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Delito de Opinião

Passada com o presente

Teresa Ribeiro, 30.05.09

A minha cesta dos jornais está sempre a transbordar das notícias que eu imagino que estou a perder e que afinal não perdi porque a Internet, as televisões e as rádios as afogaram. Das leituras que ficam para trás distinguem-se algumas colunas de opinião, artigos onde se coligem dados que me interessa arquivar e uma ou outra entrevista que eu quero ler, ou voltar a ler, com vagar. A que Alfredo Mendes deu ao Público a 26 de Fevereiro li no próprio dia em que saiu, mas depois deixei-a ficar. Não para arquivar - a história de um despedimento já não é notícia - nem sequer para reler. Talvez apenas porque a ideia de a meter no lixo me incomoda.

Fotografaram-no bem. Naquela foto de página está tudo: a mágoa e sobretudo o espanto de quem se vê, ao fim de mais de 30 anos de profissão, a ser entrevistado e fotografado por colegas. De repente do outro lado. Não a fazer perguntas de gravador na mão, mas inquirido por dois profissionais de um meio que o regurgitou. Diz que foi despedido durante uma conversa que durou dois minutos. Trabalhava no Diário de Notícias há  32 anos e foi um dos 122 trabalhadores do grupo Controlinveste que receberam, no princípio do ano, guia de marcha.

A dignidade com que se fez ao boneco que ironicamente sela a sua carreira de jornalista é parte do meu problema. Não consigo, mesmo que respeitosamente demore no gesto mais que os tais  dois minutos, mandá-lo para o lixo. Acabo a passar os olhos por dois ou três tópicos desta entrevista e lembro-me que o que mais me perturbou foi ler a descrição que ele fez da forma como foi acolhido na profissão, tinha então 16 anos: quando meti na cabeça que havia de ser jornalista mandei uma carta para o Jornal de Notícias. "Se dentro de uma semana não tiver resposta, escrevo para o Comércio do Porto", lembra-se de ter pensado. Mas a resposta veio mesmo, assinada pelo então subdirector do JN, Freitas Cruz. Era um convite para ir à redacção. Diz que ficou extasiado. No dia aprazado deslocou-se ao JN e aguardou cerca de quinze minutos. De repente apareceu-me um senhor muito aflito, a pedir desculpa pela espera. Era Freitas Cruz, que o aconselhou a seguir estudos mas acabou a convidá-lo para colaborador desportivo.          

Um director a recebê-lo? Um director a desculpar-se porque fez perder um quarto de hora a um miúdo de 16 anos? Parece ficção. Apetece-me embrulhar a cena e metê-la na série Passado Presente aqui do Delito, com a etiqueta Disto já não há. Que contraste entre esse mundo distante que Alfredo Mendes nos deixa entrever e aquele que o dispensou em poucos minutos. Enquanto devolvo a história dele à minha cesta pergunto-me como foi possível chegar a isto. Ao mesmo tempo que me interrogo reparo que está calor, é sábado e estou a perder demasiado tempo com a minha sempiterna pilha de jornais. Com os malditos jornais. Raios os partam! 

2 comentários

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    Teresa Ribeiro 31.05.2009

    Não é por acaso, Cristina, que os livros de auto-ajuda têm tanto sucesso e os ansiolíticos se vendem tão bem. As pessoas vivem num clima de insegurança e agressão permanente.
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