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Delito de Opinião

O Abominável César das Neves

Rui Rocha, 16.09.13

Neste artigo publicado no DN, César das Neves aventura-se na técnica da analepse. Empenhado em dar-nos uma narrativa, a sua, que nos permita entender o presente, convoca-nos para um regresso aos anos sessenta do século passado. Pelo visto, por aquele então, os portugueses eram pacatos e trabalhadores, poupados e prudentes. É preciso dizer que sempre que César das Neves olha para o passado o faz na mesma posição de fragilidade que é própria de todos os que acreditam em Deus. Note-se que a presença transformadora de Deus no futuro é uma evidência para os que acreditam. Quem acredita tem esperança. Mas a esperança é uma forma de relação com o futuro. Trata-se de trilhar um caminho para Deus e com Deus e de acreditar que isso pode transformar em sentido positivo a vida por viver. Todavia, e isso é algo contraditório quando o ponto de partida é o postulado de um Deus que tudo pode, Deus parece poder menos no que diz respeito ao passado. Um Deus que tudo pode deveria poder transformar igualmente o futuro e o passado. O certo é que mesmo os que acreditam em Deus invocam o seu nome para mudar o futuro (Deus nos ajude, por exemplo) mas não o passado. Na verdade, não conheço nenhum crente que acredite genuinamente que a intervenção de Deus pode mudar o passado (alterar um facto ou uma cadeia de factos de que resultou uma desgraça, por exemplo). Os próprios milagres são acontecimentos que projectam os seus efeitos no futuro mas não reescrevem o passado. O que ressuscita volta a viver. Mas não deixou de estar morto enquanto o milagre não operou. O que era cego e passou a ver perdeu irremediavelmente tudo o que poderia ter visto enquanto se manteve cego. E o que passou a andar não deixou, pela intervenção de Deus, de ser paralítico num determinado período. O milagre, forma extrema de intervenção de Deus na vida dos Homens, não tem efeitos retroactivos, situando-se, neste particular, um pouco aquém da capacidade modeladora da realidade reconhecida a certas leis fiscais. Para os crentes Deus vale por transformação do futuro mas para o passado tem apenas a força da aceitação (foi a vontade de Deus será talvez a sua melhor formulação). Isto é, Deus poderá ser omnipresente mas, ao que parece, não é omnipassado. Todavia, esta ausência de Deus do passado, mesmo para os que acreditam, não deixa César das Neves desamparado. Se a longa mão de Deus não chega ao passado, deve encarregar-se disso o homem. No caso, o homem das Neves. Se a fé não move as montanhas pretéritas, das Neves assegura o serviço. Se a tarefa não está ao alcance, sequer, de um ser Ideal, das Neves arremete em direcção ao passado através da idealização. Como se sabe, a idealização é o processo psicológico pelo qual se apartam da vista (e do pensamento) os aspectos destrutivos ou negativos do objecto amado, deixando-o provido somente das qualidades e dos aspectos bons. Nesta viagem no tempo das Neves não foi sozinho. Levou consigo uma certa atitude, pontos de referência e ancoragem, determinada mundivisão. Assim não é estranho que nessa busca que poderia, em teoria, abarcar todo o tempo histórico desde a fundação da nacionalidade e, como diria Buzz Lightyear, mais além, das Neves tenha aterrado precisamente na década de 60 do século XX para aí encontrar o protótipo do homem lusitano (e da mulher, vá) pleno de qualidades. Repare-se que esse é um momento em que tudo parecia bater certo. Os papéis estavam bem definidos. A mulher na cozinha e no tanque a lavar a roupa. O bispo no palácio episcopal e nos corredores do poder. Os ricos e poderosos nos gabinetes situados ao fundo desses corredores. Os filhos deles na escola. Os filhos de todos os outros nos campos, junto dos pais, a trabalhar. A partir daí, sabe-se, as coisas nunca mais foram as mesmas. A escola universal. O homem inseguro de si mas capaz de mudar fraldas e a mulher a meter-se em assuntos que até aí não lhe diziam respeito. Os padres confinados à sacristia. Enfim, um desvario, uma galderice. O curioso é que uma mente tão alerta para a presença do diabo (os dados recolhidos numa breve pesquisa na rede levam-me a concluir que os textos de das Neves sobre o demo tendem a ser cometidos no Verão, quando as temperaturas aumentam) não demonstra o mesmo nível de atenção a certos pormenores infernais. César das Neves vê o português dos anos 60 e diz dele ser pacato ali onde o que mandava era a regra da obediência cega e coerciva ao regime, ou à igreja, ou ao pai, ou ao marido e, mais das vezes, a todos ao mesmo tempo. Ali onde César das Neves vê trabalho, estavam a ausência de direitos, o trabalho infantil, a iletaracia e todos os conhecidos aliados de um sistema de exploração. À poupança que faz brilhar os olhos de das Neves melhor chamaríamos acumulação desproporcionada de riqueza por alguns que tinha como reverso da medalha a miséria, a fome, a ausência de mecanismo de apoio social e a mortalidade infantil. A prudência, essa era filha do medo, da censura, da delação e da ignorância. Pegar nesse português dos anos 60 para explicar os ciclos de sucesso e insucesso colectivo dos últimos 40 anos, apelando como não poderia deixar de ser a um mecanismo de alternância entre redenção (trabalhinho) e culpa (prodigalidade), revela uma visão absolutamente míope que não resiste ao mais ténue confronto com a realidade: o Portugal de hoje, falido como está, com todas as suas crises, excessos, défices e insuficiências é infinitamente melhor do que aquele dos anos 60. E se Portugal tiver um caminho não há-de ser o de um sucedâneo do bafio salazarento, do respeitinho anquilosado, do trabalho contra pagamento em pratos de sopa, da beatice, da saúde só para alguns e da educação só para senhoritos como acontecia nos anos sessenta e que tanto parece inspirar César das Neves. Na verdade, tomar esse modelo como exemplo só mesmo por obra do diabo.

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