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Arrumar a biblioteca (XVII)

por Pedro Correia, em 27.09.13

 

Millôr, Castrim e Vasco Pulido Valente

 

Há pessoas que jamais escrevem num livro: são capazes de o ler de fio a pavio sem lhe fazerem um risco. Comigo é ao contrário: nenhum livro fica por riscar. Sublinho passagens que me parecem importantes, assinalo incongruências, marco sempre gralhas tipográficas ou erros factuais (vício que me ficou de 25 anos a editar e reescrever textos alheios) e até insiro notas de rodapé que caberiam a autores ou tradutores.

Não há livros imaculados. Recentemente, relendo pela terceira vez O Delfim, de José Cardoso Pires, descobri algumas falhas que escaparam ao olhar de vários editores certamente muito atentos.

Eu escrevo nas margens, sempre a lápis. "Dialogo" com o autor -- fazendo perguntas, aplaudindo, indignando-me ou mostrando a minha perplexidade por determinados trechos. É uma das minhas manias enquanto leitor. Julgo que terei começado com O País das Maravilhas, de Vasco Pulido Valente, quando tinha 18 anos. E nunca mais parei.

As anotações são fundamentais para nos permitirem escrever um dia sobre as obras que vamos lendo e sobretudo para conservarmos a memória do que lemos. Nos livros de contos, por exemplo, comecei a atribuir estrelas -- de uma a cinco -- por cada história que ia lendo. A partir de certa altura passei a atribuir essa classificação a todos os livros: não acabo nenhum sem lhe pôr, além da data, as estrelas que a meu ver merecem.

 

Estou para aqui com esta conversa e ainda não vos disse que arrumei hoje os livros de autores portugueses pertencentes a géneros que não se circunscrevem às artes literárias. Livros de ensaio, história, memórias, biografias, colectâneas de artigos publicados nos jornais, textos de blogues transpostos para livros (Pedro Mexia, João Caetano Dias, Paulo Pinto Mascarenhas, João Gonçalves e alguns outros).

São muitos e variados. Desde as obras do grande Oliveira Martins (Portugal Contemporâneo, História de Portugal, História da Civilização Ibérica, Os Filhos de D. João I, A Vida de Nun'Álvares, O Príncipe Perfeito) às de Mário Domingues. Passando por António Sérgio, Vitorino Magalhães Godinho, Orlando Ribeiro, Óscar Lopes, António José Saraiva, José Gil (Portugal, Hoje -- O Medo de Existir), António Barreto e Maria Filomena Mónica. Ou os Textos Filosóficos de Fernando Pessoa.

E muitos mais. A excelente biografia de Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses, por exemplo. Outras biografias: Álvaro Cunhal (por Pacheco Pereira), Mário Soares (por Joaquim Vieira), Sá Carneiro (por Miguel Pinheiro), Marcelo Rebelo de Sousa (por Vítor Matos), Aníbal Cavaco Silva (por ele próprio). Os três volumes da imprescindível entrevista-biografia de Soares assinada por Maria João Avillez, também autora de Outras Palavras, Francisco Sá Carneiro: Solidão e Poder e Conversas com Álvaro Cunhal. O ex-líder comunista está igualmente em destaque na obra Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, do meu amigo João Céu e Silva.

 

E ainda as crónicas jornalísticas de gente tão diversa como Cardoso Pires, Alexandre O'Neill, Fernando Assis Pacheco, José Rodrigues Miguéis, Natália Correia, Ruy Belo, Victor Cunha Rego, João Pereira Coutinho e Mário Castrim (do antigo crítico de televisão do Diário de Lisboa tenho vários, com autógrafos que guardarei sempre como grata recordação das conversas que mantive com ele).

Sem esquecer os brasileiros, excepcionais praticantes deste género jornalístico que é também um género literário: Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Millôr Fernandes.

E também os diários: sou desde sempre leitor atento e entusiasta de diários. Assinados por Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago, João Palma-Ferreira e Marcello Duarte Mathias, só para me manter nos autores portugueses. Ou Josué Montello, entre os brasileiros: "A vida seria uma vulgaridade, com a rotina dos dias e das estações, se não soubéssemos apreciá-la, buscando admirar os seus mistérios e subtilezas", escreve ele no seu Diário da Tarde.

E memórias, também muitas e variadas. De Marcello Caetano, Humberto Delgado, Mário Soares, Freitas do Amaral, Edmundo Pedro, Pires Veloso, Hall Themido, Rui Mateus, Pedro Feytor Pinto, Miguel Urbano Rodrigues. Sem esquecer a magnífica trilogia O Mundo à Minha Procura, de Ruben A, que recomendo a todos quantos gostem de ler.

Cada um já está no seu lugar.

 

Hoje, talvez por estar de chuva, apetece-me ouvir em sessões contínuas a bela partitura de Bernardo Sassetti para Alice, filme de Marco Martins.

 

Até para a semana.

 


8 comentários

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De Ana Duarte a 27.09.2013 às 13:14

O Mundo à Minha Procura é um título muito sugestivo, mas três volumes confesso que me desencoraja...
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De Pedro Correia a 28.09.2013 às 00:10

Nada como começar a leitura pelo primeiro, Ana. Os outros vêm por acréscimo, com toda a naturalidade.
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De Anónimo a 27.09.2013 às 14:28

Também gosto muito de diários, crónicas, memórias e entrevistas, bem como dos livros em que tudo isso se mistura, por exemplo o "Outras Cores" do Orhan Pamuk ou a "Contemplação Carinhosa da Angústia" da Agustina.
Destacaria ainda "A Descoberta do Mundo" da Clarice Lispector e "O Mundo não é Chato" do Caetano Veloso nas crónicas; os diários do Torga, Vergílio, Saramago e "Não Percas a Rosa" da Natália nos diários; o "Livro das Horas" da Nélida Piñon nas memórias e, nas entrevistas, os livros da Maria João Seixas, Inês Pedrosa, Paula Moura Pinheiro e Anabela Mota Ribeiro.
Também tenho um cantinho dedicado ao Professor Agostinho da Silva, com vários livros e os DVD das Conversas Vadias.
Antonieta
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De Pedro Correia a 28.09.2013 às 00:13

Consumo o mais possível diários, memórias e biografias. Felizmente agora existem cada vez mais biografias entre nós depois de algumas décadas de quase total abandono deste género. Chegou até a dizer-se que os portugueses não gostavam de ler biografias, disparate desmentido pelos factos: estes são hoje dos livros com maior procura entre nós, à semelhança do que sucede lá fora.
Infelizmente, há ainda poucos livros de memórias. E os diários com genuíno interesse continuam a contar-se pelos dedos.
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De Anónimo a 27.09.2013 às 14:54

Tenho e gosto muito da "Alice" do Sassetti. Aqui também está a chover torrencialmente, ela fazia falta, eu sei, mas precisava vir com tanta força?
Pedro, e o Brideshead está aí a fazer o quê?
Será que já está a preparar "Grandes livros que deram grandes filmes ou séries"?
Eu tenho um cantinho com livros e séries inglesas, por exemplo "The Jewel of the Crown" e a incontornável Jane Austen.
Bom, para a semana termina esta série...
Bom fim de semana!
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 28.09.2013 às 00:19

Isso é que é golpe de vista, Antonieta. O 'Brideshead' não está ali a fazer nada de especial. Foi um acaso. Deixei ficar porque 'desarruma' propositadamente a fotografia, no bom sentido. Para variar das outras.
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De Alice Alfazema a 27.09.2013 às 18:33

Gostei dessa ideia de escrever nos livros, também será interessante para quem ler depois (esse mesmo livro), e verificar aquilo que outro pensou ou até sentiu. Eu, até ao ano passado não escrevia nem sublinhava livros, entretanto tive de mudar de estratégia, pois tal como diz as anotações são fundamentais, para quê deixá-las num outro sítio qualquer?

Para quando a inauguração da biblioteca?

Bonita a Alice, também tenho um compositor cá em casa, é fantástico ver como nasce e cresce uma composição, tal como na arrumação da biblioteca, muita coisa acontece pelo meio, depois no fim há então um sossego de nostalgia.

Bom fim de semana.
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De Pedro Correia a 28.09.2013 às 00:21

Um compositor em casa? Isso é que é privilégio, Alice...
Vá continuando a escrever nos livros: é parte integrante da leitura. Ao passarem pela nossa vida, deixam sempre um certo rasto. E nós deixamos um rasto neles.

Bom fim de semana.

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