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Grandes romances (9)

por Pedro Correia, em 22.09.13

 

UM HOMEM É A SOMA DOS SEUS ACTOS

A Condição Humana, de André Malraux

 

«Todos os homens se assemelham à sua dor.» (p. 39)

 

Há livros que nos marcam de tal maneira que muitos anos depois ainda recordamos certas cenas neles contidas. Pelo seu carácter pungente. Pela força que nos transmitem. Pela sedução do estilo do autor. Pelo seu incomparável registo documental. Ou por tudo isto um pouco. Basta lembrar a morte do avô, em As Vinhas da Ira, de Steinbeck. A distribuição da magra ração de subsistência aos detidos no gulague, um Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Soljenitsine. A lebre avistada a cem metros, do outro lado da cerca, pelos esfomeados  prisioneiros no campo de concentração nazi que se imaginam a comê-la, em A Centelha da Vida, de Remarque.

A Condição Humana -- romance publicado em 1933 que valeu ao seu autor, André Malraux, o prestigiado Prémio Goncourt e a consolidação da fama aos 32 anos -- tem pelo menos três cenas inesquecíveis. Recordo-as propositadamente fora da sequência cronológica por um motivo que já explicarei.

Que cenas são?

A dos detidos após a abortada tentativa de insurreição que se sabem condenados à mais cruel das mortes, disputando insuficientes cápsulas de cianeto para evitarem ser queimados vivos por aqueles que ainda na véspera eram seus aliados nos dédalos da China revolucionária.

A do antiquário francês convertido em traficante de armas que, num assomo de cobardia, deixa os minutos escoarem-se numa febril sala de roleta, crente de que "o jogo é um suicídio sem morte", e vê esses minutos transformarem-se em horas enquanto dissipa uma fortuna e condena antecipadamente à morte um amigo que só poderia ser salvo com uma palavra de advertência sua.

E, acima de todas, a cena em que Tchen, um convicto militante comunista chinês, comete pela primeira vez um homicídio. Deixei este episódio para o fim, apesar de ser o primeiro na ordem cronológica, porque nenhum outro assinala de forma tão decisiva uma fronteira moral na condição humana, justificando desde logo o título do romance.

 

 

É noite cerrada num quarto de hotel de Xangai. Tchen prepara-se para matar um inimigo político adormecido: o superior interesse da revolução assim o exige. Sabe que não falhará. E sabe que não voltará a ser o mesmo. Há uma linha muito ténue que separa a civilização da barbárie e o homem das espécies animais, que matam apenas por instinto de sobrevivência ou imperiosa necessidade de defesa.

Pouco antes de cometer o crime, em nome de fins que procuram justificar todos os meios, Tchen fere-se propositadamente com a mesma faca que lhe servirá para matar. Como se o seu sangue de algum modo redimisse o irreversível apagamento daquela vítima adormecida. E a suprema razão do partido -- tal como a chamada "razão de Estado" -- se sobrepusesse naturalmente à voz da consciência que nos induz em sentido oposto, mandando separar o homem da fera assassina. Mesmo perante o mais desprezível de todos os seres.

 

 

Nenhum intelectual como Malraux aliou tanto o pensamento à acção, na vida como na obra, enquanto testemunha directa de alguns dos mais trágicos acontecimentos do século XX -- a dolorosa eclosão do comunismo na China, a guerra civil espanhola, a resistência ao invasor na França ocupada pelas divisões blindadas de Hitler. Como a personagem central deste seu romance, acreditava firmemente que "as ideias não eram para ser pensadas, mas vividas". Porque "um homem é a soma dos seus actos, daquilo que fez e do que pode fazer". Tal como Kyo, filho de pai francês e mãe japonesa, "escolheu a acção de forma grave e premeditada como outros escolhem as armas ou o mar".

Protagonista de enredos reais que logo transportou para o imaginário colectivo, nado e criado numa família de suicidas, aquele que muitos consideram o melhor escritor francês do último século, e sem dúvida um dos mais populares, foi também um singular cronista do fracasso inscrito no destino humano. Neste seu romance, como em vários outros, todos os planos saem gorados e todos os esforços se revelam aparentemente inúteis. Mas nem a consciência antecipada do malogro faz alterar o rumo dos acontecimentos. Como se tudo estivesse condenado a um final infeliz.

No entanto, A Condição Humana -- classificado em quinto lugar na lista dos cem melhores livros do século pelo jornal Le Monde -- não é apenas o relato magistral de uma revolução falhada (a de Xangai, em 1927, afogada em sangue pelos nacionalistas do Kuomintang). Porque prenuncia à distância de quase duas décadas o domínio comunista no mais populoso país do globo e o irreversível declínio do poder europeu no Oriente (e aqui surgem também referências a Portugal, que tinha na altura uma forte comunidade em Xangai, a maior e mais cosmopolita cidade da China). Chega ao ponto de antecipar a cisão entre Moscovo e Pequim na figura de Borodin, enviado de Estaline para apaziguar os camaradas chineses.

 

Num magnífico prefácio à edição portuguesa do romance (lançada pelos Livros do Brasil em 1958), Jorge de Sena, categorizado tradutor de Malraux, sublinha com evidente acerto que esta obra é "um longo comentário moralista sobre a solidão e a morte, sobre a acção e o destino humano", servido por uma "intensa e asfixiante acção romanesca".

E também com uma galeria de personagens inapagáveis.

Tchen, o revolucionário que se torna terrorista, apostado em "dar um sentido imediato ao indivíduo sem esperança e multiplicar os atentados, não por uma organização, mas por uma ideia: fazer renascer os mártires".

Katow, o austero militante que escapara in extremis à morte na guerra civil russa, fadado para uma heroicidade que não previa.

Kyo, o jovem que troca o conforto burguês pelo trabalho como operário, cheio de certezas na política e de dúvidas na vida amorosa.

O seu pai, o velho professor Gisors, um intelectual há muito desapossado de todos os ideais, trocados pelo ópio, que "só ensina uma coisa: fora do sofrimento físico não há realidade".

O barão de Clappique, mitómano e aventureiro inconsequente.

Hemmelrich, o hesitante activista belga só impulsionado para a luta ao ser tocado por um drama pessoal.

Ferral, o poderoso homem de negócios francês, incapaz de ver na China mais do que uma fonte de lucro fácil, símbolo supremo da decadência europeia.

 

Neste romance, como sustentou Vargas Llosa, "o leitor assiste a uma tragédia clássica incrustada na vida moderna". Servido pela virtude máxima de Malraux como escritor: a sua magnífica prosa, modelar no estilo, exemplar no conteúdo, muito eficaz na criação de atmosferas envolventes e sugestivas. Virtude bem expressa em frases como esta: "A noite desolada da China dos arrozais e dos pântanos invadira a avenida quase abandonada."

Poucos romances são tão capazes de condensar e definir o turvo século XX. Tempo em que deflagraram todas as esperanças e em que ruíram todas as ilusões. Tempo em que o homem se tornou lobo do homem, traindo o mais fundo e o mais belo e o mais inapelável da condição humana.

 

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Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Santuário - Sombras profundas num Sul sem sol

Pais e Filhos - Voz do sangue, voz da terra

As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

A Peste - Ratos e homens

O Delfim - Vícios privados, públicas virtudes


4 comentários

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De Miguel R a 22.09.2013 às 17:02

Óptimo regresso, só faltam 91 :D
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De Pedro Correia a 22.09.2013 às 17:33

Não tinha pensado chegar aos cem, Miguel. Mas parece-me um desafio estimulante. E aceite desde já.
Um abraço.
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De Miguel R a 22.09.2013 às 21:14

Fico muito contente, de certeza que descobrirei obras que terei todo o prazer de ler. Para o lote de 100, se me é permitido, sugeria «Adeus às Armas», «Maias«, «Servidão Humana», «A Insustentável Leveza do Ser», «Por quem os Sinos Dobram», «Guerra e Paz», «O Principezinho», «Cem Anos de Solidão» e «Lunário» (gosto muito de Al Berto, como diz uma amiga minha: ele «sussurra-nos ao ouvido e tira-nos da solidão; não, não estamos sós»).
Abraço.
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De Pedro Correia a 22.09.2013 às 23:23

Quase todos esses farão parte da lista, Miguel. Mas o próximo já está escrito: será sobre 'O Grande Gatsby'.
'Os Maias' têm prioridade quanto a portugueses. Mas é um desafio enorme. Veremos se consigo superar este teste.
Obrigado, de novo, pelas suas palavras de incentivo.

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