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Arrumar a biblioteca (II)

por Pedro Correia, em 08.09.13

 

Gatsby, Cunhal e o crocante 'grué'

 

Um dos motivos -- senão o principal  -- que me conduziram a esta grande arrumação foi perceber que já não fazia ideia onde estavam os livros, soterrados entre tantos volumes espalhados por quatro divisões, confinados ao interior de gavetas e armários, empilhados numa cama esporadicamente sem uso, muitos ainda guardados em caixotes por abrir.

Apetece-me reler O Grande Gatsby -- onde estará? Não faço ideia: possuo três exemplares, nenhum me aparece. É altura de reler O Leopardo: vou procurá-lo -- mas onde? Busca infrutífera. E como confirmar se já sou proprietário dos Pequenos Contos da Misoginia, de Patricia Highsmith, se tenho tantos livros dela mas todos dispersos? Onde terá ido parar o meu velho exemplar de Mau Tempo no Canal? E o que será feito de Moby Dick, que não o encontro? E aquele livro de Arrabal, que até tinha uma cordial dedicatória do autor?

 

Uma parte começa enfim a ganhar arrumação e ordem enquanto escuto uma balada em que Lennon fala de um bosque na Noruega. Nem de propósito: descubro agora Um Inimigo do Povo, de Ibsen, naquela edição brasileira de bolso que procurei durante meses. Sabia que o tinha, faltava saber onde estava.

A partir de agora começarei a poder responder a perguntas tão simples como quantos livros tenho sobre Salazar (onze contabilizados até agora) ou Álvaro Cunhal (vão quatro até ao momento e cá estaria mais um tomo se José Pacheco Pereira já tivesse publicado o prometido volume ainda em falta da sua biografia do antigo líder comunista).

 

Numa pausa, leio um interessante artigo de três páginas sobre Cunhal na edição de fim de semana do i, jornal que não se publica aos domingos mas faz bem porque a edição de fim de semana costuma ter motivos de leitura para mais de um dia. Simpatizo sobretudo com o suplemento LiV (L de leituras e V de viagens).

A peça sobre o ex-secretário-geral do PCP é assinada por Nuno Ramos de Almeida, que o conheceu pessoalmente e não esconde um certo fascínio pelo político que tantos amores e aversões gerou durante décadas na política portuguesa. A dois meses do centenário do seu nascimento, as edições Avante! acabam de lançar uma fotobiografia de Cunhal, que o Nuno recomenda. Só o preço não é nada recomendável: 22,50 euros.

Passo para o suplemento Fugas, do Público (também de ontem). Duas páginas com loas ao restaurante da Fortaleza do Guincho, "uma experiência gustativa multi-sensorial num registo que convoca o melhor da chamada alta cozinha aliada a uma equipa de gabarito". Quem assina o texto deglutiu o "menu degustação" (80 euros/4 pratos) e assinala que o preço médio por refeição fica ali a cem euros.

Quase me engasgo com a banalíssima tosta de queijo que me serve de almoço ao ler estas linhas e ao saber destes preços: não cesso de me espantar com um certo jornalismo contemporâneo, que rasga as vestes perante a crise nas páginas editoriais e de política enquanto prodigaliza elogios ao luxo no chamado espaço de "lazer", onde a crise fica sempre à porta, os desfavorecidos são ignorados e o culto da ostentação social não parece perturbar o palato e a consciência de quem recomenda preços obscenos. Isto na mesmíssima edição em que, no espaço de opinião, Pacheco Pereira assegura que o "tecido social" em Portugal se rompeu "como nunca tinha sido rompido desde o 25 de Abril".

Encontro um dos exemplares do Gatsby. Das colunas de som chega-me a voz inconfundível de Chico Buarque: "Devagar é que não se vai longe."

 

"A pré-sobremesa quase dispensava o prefixo pois era uma generosa bola de gelado de cereja com um picadinho do fruto na base, e ainda um perfumado morango "maras des bois" de ascendência silvestre. Ao lado, um copinho com caramelo e espuma de café com chocolate. Já nas guloseimas titulares veio o "crocante grué com espuma de fava tonka, cremoso de chocolate Otucan e creme glacé de Amareto", que fazia parte da degustação. Era uma telha cilíndrica de biscoito com o grué (aparas da cápsula que envolve a fava de cacau) caramelizado e a revestir-lhe o exterior. O tubo era preenchido por uma espuma densa de fava tonka (ou cumaru), onde o aroma 'abaunilhado' desta especiaria e as notas de coco faziam o contraponto no conjunto, guarnecido com gelado de Amareto e creme sólido de Otucan, um chocolate gran cru da Venezuela", relata por sua vez, com admirável minúcia e vista para o largo oceano a partir da Fortaleza do Guincho, o crítico gastronómico do Público, aparentemente nada convicto de que o tecido social se rompeu.

Regresso às arrumações pensando o que diria Cunhal de tudo isto. Enquanto cogito, nada melhor do que ouvir Ivan Rebroff na bela canção do século XIX que aqui vos deixo. Intitula-se Olhos Negros. Em russo, claro.

Até amanhã.

 


12 comentários

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De Trabant a 08.09.2013 às 15:43

+ Cunhal:

http://glups.leya.com/_media/files/2013/Sep/cunhal_brejnev_e_o_25_de_abril_pocj.pdf

(passe a publicidade à Leya)
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De Pedro Correia a 08.09.2013 às 15:53

Ora aí está mais uma leitura que me parece bem interessante.

(gostei do seu pseudónimo, Trabant)

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