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Livros que deixei a meio (6)

por Pedro Correia, em 02.09.13

 

NENHUM OLHAR

de José Luís Peixoto

 

No Verão passado houve um grave incêndio nos campos próximos de Galveias. Lembrei-me logo de José Luís Peixoto e da badana de um dos seus livros, que deixei a meio: Nenhum Olhar. A badana mencionava que José Luís Peixoto, um dos mais conceituados jovens escritores portugueses, é natural de Galveias, Ponte de Sor.

Julgo nunca ter ido a Galveias. Mas conheço razoavelmente Ponte de Sor: logo imaginei uma existência árida, um cenário seco e pedregoso, cheio de silêncio e solidão, povoado apenas pelos chamados "elementos naturais". O sol, o canto de um galo, o ladrar de um cão.

Nenhum Olhar chegou-me às mãos cheio de pergaminhos. O jovem romancista ganhara precisamente com esta obra, em 2001, o Prémio José Saramago e era considerado um afilhado literário do Nobel português, que não era pessoa de elogio fácil. Razões de sobra para eu o encarar com expectativa.

 

As primeiras páginas prometiam. Numa espécie de elegia depurada, com um débil fio de narrativa mas uma escrita muito trabalhada, complexa, a meio caminho entre a sinceridade confessional e o artifício retórico.

Há seguramente uma voz original na pena de Peixoto. O problema situa-se a outro nível: este romance é trespassado por uma tristeza tão funda, tão irremediável, tão contagiosa que começamos por ansiar pelo momento em que termine.

E à medida que se progride a voz do autor vai-se embargando, o romance tinge-se ainda mais de escuro, tropeçamos ali num Portugal rural que parece carregar uma dor inominável nascida antes de todos os séculos.

Há livros incompatíveis com certas estações do ano. Nenhum Olhar é rigorosamente interdito ao calor do Verão.

Será talvez livro para ler num Inverno frio e chuvoso?

Não sei, nunca experimentei. O meu problema, enquanto leitor, foi talvez esse: escolhi a estação errada. Não cheguei sequer a meio.

 

Arrasto desde então uma espécie de complexo de culpa. Porque José Luís Peixoto é uma pessoa afável, de uma timidez que não recusa os contactos sociais, sem sombra de tiques de vedeta "literata". Sou testemunha directa desse facto pois cheguei a entrevistá-lo para o Diário de Notícias e fiquei com excelente impressão dele. Os elogios que tem recebido, merecidos ou imerecidos, não o corrompem mentalmente. Proeza assinalável nesta terra tão expedita em fazer e desfazer reputações à velocidade de fabrico dos pudins instantâneos.

 

Esperarei então pelo Inverno. Por uma tarde escura e fria e despojada de afectos para retomar a leitura de Nenhum Olhar.

Detesto deixar livros a meio. E livros de escritores que já entrevistei ainda mais.

 Peixoto com Saramago em 2001


12 comentários

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De Carlos Faria a 02.09.2013 às 17:28

Não haja dúvida, em livros andamos em caminhos bem diferentes, não sei a estação em que o li, mas gostei muito da obra, mas concordo com a tristeza que atravessa todo o livro, mas estreei-me com JLP precisamente com a tristeza no seu mais alto grau "Uma casa na escuridão" e gostei e depois de resistir a este "Nenhum olhar" é apenas de uma tristeza ligeira.
Mas confesso, os últimos livros de JLP (exceção para a crónica à democratíssima Coreia do Norte) deixaram-me desiludidos, parece que a veia inspiradora passou a repetir-se demasiado.
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De Pedro Correia a 02.09.2013 às 23:26

Eu admito sempre que o defeito seja meu, Carlos. E é com esse espírito que escrevo os textos desta série. Mas tenho de confessar, com sinceridade, aquilo que acho: faz parte das regras desta série. Há livros a que por algum motivo não consigo aderir. Mesmo que admire a escrita, ou parte do enredo, ou a seriedade intelectual do autor. Julgo, aliás, que raros serão os leitores a quem não suceda algo semelhante.
Fala-se muito dos livros de que gostamos. Desta vez prefiro falar aqui dos livros que por algum motivo não consegui ler até ao fim. Nunca vi ninguém fazer isto, apeteceu-me ser original.
Um abraço.
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De Carlos Faria a 03.09.2013 às 09:01

e faz muito bem em ser sincero e melhor ainda em dizer aquilo que não gosta, até por que a primeira é uma virtude que importa preservar e a segunda revela coragem que também anda em vias de extinção.
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De Teresa Ribeiro a 02.09.2013 às 21:59

Aconteceu-me o mesmo, pelos mesmos motivos. Às tantas surpreendemo-nos já em sofrimento, tal é a tristeza que nos invade. No entanto o Morreste-me, o opúsculo com que ele se lançou, é tristíssimo e eu adorei (não li mais nada deste autor). Pelo que se conclui que há tristezas menos empáticas do que outras.
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De Pedro Correia a 02.09.2013 às 23:29

O meu problema com este autor é precisamente esse, Teresa. Um problema de tom. É uma prosa demasiado elegíaca para o meu gosto, mais solar. Admito que possa ser essencialmente um livro de Inverno: cada vez mais me convenço devemos ler certos livros consoantes as estações do ano.
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De Helena Sacadura Cabral a 02.09.2013 às 23:14

Aconteceu comigo o mesmo que aconteceu com estes dois comentadores anteriores. Depois há o lado da autopromoção deste escritor que não sei bem porquê me incomoda. E não são as tatuagens...
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De Pedro Correia a 02.09.2013 às 23:32

Já li textos curtos de JLP de que tenho gostado bastante, Helena. É um bom cronista. Há um mês li uma longa crónica dele na edição em português do 'Monde Diplomatique' que até guardei por ter gostado muito. Enquanto romancista, pelo menos neste livro, não me cativou como leitor.
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De Vita C a 02.09.2013 às 23:25

Curiosamente, este foi dos livros dele que li com mais gosto e, eventualmente, avidez. Não apreciei "Livro", que coloco definitivamente nos antípodas afectivos deste "Nenhum olhar". Gostei. Pela irreverência e sim, uma ligeiríssima sobreposição à criação de personagens fantásticas de Saramago. Mas, para mim, Saramago está e estará num patamar pouco recomendável para comparações. Por exemplo, não é qualquer escritor que consegue criar histórias inteiras e plenas sem recorrer a um único nome. Mas não falamos de Saramago (senão não me calava tão rapidamente) e sim do "afilhado". Desta obra gostei.
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De Pedro Correia a 02.09.2013 às 23:36

Esta série, pela sua natureza, pretende estimular alguma polémica literária. O que me leva a saudar os leitores que apareçam com perspectivas divergentes da minha, como é o caso. Quanto a Saramago, antecipo desde já que também o trarei aqui.
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De Judite França a 05.09.2013 às 19:24

Também o deixei a meio! Mas eu nunca mais lhe peguei. Fico com pó a livros que me obrigam a deixá-los a meio.
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De Pedro Correia a 26.10.2013 às 18:12

Acontece-me também com muitos, Judite. Mas não com todos.

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