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Uma hora depois

por Patrícia Reis, em 29.09.13

A escola estava cheia, muita gente nova, famílias com crianças a desatinar, chuva e depois a tristeza de ver a má informação e organização numa freguesia que se quer diferente, dinâmica.

Ao fim de uma hora e pouco, uma senhora respondeu à funcionária da junta: "Ah, não é aqui? Pois, da última vez foi aqui. E eu não sei onde é a escola Manuel Damásio, já se faz tarde, os miúdos precisam de almoçar. Voto na próxima."

Como esta senhora, muitos outros foram de abalada, indiferentes ao apelo ao voto, indiferentes à ideia de cidadania, de democracia, do que foi conquistado há quase 40 anos.

Eu estive, alegremente, em duas secções de voto e depois, fiquei numa secção diferente daquela que julguei certa, mas votei.

Nos três papéis. Três cruzes, nada de bonecadas ou asneiras. Senti-me quase crescida.


6 comentários

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De Acede-se aqui: a 29.09.2013 às 15:34

https://www.recenseamento.mai.gov.pt/
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De E aqui a 29.09.2013 às 15:37

http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/eleicoes-autarquicas-2013-saiba-onde-pode-votar-no-proximo-dia-29-de-setembro
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De Costa a 29.09.2013 às 18:19

Não sei se essas pessoas se foram embora indiferentes ao apelo ao voto e à ideia de cidadania, ou antes por cansaço de um país onde a coisa pública erra, falha, incumpre uma e outra e outra vez, permanecendo na mais imutável e olímpica impunidade e escudando-se na obrigação sempre apontada ao cidadão (deverei escrever o "contribuinte", pois para tudo e mais alguma coisa se pede hoje o NIF, em lugar do número do BI ou CC, o que diz muito sobre a forma como o Leviatã nos encara), por ser seu tão conveniente dever, suprir essas essa perene e sobranceira atitude negligente, quando não mesmo dolosa.

O próprio direito de voto é, entre nós, legalmente isso mesmo: um direito. Não um dever cujo incumprimento redunde em punição (e não discutamos isso aqui, é melhor não dar ideias ao fisco...). É assim, concorde-se ou não. E, concorde-se ou não, uma das formas de afirmar a titularidade de um direito é a abstenção de o exercer. Mais não seja pelo tal "solene desdém": o nojo de achar quem se candidata como sequer marginalmente digno de me impelir ao cumprimento de um alegado dever.

Votei, hoje. Levado por minha mulher, talvez mais idealista ou optimista do que eu. Mas porque me considero um órfão político (porque aqueles mais próximos de mim se revelaram e revelam reiteradamente mentirosos e alimentadores de clientelismos descarados e criminosos; e porque os outros perfilham ideologias assassinas e que o tempo desmascarou aos olhos de todos menos dos fanáticos ou desesperados - "better red than dead" não é para mim), cuidei de encher os tais três boletins de rabiscos.

É que não confio nuns e noutros e no que poderiam fazer com o meu voto branco. Não os acho mais dignos de confiança - uns no desespero de se aguentarem no poleiro, outros na ânsia de aproveitar o que pareça uma oportunidade de ouro para nele se instalarem - do que aqueles que, no tempo do Estado Novo (e antes disso, por exemplo na tão idolatrada Primeira República) manipulariam essas coisas.

E não me acho inconsciente, retrógado, anti-democrata, indigno. Não. Apenas actuo em legítimo desprezo por essa gente, os políticos. E, sobretudo, em legítima defesa. Com o meio que me resta. O voto e o que eu dele entenda fazer.

Os tais quase quarenta anos que invoca, minha senhora, deram nisto. Orgulhe-se deles. Se quiser.

Costa
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De Patrícia Reis a 29.09.2013 às 18:30

Caro Costa, compreendo perfeitamente o que escreve, acredite. E sim, orgulho-me de quase 40 anos de democracia, não sendo perfeito, é o menos mau. Pelo menos eu tenho histórias de família pouco simpáticas sobre o outro tempo e não as desejo, iguais ou semelhantes, para os meus filhos. Um resto de bom domingo
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De Costa a 29.09.2013 às 19:07

Pelo menos, minha senhora, esses quase quarenta anos permitem-nos manter hoje esta troca de impressões. Não o ignoro.

Mas ficaram tão, tão aquém do que legitimamente lhes poderíamos exigir; tão venais, irresponsáveis e intocáveis permanecem, em insolente e mal explicada abastança impune, vomitando inanidades arrogantes, os seus principais arautos, "senadores" ou ditos "pais da democracia", que um profundo desconsolo e desengano são o mínimo que se pode sentir.

Não tenho dessas histórias que invoca, na minha família. Não casos de prisão, exílio, tortura, demissão ou interdição de exercício de actividade. Mas, como tanta e tanta gente, bem perto de mim passou a auto-limitação: o silêncio quando apetecia falar, o que se não fez para evitar problemas. Mais não seja porque nem todos têm - ou têm que ter - índole de herói ou mártir. E é sempre preciso alguém que trabalhe para pagar as contas. Coisa banal, mas inevitável.

Mas isso não retira um átomo à minha desilusão, ao seu fundamento e legitimidade, perante todo este esterco em que vivemos.

Boa "noite eleitoral".
Costa
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De cr a 30.09.2013 às 12:43

Obrigada Patricia por ter ajudado a cumprir a democracia.
:)

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