isso vem de tempos em que Portugal se assumia per se, e não era visto como apropriado continuar a remeter-se explicitamente a origem a outras paragens. Depois, a terrinha passou a servir de colónia, de férias para uns, penal para outros... com os resultados que temos vistos nestes últimos séculos.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 03.11.2013 às 13:30

Não, de facto não temos de estar sempre de acordo e não há mal nenhum nisso. Mas cito-o: "Quando o Luís fala em "Sofia" está a falar da escritora e não da marca literária, creio eu.". Ora, é exactamente nesse "creio eu" que está o busílis: para quê complicar e ter de interpretar a intenção de quem refere um nome, quando esse nome tem uma determinada grafia escolhida por quem o usa (ou usou, neste caso) e essa grafia está tanto no BI como na assinatura literária? Não vejo qualquer vantagem nessa esquizofrenia ortográfica, confesso.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 04:20

"Quando o Estado obriga uma grafia de nomes"

De nomes e sem ser de nomes, grafias obrigatórias são uma ideia que muito seduziram as ditaduras.

Todas as modificações da ortografia em Portugal foram ditatoriais (1911 e 1945 e 1973). Também no Brasil, sendo que o convénio de 1945 foi repudiado por motivos políticos xenófobos: a verdade é que os brasileiros (ou antes, a clic branca ou assimilada que sabia ler) rejeitaram a ortografia de 1945 apenas por "parecer lusitanizante" (Houaiss dixit em 11 de Maio de 1986, em entrevista ao Folha de S. Paulo.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 04:43

Os Borbón, dinastia estrangeira e de um país historicamente rival da Espanha tiveram de nacionalizar o nome.

E a Família Real Britânica deixou de usar o seu nome alemão de Saxe-Coburgo-Gotha e adoptou o inglês Windsor aquando da 1ª Guerra.

Tudo isto para apenas nos faz mais cientes da riqueza simbólica do idioma pátrio e do melindre que envolve qualquer modificação - ademais quando ditadas por pueris ambições de uma potência estrangeira e por crendices de "governos mundiais".

As senhoras a tomar chá é uma imagem pouco feliz se pretendia remeter as coisas para o campo das irrelevâncias que outrora se julgava apanágio das "conversas de senhoras": em Portugal Carolina Michaelis e Maria Helena da Rocha Pereira tiveram responsabilidades graves nos atentados à lingua portuguesa. Talvez, se quiser manter o tom, o desejo de novidade vingasse, como no Brasil vingou o antiportuguesismo (segundo Houaiss). O capricho tem um papel importante em política nos países com pouca experiência democrática - e lá diz o malaca que o acordo é tudo política (em 29 de Fevereiro de 2008 era, pelo menos, conforme entrevista ao Expresso).
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 31.10.2013 às 09:27

na velha Europa, só em Portugal é que os residentes não se tinham que preocupar em adaptar a grafia/fonética dos seus apelidos ao país de acolhimento

Por um lado, isso resulta do provincianismo português, a mania de admirar tudo o que vem de fora, nomeadamente da França (antigamente) e dos EUA (atualmente) como sendo evoluído e civilizado. Por isso, os portugueses ambicionam todos ser ou parecer estrangeiros, e imitar os estrangeiros.

Por outro lado, isso resulta da obsessão portuguesa em fingir que se provem de uma família nobre. Isso faz com que os portugueses introduzam nos seus apelidos grafias com um aspeto nobre ou antigo, como por exemplo substituindo "i" por "y" ou utilizando letras dobradas, acrescentando "de" entre os apelidos, utilizando apelidos duplos, e outras foleiradas.

Enfim, questões de um povo inseguro de si mesmo.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 15:47

Não há provincianismo maior do que a ideia da "ortografia fonética", uma coisa francesa de há 250 anos, que o Verney copiou servilmente e traduziu para português.
Claro está que os franceses, que na altura inventavam uma moda por semana, se abstiveram de seguir tal tontice que foi seguida em 1911 em Portugal, julgando, se acreditarmos que agiram de boa-fé, que assim se diminuiria o analfabetismo. Não diminuiu, evidentemente, e ainda hoje estamos 20 lugares abaixo da Espanha em índice de alfabetização... (Não venha com a ditadura, que o franquismo não se notabilizou pelas campanhas de alfabetização).
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 31.10.2013 às 17:12

A ortografia fonética será talvez uma ideia tonta, mas é a ideia seguida em castelhano, em italiano, em alemão, e em muitas outras línguas. Em todas elas, as palavras escrevem-se como se lêem e não há letras supérfluas.
Aliás, recentemente houve uma alteração da ortografia do alemão, precisamente para se passar a grafar foneticamente algumas palavras (creio que na generalidade de origem estrangeira) que ainda não o eram.
Só o francês e o inglês é que não são grafados foneticamente. A generalidade das outras línguas são-no, segundo creio.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 19:37

O seu erro metodológico começa quando considera que a ortografia fonológica (e não fonética) "é uma ideia seguida". O castelhano* ou o alemão não se escreve como se escreve devido a "ideias": aconteceu ser assim, por múltiplos factores, ao longo de séculos.
Quem faz as grandes línguas são o povo e os grandes escritores e poetas, não os linguistas.
O português, no entanto, é escrito como é, actualmente, devido a uma ideia do positivismo francês do séc. XIX e que postulava que a aprendizagem era dificultada pela ortografia etimológica, ideia falsa e desmentida pelas neurociências e desde logo pelos índices actuais de alfabetização de Portugal e do Brasil.
Parece ter sido uma péssima ideia já que Portugal é o país europeu com maior taxa de analfabetismo, persistindo após de 38 anos de democracia, isto quando, a Dinamarca reduziu a zero o analfabetismo em 10 anos... no séc. XIX.
De facto, uma coisa é decretar, outra, bem diferente, é o trabalho de formar professores, contruir e equipar escolas, programas, assegurar a assistência e o aproveitamento de alunos, etc.
É que não há decreto que faça por si o que apenas o trabalho efectivo pode fazer. Isto é, para abreviar, não há magia.






Imagem de perfil

De Pedro Correia a 01.11.2013 às 11:15

O acordo, que pretendia 'unificar' a grafia, conduziu a uma dispersão ainda maior da regra ortográfica, anulando-a na prática.
Cada um hoje escreve como muito bem entende, aplicando a grafia à fonética segundo a sua lógica muito peculiar. As 'facultatividades' previstas no convénio reforçam esta "heterografia", na certeira expressão da ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima. É possível, deste modo, lermos a palavra "sector" escrita num determinado órgão de informação enquanto outro escreve "setor" mesmo quando pertence ao mesmo grupo empresarial. O mesmo se aplica, por exemplo, a "espectador", convertido em certos órgãos de informação em "espetador", sempre dentro da mesma sociedade proprietária. E sempre ao abrigo do mesmíssimo (des)acordo, que autoriza quase tudo e o seu contrário.
Já para não falar nos famigerados 'pato' (em vez de paCto), 'impato' (em vez de impaCto) e 'fato' (em vez de faCto) consagrados até em diplomas publicados no Diário da República, à boleia dos "corre(c)tores" ortográficos de matriz brasileira.
O resultado de tudo isto, em matéria pedagógica e na própria pronúncia das palavras, é o que se adivinha: tudo cada vez mais caótico, a noção de norma cada vez mais distante do nosso horizonte.
Enquanto os brasileiros continuam a escrever como já escreviam, os angolanos e os moçambicanos e os caboverdianos e os sãotomenses e os timorenses e os guineenses e os goeses e os macaenses idem aspas. Alheios ao acordo, nas tintas para o acordo. E fazem muito bem.
Sem imagem de perfil

De ghy a 31.10.2013 às 15:21

"Não me parece assim errado falar do nome próprio Sofia, e não da sua forma original"

Não se trata de falar mas de escrever. Sophia e Sofia lê-se exactamente do mesmo modo, não é?

Sem imagem de perfil

De da Maia a 31.10.2013 às 17:12

ghy: O único comentário que faço ao lateral lido do literal é este.
Sem imagem de perfil

De Costa a 30.10.2013 às 17:46

A grafia actual, havendo alguma que se possa arrogar desse título, é a anterior ao AO90 . Voltamos ao mesmo: mais não seja por elementar rigor jurídico, a Aberração Ortográfica 90 não vigora no ordenamento jurídico português. Resoluções da AR ou do governo são inferiores a leis e decretos-lei, na hierarquia das normas. Não os podem revogar.

É uma chatice, talvez, mas se querem impor obscenidades ao menos façam-no com respeito pelo formalismo e processo legais.

Além disso, essa grafia pré-AO90 , que é de facto a "actual", sendo ela própria fruto de alterações impostas desde 1911 e muito discutíveis, tem pelo menos o mérito de não enterrar criminosamente e de vez a raiz etimológica (embora já apresente alguma tentativa nesse sentido) nem permitir - se não mesmo consagrar - a multidão de ambiguidades e "facultatividades" que a iniquidade 90, pretensamente unificadora (e para quê?) introduz.

Não, não é a grafia de Camões, Eça ou Fernão Lopes. Mas, ainda que alguns disparates desnecessários se lhe possam apontar, é uma sua evolução natural, gradual, sedimentada. Como deve ser. E não um corte abrupto, insensato, artificial, cultural e cientificamente indefensável.

Costa
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 21:40

Sublinho estas suas palavras: "Evolução natural, gradual, sedimentada." É exactamente nestes termos e nestes moldes que devem ser registadas as alterações de uma língua, nas suas diversas facetas - incluindo a ortográfica. Sem necessidade de recurso à duvidosa sapiência de meia-dúzia de pseudo-iluminados que pariram um convénio que logo se cobriu de ridículo por falta de validade científica e por ser materialmente impraticável.
Sem imagem de perfil

De Costa a 30.10.2013 às 23:37

Precisamente. A evolução natural que, se necessário, como elemento estabilizador, a lei vem, uma vez sedimentada essa evolução, consagrar.

Isso em lugar da ruptura centralizadora, intempestiva, de uma lei que vem "ex novo" e sob fundamentação afinal essencialmente política e absolutamente estranha ao idioma e seu uso, impor alterações abruptas, vertidas pelos cérebros de uma reduzida e alegada minoria de iluminados ansiosos por deixar uma marca do seu "génio". Ainda que o simples bom senso - porque ele bastaria - demonstre o ridículo cobarde de tudo aquilo.

Costa
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 12:02

Subscrevo. Com todas as vogais e consoantes.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 16:44

A questão triste é que não são "génios iluminados", mas representantes do subdesenvolvimento e do atraso. , com as costas quentes por uma tradição de falta de democracia e ditadura.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 18:39

Mas dotados de uma subserviência sem limites a certos confrades do lado de lá. Aqueles que deixaram por ratificar o acordo luso-brasileiro de 1945.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 05:09

Convém salientar que a evolução ortográfica consiste na... estabilização. Por isso, as grandes línguas da cultura se mantêm praticamente intocadas há centenas de anos.
A resposta é intuitiva: quem aprendeu bem as regras, não erra e, por isso, não há modificações. Quem, além de aprender, depois lê pela vida fora, ainda errará menos.
A questão é que a ortografia que nos querem impor é um construtivismo político, que parte, aliás, de pressupostos errados v.g. o de que o desfazer das sequências consonânticas de origem grego-romana seria uma "evolução" da língua. É por uma questão meramente terórica e ideológica que os brasileiros escrevem "anistia" ou "indenização"... Não houve qualquer "evolução" nem é uma questão fonética: 2 ou 3 brasileiros pensaram, há cento e tal anos, que era mais "moderno" e disso fizeram lei... Nem em Portugal se regista tal fenómeno (ou ameaças dela), nem em qualquer outro sítio do mundo. "Anistia", só no Brasil. Em todos os outros países o "m" se mantém.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 12:02

Por cá não há "anistia" mas já há imensos "fatos", como se percebe lendo na internet,a partir dos "corretores" de matriz brasileira que se apressam a "unificar" a grafia aplicando unilateralmente cá a norma do lado de lá do Atlântico, à revelia do próprio acordo ortográfico. Que assim se revela um autêntico aborto. Sem "indenização" possível.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 15:17

É de crer que o objectivo seja a imposição da totalidade da norma brasileira. Daí os "contatos" e os "fatos" estes últimos usados sem rebuço e vergonha no diário da república - e sem que tenha saído qualquer rectificação!* **
Mas é assim. E pessoalmente creio que, numa segunda fase, as reinvidicações dos portugueses seriam "atendidas" (em parte, claro) e seriam repostas as consontes "mudas" que fossem pronunciadas no brasileiro (recepção, por exemplo).

*Há, no processo de imposição da norma brasileira, plasmadas em declarações contidass em documentos oficiais, boçalidades referentes a Portugal e à Cultura Portuguesa difíceis de encontrar em documentos internacionais.
** Alguns Senhores Juízes tiveram já de se impor aos funcionários da imprensa nacional que tinham o descaramento de alterarem a ortografia de despachos judiciais escritos na norma vigente!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 18:42

O Diário da República tem sido, de facto, um manancial de boçalidades ortográficas.
Que não doam as mãos a esses doutos juízes. Saiba eu os nomes deles e aqui os divulgarei acompanhados do devido e rasgado louvor.
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 04:11

Já os ingleses e os franceses lêem Dickens e Victor Hugo na mesmíssima ortografia em que aqueles autores escreveram, há perto de 200 anos!
Que digo! As edições escolares de Montaigne mantêm os j'étays por j'étais, etc...

(Por isso a Inglaterra e a França são países atrasados, ao contrário, por exemplo, do Brasil, onde a ortografia tanto avançou, tanto se modernizou!)

Sobre leituras no original cabe ainda referir que Shakespeare é lido e estudado por alunos do secundário em todo o mundo (do Zimbawé à Austrália e ao Canadá - na ortografia fixada nos inícios do séc. XVIII.
E em Portugal, lia-se, no equivalente aos 10º e 11º anos de hoje, não apenas Fernão Lopes, mas a poesia trovadoresca no original.
É uma forma de se ganhar contacto e intimidade com o idioma e a sua história que nenhum país do 1º mundo dispensa.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 11:59

Admira até como é que os ingleses e os irlandeses e os escoceses e os galeses e os norte-americanos e os australianos e os canadianos e os sul-africanos e tantos outros conseguem escrever sem nenhum "acordo ortográfico" e sem nenhuma academia a dizer-lhes onde pôr as consoantes, sonoras ou mudas. E como conseguem - que horror! que anacronismo! que falta de "modernidade"! - escrever praticamente como se escrevia quando a ortografia inglesa foi fixada pelos dicionários de Johnson (no século XVIII) e Webster (no início do século XIX).
Sem imagem de perfil

De gty a 31.10.2013 às 16:10

É muito simples: desde o Zimbawé (país que está 8 lugares acima do Brasil em alfabetização), ao Canadá, passando pelos USA, a ortografia é... da língua, do Inglês.
Ao contrário, os brasileiros, fazem da ortografia um instrumento de exaltação política nacionalista (REFORMA ORTOGRÁFICA E NACIONALISMO LINGÜÍSTICO NO BRASIL http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5%2815%2958-67.html).

É tão esclarecedor que a gente percebe logo porque ninguém comenta - nem que seja para desdizer - as afirmações do Prof. brasileiro.
Diz ele:

"O amor-próprio e o sentimento nacional brasileiros parecem ter, no final das contas, prevalecido.

A década de 1920 é de particular importância para a afirmação do nacionalismo lingüístico brasileiro, o que se pode perceber já nos títulos de alguns livros que inauguram a mesma (por exemplo, A Língua Nacional de João Ribeiro, publicado em 1921). Essa afirmação nacionalista dava-se em geral pela via da negação do estatuto lusitano da língua portuguesa, o que concedia ao nacionalismo lingüístico uma natureza claramente antilusitana e antipassadista: “a bandeira modernista européia, calcada no antipassadismo foi transmudada, no Brasil, para o nacionalismo. No fundo, o nacionalismo era o antipassadismo, a negação da presença portuguesa na linguagem”."
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 31.10.2013 às 19:43

Esse professor não podia ser mais claro.
Sem imagem de perfil

De Isabel Mouzinho a 30.10.2013 às 15:55

Muito bem Pedro! É assim mesmo...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 21:11

Obrigado, Isabel.
Sem imagem de perfil

De Carlos Faria a 30.10.2013 às 18:43

Estou com dificuldade em publicar o comentário, se já tiver recebido, desculpe a republicação abaixo, feita a partir de outro computador.
Não sou um defensor, nem um opositor ao AOLP, tem aberrações e outras coisas que não me chocam, mas como das 8 da manhã até às 5 da tarde tenho de o usar em trabalho, então uso-o a tempo inteiro, pois entraria em parafuso.
Agora não tenho nenhum complexo em comprar um livro de Sophia por questões ortográficas, tal como leio Amado em ortografia diferente da que ele usou e ando em busca de Érico Veríssimo e Guimarães Rosa independentemente da ortografia.
Claro que Pessoa protestou contra as alterações ortográficas no desassossego, mas poucos livros dele hoje vêm escritos na ortografia que ele usou.
Resta-me saber se com o atual ou outro acordo ou desacordo a ortografia oficial evoluir e os livros nacionais passarem todos a uma futura ortografia em vida do Pedro, se ele irá apenas procurar obras em alfarrabistas.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.10.2013 às 21:23

O seu comentário chegou em condições, Carlos. Mas como vinha em triplicado optei por este, o mais recente.

Insisto: um "acordo" que pretendia "unificar" a língua, limitou-se a aumentar as disparidades ortográficas, anomalia inaceitável: não por acaso, chamo-lhe crime de lesa-cultura.
Repare no exemplo que aponto: uma chancela editorial edita Sophia (vá lá, manteve ao menos o nome próprio da grande escritora portuguesa, não o sujeitando ao mecanismo triturador acordístico) em 2012 com a norma de 1990 e outra chancela, pertencente ao mesmo grupo empresarial, edita-a em 2013 com a norma de 1945 - sendo esta aliás a correcta, na perspectiva do próprio administrador e director editorial.
Alguém se entende nesta bagunça? Obviamente que não.
Sophia não merecia, de todo, estes tratos de polé.

Quanto àquilo que o Carlos considera "evolução", não se preocupe. Desde logo, nunca tive a obsessão de andar a abraçar as modas mais recentes, sejam ortográficas ou não. E garanto-lhe que continuo bem acompanhado na minha categórica rejeição do AOLP.
Além disso, é verdade que gosto de frequentar alfarrabistas. Mas todos os dias se editam em Portugal novos títulos mantendo a norma de ortográfica de 1945, que considero inteiramente válida. Basta consultar a minha secção 'Sugestão: um livro por dia'. Já mencionei mais de 130 livros, desde Junho até agora: quase todos recém-editados, todos rejeitando o chamado "acordo ortográfico".
Talvez os livros escritos em acordês terminem mais depressa nos alfarrabistas. Não tardará muito, encontro-os por lá.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D