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Desassombro da morte

por João André, em 27.08.13

Quem me lê compreende certamente que eu não tinha qualquer simpatia para com António Borges (isto para ser diplomático). Não é no entanto para falar dele que eu escrevo. Aquilo que me pergunto é se farão sentido as declarações politicamente correctas que costumam aparecer que nem cogumelos depois de uma chuvada assim que determinadas figuras públicas morrem.

 

António Borges é uma caso desses: deverei eu temperar a minha antipatia por ele ter morrido? Não terá António Borges suficientes admiradores, fãs, amigos ou outros que lhe defendam a vida ou o trabalho? Ou, para usar um oposto, deveriam os adversários de Álvaro Cunhal, que sempre se opuseram ao seu estilo e às suas ideias, passar a enaltecer a sua intelectualidade e firmeza para evitar ofender aqueles para quem ele era um exemplo?

 

Há obviamente casos de pessoas cuja morte nos deixará satisfeitos. Duvido que haja poucos que não tenham ficado satisfeitos com a morte de Bin Laden (poderemos questionar muita coisa, mas o mundo está melhor sem ele). Mas, fora a tragédia pessoal que será sempre uma morte (para família e amigos, para começar), teremos mesmo que procurar razões para lamentar a morte de alguém cujo trabalho em vida nós detestámos?

 

Penso que uma das melhores formas de enfrentar a morte (que chegará a todos) é o desassombro. Se elogiámos, elogiemos ainda. se criticámos, continuemos a criticar. E lembremo-nos sempre que, apesar dos outros morrerem, há sempre outros para os seguir.

 

PS - muitas pessoas que não gostavam de António Borges lembram agora esta "entrevista". Uma única nota: isto é (na minha opinião) exemplo de mau jornalismo, de um conceito de entrevista feito para o espectáculo, onde os entrevistados têm que ir sofrer. Subscrevo um conceito de entrevista que uma vez ouvi (não me lembro a quem): o entrevistador deve colocar as perguntas, sempre pertinentes (e não necessariamente difíceis) mas a esmagadora maioria do tempo da entrevista deve ser preenchida com o que o entrevistado diz. Até tenho simpatia para com as posições do entrevistador (na entrevista), mas nenhuma para com o estilo.


1 comentário

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De da Maia a 27.08.2013 às 20:38

Está a estabelecer uma relação entre a pessoa e o personagem.
As figuras públicas aparecem-nos como personagens, porque o que conhecemos delas é filtrado por vários meios de comunicação. Raramente temos o contacto próximo, esse sim remete-nos para a pessoa.
A morte de uma pessoa tem os lamentos próprios de quem lhe era próximo, a que acrescem os lamentos de outros, pelas empatias com o personagem. Quem não nutria empatia com o personagem pode lamentar a morte da pessoa, mas não tem nada que inverter posições sobre o personagem.

Aliás, referindo-se a morte de Bin Laden, noto que para a maioria de nós trata-se de um personagem de ficção, especialmente quando a sua história está mal contada... entre muitas coisas, lembro que a cara de um diplomata espanhol serviu para actualização da cara de Bin Laden.
A identificação de pessoas a personagens será tanto maior quanto a história for contada com verosimilidade, não deixando muitas pontas soltas.

No caso de António Borges vi muito pouco, mas não lhe vi nada que o destacasse de uma pessoa vulgar. Pessoas com maior mérito científico morrem habitualmente no anonimato, por não serem figuras públicas.
Podemos sentir a morte, porque a sua pessoa era figura familiar via TV.
De qualquer forma, do ponto de vista pessoal, para a maioria de nós será mais dramática a morte dos bombeiros que combatiam as chamas.

O personagem no quadro político está ligado a uma história demasiado recente. Tanto pode ser ligado a uma série de falhanços por uns, a alguns pequenos sucessos por outros... tudo dependerá do contador da história, e depende ainda do momento e do enquadramento em que a história é contada.
Para os mais próximos será a morte de uma pessoa, o que merece todo o respeito.
Do ponto de vista público, há apenas a notícia da morte de um personagem, a que associamos a credibilidade da comunicação social para aceitar a morte da pessoa. Isto pode parecer estranho, mas lembro-me sempre do Mark Twain...

Aliás, se eu ou outro dos comentadores deixar de escrever aqui, isso tanto poderia dever-se a morte, ou a um simples abandono.
Deve haver maior drama, ou consideração, num caso ou no outro?
Normalmente não vão saber, por isso será visto como mero abandono...

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