Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Controlador mas pouco

por Joana Nave, em 22.08.13

De que adianta querer controlar o mundo se tão pouco conseguimos controlar os nossos próprios impulsos?

Controlar é uma condição inerente a qualquer ser humano. Somos, em doses variáveis, controladores, manipuladores e obsessivos, mas gostamos de tingir estas características menos positivas com uma lata cheia de obstinação, a que invariavelmente apelidamos de personalidade forte.

Desde pequeninos que nos ensinam que temos de ocupar o nosso lugar no mundo, como se este fosse demasiado pequeno para o tamanho dos nossos desejos e ambições. Os valores fundamentais como a partilha, a solidariedade e a compreensão são sinais de fraqueza que só mais tarde, em idade adulta, nos entram pela porta adentro mascarados de homens de boa-vontade que lutam pelo seu semelhante. É mais uma moda que uma crença.

O controlo é apenas uma consequência da vivência mesquinha a que somos instigados desde a infância. Controlar o que se come para ter um corpo esbelto, controlar o que se veste para ter uma aparência decente, controlar o que se diz para ser considerado uma pessoa culta, controlar o que se faz para ser tido como uma pessoa educada. Pouco se tem dito sobre controlar a desonestidade, a falta de civismo, a mesquinhez, e até a avareza, porque o que se controla está à superfície e não na profundidade dos nossos sentimentos.

Tenho pensado algumas vezes que gostava de controlar o tempo para poder assimilar com maior clareza as consequências dos meus actos, mas o impulso é incontrolável e só o trabalho diário, perseverante e consistente consegue alinhar dentro de cada um de nós o que racionalmente sabemos que nos faz bem. Controlar tudo e todos os que nos rodeiam é um trabalho inglório, que nos desgasta e deprime, porque só quando conseguimos entender o que estamos a sentir somos capazes de aceitar e libertar as amarras que nos oprimem e limitam a nossa felicidade plena.


16 comentários

Imagem de perfil

De jfd a 22.08.2013 às 00:14

O Pedro Correia sempre teve bom gosto, e tu demonstras com a tua escrita. Bem haja aos dois
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 25.08.2013 às 14:42

Pela minha parte só posso agradecer o elogio, Jorge.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 22.08.2013 às 02:21

A "partilha, a solidariedade e a compreensão" obrigatórias - apesar da contradição entre compreensão e as outras- são valores que "controladores, manipuladores e obsessivos" querem obrigar os outros.
Sem imagem de perfil

De C. Santo a 22.08.2013 às 19:25

Sim, pode haver compreensão com quem não partilha nem é solidário.
A mesma compreensão que há com os bichos.
E impor humanidade aos bichos parece contraditório. De acordo.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 22.08.2013 às 20:39

Portanto quem não concorda consigo é um animal.
Já se sabia que todos os socialismos quando vamos ao fundo da questão é assim que julgam. Mais uma demonstração.
Sem imagem de perfil

De C. Santo a 22.08.2013 às 23:49

A conclusão é sua.
Não conhecia nenhuma corrente partidária ou social que esteja contra
"partilha, a solidariedade e a compreensão"
parece-me uma novidade nas relações humanas.
Sem imagem de perfil

De Carlos Duarte a 22.08.2013 às 09:56

Cara Joana,

Controlar o que nos rodeia é parte do que nos faz humanos. Controlar é colocar o racional acima do irracional, o (neo-)córtex primeiro que o cerebelo. A questão aqui é controlar o quê e para quê.

O instinto natural do ser humano (todos os seres, aliás) é egoísta. Rosseau estava errado com o "bom selvagem" e William Golding correcto com o "Senhor das Moscas". Quem tem filhos pequenos e os vê crescer rapidamente se apercebe que o desenvolvimento da personalidade e a educação faz-se, em grande parte, a contrariar desejos, a minimizar egocentrismos.

No entanto, socialmente, a nossa sociedade infantilizou-se. Trocou-se o fazer o que é correcto pelo fazer o que nos (aparentemente) faz feliz. Quando os "Founding Fathers" dos Estados Unidos da América escreveram a declaração de independência face ao Reino Unido e incluíram esta famosa frase -

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness."

- foram efectivamente longe de mais (se não em espírito, pelo menos na letra) e essa ideia, que fez caminho pelo liberalismo de John Stuart Mill, acabou por ter alguns efeitos perniciosos ao centrar tudo, excessivamente, no individuo.

Esquecemos que estamos aqui para fazer o que é correcto, o que é adequado, para viver uma vida boa (εὐδαιμονία) e não para ser animalescamente felizes. Porque a felicidade animal é comparativa e passageira (somos felizes em comparação com a infelicidade e, ao contrário do que diz, não existe nem pode existir "felicidade plena"), enquanto um vida bem vivida, preenchida, com alegrias e mágoas, é absoluta e ficará marcada nos que cá deixamos quando partimos.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 22.08.2013 às 11:04

post e comentário.
Noto só que a "felicidade plena" pode ser entendida como a compreensão "plena" de como a felicidade individual depende e limita a dos outros.
Sem imagem de perfil

De José Catarino a 22.08.2013 às 18:16

Apreciei muito o seu comentário. Por exprimir ideias e fazê-lo com clareza invejável. É isto que faz falta na vida nacional: discutir ideias com base em argumentos e com elevação.
Sem imagem de perfil

De C. Santo a 22.08.2013 às 19:49

Concordo.
Também faz falta conhecimento de grego aos comentadores e da situação grega nas decisões.
Sem imagem de perfil

De José Catarino a 22.08.2013 às 21:19

Não sei Grego. Nem Russo, nem Mandarim.A penas domino sofrivelmente três línguas para além da materna. Aliás, o Grego praticamente desapareceu do Ensino Secundário. E não percebo como é que não saber Grego diminui a minha capacidade de opinar sobre um post e respectivo comentário.
Sem imagem de perfil

De C. Santo a 22.08.2013 às 23:33

Parece que há um campo de batalha aqui.
Tal como você estava a parabenizar o comentador (que sabe grego).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.08.2013 às 10:15

Muito bem-vinda aqui ao DELITO, Joana.
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 22.08.2013 às 19:45

Bem-vinda, Joana! Bons Delitos por cá
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.08.2013 às 23:45

Parebenizo-a pelo post, pelo que vai explícito e também pelo implícito. De certa forma a nossa educação pauta-se para que tenha uma expressão mediática, dita funcional e utilitária: na relação com a família, com os vizinhos, com os colegas, em resumo, com o grupo.
Esta corrente, em nome da norma e "boa relação", levou a que o grupo subordinasse o indíviduo. Por isto mesmo ninguém se espante que a causa da frustração, do controlo, da manipulação, da obsessão e até mesmo da compulsão também possa residir na falta da expressão do indíviduo ou da individualidade.
Em grande medida a educação e/ou a herança educacional é falsamente competitiva, uma vez que se transforma em comparativa e normativa: comparativa nos trajes, comparativa nos ditos bens de consumo, comparativa no look, comparativa na acção (incluindo no meio empresarial) e comparativa até mesmo nos traços ditos de personalidade. No que respeita a este último pormenor, o dos traços de personalidade, quando a diferença existe, porque notada, ela perturba (com excepção para a diferença que depende), e perturba na medida em que o grupo compensa-se com o elogio, ainda que muitas vezes falso, e os traços de individualidade desfocam do comum para o diferente. Não raras vezes, ou sempre, como perturba, a tendência é exactamente voltar a "incluir" no que é diferente o traço de personalidade comum. Surge o insulto, a difamação, a distorção, em resumo, os atributos que o grupo por intuição reconhece como falso são imputados no que é diferente para que se transforme perante o grupo aquilo que o grupo já considera, isto é, uma ameaça. Geralmente esta atitude, que é assumida pelo grupo, tem sempre a raíz na perturbação daquele que se presume ou considera líder, que diz proteger o grupo por essa mesma acção.
Mas até mesmo na relação pessoal quando a afirmação é pretensamente, porque se sente, impedida pela diferença o traço comportamental é o mesmo que em grupo.
Todavia, a felicidade plena é um conceito abstrato, porque como o homem é gregário o indíviduo nunca prescinde do grupo, mas quase sempre é prescindido por este. De maneira que o egoísmo que é atribuído ao indíviduo é mancha que faz parte do grupo.
A melhor maneira de controlar o tempo é usar o tempo como meio para adiar a compensação.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 29.08.2013 às 16:44

Bem-vinda ao clube delituoso, Joana. Muitos e bons posts como este, sem nenhum controle (de quantidade, porque de qualidade nem é preciso dizer).
:-)

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D