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Grandes romances (10)

por Pedro Correia, em 20.10.13

 

O VELHO NOVO MUNDO

O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald

 

Era uma época festiva nos Estados Unidos da América, cheia de sinais de abundância e prosperidade. Mas o escritor de talento tem o dom de ver para lá da superfície das coisas. Francis Scott Fitzgerald (1896-1940) percebeu como era ilusório esse brilho. E expôs o seu reverso num conciso romance composto por nove capítulos em que nenhuma palavra sobra e nenhuma palavra falta, um romance que levou décadas a tornar-se um êxito à escala planetária para glória póstuma do autor, em suposto desmentido do mais célebre dos seus aforismos: "Não há segundos actos nas vidas americanas."

A época era a terceira década do século XX, o local era Long Island, às portas de Nova Iorque, pórtico de entrada no Novo Mundo, ponto supremo do sonho americano. Época de todos os devaneios, época de todas as aspirações -- na sociedade, na política, na economia, nas finanças, nas artes e nas letras. Um mundo terminava -- o que fora selado com o armistício de Novembro de 1918, pondo fim à Grande Guerra -- e outro tinha início. Com novas regras, novas etiquetas, novos usos, novas modas, nova moral. Decretava-se a Lei Seca mas todos bebiam como se não houvesse amanhã. Ao som do foxtrot, do charleston e do jazz, cresciam arranha-céus, multiplicavam-se fortunas, a indústria cinematográfica e as editoras discográficas mudavam mentalidades à velocidade a que saíam automóveis das linhas de montagem. Tudo iluminado por faiscantes clarões de néon.

 

E no entanto havia sombras ocultas pelo brilho destas luzes. É disso que Fitzgerald nos fala, com visionária lucidez. E é também isso que ajuda a explicar o lento sucesso alcançado junto do público por esta obra que nos abre sucessivos horizontes a cada releitura e figura hoje invariavelmente nas listas dos dez melhores romances de sempre em língua inglesa, tendo já vendido 25 milhões de exemplares em todo o mundo. Porque O Grande Gatsby sabe ler como nenhum outro os sinais da sua época mas isso só se torna evidente aos olhos das gerações que lhe sucederam. Quando a ilusória rota de optimismo dessa década já desembocara no crash da Bolsa em 1929, na Grande Depressão com o seu cortejo de misérias e no pesadelo da II Guerra Mundial.

As ilusões têm aqui um corpo e um nome: Jay Gatsby. Nunca houve festas tão efusivas e tão efémeras como as que este homem vindo do nada dava na sua sumptuosa mansão do West Egg, em Long Island. "Todas as noites acrescentavam alguma pincelada ao quadro das suas fantasias, até o sono descer, num abraço de esquecimento, num cenário cheio de cor" (uso a tradução de Ana Luísa Faria para a Relógio d'Água, em 1996, embora haja uma versão anterior, e superior, de José Rodrigues Miguéis).

O anfitrião dessas festas magnificentes queria a todo o custo fugir do passado mas também recuperá-lo na pessoa de Daisy Fay Buchanan, paixão desmedida, mulher fatal em todos os sentidos da expressão, com o encanto inesgotável da sua "voz cheia de dinheiro", como o próprio Gatsby confessa ao perplexo narrador, Nick Carraway, desvendando assim uma parcela daquela atracção tão mórbida.

Aquilo que mais o fascinava nela não era o sexo, mas a superioridade social proporcionada por um apelido com fortuna. Gatsby, nascido num humilde lar de lavradores, nunca tinha conhecido uma rapariga de "boas famílias" guiando um descapotável branco aos 18 anos e jamais esqueceu a sensação de deslumbramento sentida ao entrar pela primeira vez na majestosa residência dos pais dela, em Louisville.

Reinventa-se para conquistar aquela jovem "brilhante como prata, segura e altiva, acima das duras lutas dos pobres", transmitindo a sensação de que tinha o mundo a seus pés. No entanto Daisy preferiu juntar o seu destino ao rude e cavernícola Tom Buchanan, assumido racista e mulherengo inveterado, mas com uma conta bancária assente em bases muito mais sólidas do que a de Gatsby, comparável a um castelo erguido na areia.

 

Porque o mundo de que O Grande Gatsby nos fala é feito de aparências sem necessária correspondência com os factos, à mercê do olhar nada neutro do narrador. Um mundo composto de um acentuado jogo de contrastes (tradição/modernidade, cidade/província, ricos/pobres, sonho/realidade) com personagens que mal precisam de sair do esboço para se tornarem credíveis.

Personagens sem lugar fixo: todos os intervenientes neste "romance perfeito", como lhe chamou Anthony Burgess, estão em permanente movimento. Ou acabam de chegar de algum lado ou perparam-se para partir noutra direcção qualquer. Algo só possível nos EUA, um país com enorme mobilidade social. E é em parte por isso que este romance capaz de comover milhões de leitores nos cinco continentes é ao mesmo tempo profundamente americano.

Eis-nos perante a América desenraizada, a moderna América entediada com o luxo, que é também a América desapossada dos seus valores ancestrais, bem simbolizada na ruptura ocorrida entre o falso Jay Gatsby e o pai, talvez a única personagem sem mácula, não por acaso a última a surgir no romance, num claro contraponto às restantes.

Uma América nostálgica do tempo dos pioneiros, quando no lugar da mansão de Gatsby havia uma floresta. E todo o continente era uma imensidão por desbravar. E todas as páginas permaneciam por escrever.

 

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Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Santuário - Sombras profundas num Sul sem sol

Pais e Filhos - Voz do sangue, voz da terra

As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

A Peste - Ratos e homens

O Delfim - Vícios privados, públicas virtudes

A Condição Humana - Um homem é a soma dos seus actos


14 comentários

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De Anónimo a 20.10.2013 às 15:53

Este foi um dos raros casos em que li o livro depois de ver o filme e não fiquei desiludida.
Estava a ler o livro e a ver o Jay Redford, a Daisy Farrow e o 'old sport' Nick Waterston.
Adorei ambos!
Obrigada, Pedro, por me fazer recordar...
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 20.10.2013 às 22:31

Vi o filme de 1974, há muitos anos, com Robert Redford e Mia Farrow: achei-o pouco mais que uma peça decorativa. Depois li o livro em português, na versão original e novamente em português, numa edição mais recente.
Em cada releitura aumentava o fascínio por esta obra tão datada mas tão intemporal.
Não vi o filme estreado este ano, com Di Caprio no lugar de Gatsby. Bastou-me ver o 'trailer', que me pareceu um enorme videoclip, cheio de lantejoulas e muita trepidação própria dos 'spots' publicitários.
Há livros de que gosto demasiado para os ver estragados por realizadores ineptos.
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De Anónimo a 21.10.2013 às 10:16

Talvez se tivesse lido primeiro o livro não tivesse gostado tanto do filme...
Mas gostei. E foi por isso que comprei o livro, nessa altura só o encontrei em inglês.
E gostei tanto que até comprei outros dele: The Last Tycoon e Beautiful and Damned.
Já era tarde para deixar de gostar do filme, afinal estavam lá dois dos meus actores favoritos nessa altura e o argumento era do Coppola.
Mas eu não sou especialista, nada posso dizer da realização do Clayton.
Por isso gosto tanto do livro e do filme.
Também não quis ver o Jay DiCaprio, prefiro ficar com o Redford.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 21.10.2013 às 14:26

Fitzgerald tem outro excelente romance sobre o qual tenciono escrever também, um dia destes: 'Terna é a Noite' (1934). Deu filme, em 1961, com a Jennifer Jones e o Jason Robards. Mas neste caso, para não variar, o livro é muito superior à fita.
Hemingway queixava-se do mesmo: nenhum cineasta conseguia estar à altura do talento dele nas sucessivas adaptações cinematográficas dos seus romances - de 'Adeus às Armas' (1932) a 'O Sol Também Brilha' (1958), passando por várias outras, incluindo 'Por quem os sinos dobram', 'As Neves do Kilimanjaro' e 'O Velho e o Mar'.
Tinha razão, mas só em parte. Porque houve um filme superior à obra literária que lhe servia de suporte: 'Ter e Não Ter', de Howard Hawks (1944). E outro que pelo menos se lhe equivalia: 'Os Assassinos', de Robert Siodmak (1946).
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De Anónimo a 21.10.2013 às 14:42

Comprei o Terna é a Noite em Agosto, nuns saldos da Bertrand, por 7,50 euros, mas ainda não li nem me lembro de ter visto o filme.
O The Last Tycoon também deu um filme do Elia Kazan com o Bob De Niro, mas já não me lembro bem dele.
Por norma os livros são sempre melhores do que os filmes.
Antonieta
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De Pedro Correia a 21.10.2013 às 17:32

'Terna é a Noite' é um excelente romance, sem qualquer dúvida. 'The Last Tycoon' foi o romance deixado incompleto por Scott Fitzgerald e editado no ano seguinte ao da sua morte, numa edição fixada pelo crítico Edmund Wilson, grande amigo do autor.
A obra viria a ser relançada com o título originalmente previsto por Fitzgerald - 'The Love of the Last Tycoon' - em 1993, durante uma reedição das suas obras completas.
Foi o último título cinematográfico de Elia Kazan, com um elenco de luxo, encabeçado por Robert de Niro. O 'último magnata' seria Irving Thalberg, o visionário director da MGM, prematuramente desaparecido no final dos anos 30 após ter assinado enquanto produtor algumas das mais perduráveis obras-primas dessa década.
Foi uma das mortes mais misteriosas de sempre em Hollywood. Thalberg era era rico e célebre e poderoso e ainda bastante jovem.
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De Miguel a 20.10.2013 às 20:40

Mais um D De Budapest, onde estou agora, parece.me optimo.
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De Cristina Torrão a 21.10.2013 às 19:03

Li "The Great Gatsby" na faculdade, há décadas (ui, que velha estou) e vi o filme, com o Robert Reford, também, calculo, há décadas. Se não a rever, pelo menos, e com certeza, a reler ;-)
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De Pedro Correia a 21.10.2013 às 19:10

Da primeira vez que li, achei superficial e irrelevante. Ou seja: não entendi nada de essencial. As grandes obras literárias requerem muitas vezes um certo grau de maturidade para serem bem apreendidas. E requerem também releitura.
Quando a reli, apercebi-me de muita coisa que me tinha passado ao lado. E à terceira aconteceu-me o mesmo em comparação com a vez anterior.
Porque os grandes romances são assim mesmo, Cristina. Inesgotáveis.
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De Cristina Torrão a 22.10.2013 às 11:56

É isso mesmo. Penso que me escapou muito, apesar de ter lido a obra para a cadeira de Literatura Norte-Americana, onde o livro foi, mais ou menos, dissecado. Mas eu tinha apenas 19 ou 20 anos e estou curiosa quanto à minha reação, tendo, agora, mais maturidade.
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De Pedro Correia a 22.10.2013 às 12:59

Arrisco dizer que sentirá o que eu senti, Cristina. Os horizontes expandem-se, a capacidade de apreensão é muito maior. Chegamos lá mesmo, à intenção primeira e última do autor. Neste caso ajudados pelo requinte estilístico de Scott Fitzgerald, que tinha apenas 28 anos quando escreveu este "romance perfeito" (regresso à definição de Burgess).
Certas passagens são tão bem escritas que voltamos atrás de propósito para as reler. Em voz alta, como tantas vezes sucede comigo em casos como este.

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