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Os filmes da minha vida (44)

por Pedro Correia, em 17.08.13

 

YOU'RE JUST TOO GOOD TO BE TRUE

 

Cada geração tem os seus ícones. Na política, no desporto, na cultura, no espectáculo - a idolatria saudável é sinal de pertença a um tempo e um espaço partilhados por uma vasta tribo que nos irmana a milhões de seres humanos e deixa um rasto imperecível.

Também no cinema, como sucede com tanta gente, tenho os meus ídolos e heróis. Poucos, no entanto, nos deixam marcas tão profundas como aqueles que primeiro nos impressionaram no sortilégio da sala escura subitamente iluminada pelas imagens acesas na grande tela.

E, de todos esses, pela circunstância de ter interpretado em poucos anos um punhado de películas que o impulsionaram muito cedo para o Olimpo dos imprescindíveis da Sétima Arte, destaca-se Robert de Niro.

O actor por excelência.

Camaleónico, visceral, com cada gesto e cada esgar arrancados das profundezas da alma, ultrapassando os demais em excelência, capaz de transformar uma produção mediana numa obra de arte partilhada com assombro sempre renovado nas mais diversas latitudes e pelas mais diversas gerações.

 

Vi-o muito novo, quase desde o início. Já se detectavam lampejos do seu génio naquele agonizante jogador de beisebol (Toca o Tambor Devagar, John Hancock, 1973) ou encarnando o papel de Johnny Boy, um dos "cavaleiros do asfalto" de Little Italy, em Manhattan, homens que nunca foram meninos (Mean Streets, Martin Scorsese, 1973).

Brian de Palma, o primeiro cineasta que o dirigiu - em Greetings, nesse já tão distante ano de 1968 - disse dele as palavras certas: "Tem uma habilidade notável não só para se transformar na personagem que interpreta mas para alterar o seu próprio aspecto físico." Truman Capote chamava-lhe "homem fantasma" ao pressenti-lo irreconhecível de filme para filme. Um atributo só possível, neste actor formado na exigente escola de Lee Strasberg, pela entrega total e sem medida a cada papel.

Como se fosse sempre o primeiro. Ou o último.

Engordou 30 quilos para interpretar um pugilista. Aprendeu a tocar saxofone para se transfigurar em músico de uma big band da década de 40. Aprendeu o dialecto siciliano para entrar na pele de um membro da Mafia e latim para desempenhar o papel de um padre. Conduziu um táxi durante um mês nos dédalos de Nova Iorque antes de começar a rodar Taxi Driver. Passou seis semanas numa vila mineira para aperfeiçoar a personagem principal d' O Caçador.

Dele disseram ser maníaco, perfeccionista, exigente, obsessivo, excêntrico.

Estavam certos os que falavam assim, nem que fossem movidos pelo despeito e pela inveja. Sem essa sua entrega quase demencial a cada papel a história do cinema naquela década prodigiosa entre meados dos anos 70 e meados dos anos 80 não teria sido o que foi. Uma década em que ele ganhou (em 1975 e 1981) dois justíssimos Óscares destinados a premiar o seu talento interpretativo. Mas sobretudo uma década que o projectou para a galeria dos imortais com um conjunto de papéis destinados a figurar desde logo na história do cinema - e a cruzar-se com as banalíssimas histórias pessoais de anónimos espectadores como vocês e eu, que para sempre ficámos ligados às suas melhores criações no ecrã, património insubstituível da nossa memória colectiva.

 

O Vito Corleone d' O Padrinho II (Francis Ford Coppola, 1974). O Travis Bickle de Taxi Driver (Scorsese, 1976). O torturado produtor cinematográfico numa Hollywood faustosa e crepuscular (O Último Magnata, Elia Kazan, 1976). O saxofonista Jimmy Doyle - feliz na música, infeliz no amor (New York, New York, Scorsese, 1977). Michael Vronsky, O Caçador (Michael Cimino, 1978). Jake LaMotta, O Touro Enraivecido (Scorsese, 1980). Rupert Pupkin, d' O Rei da Comédia (Scorsese, 1983). O velho gangster revisitando um passado indizível (Era uma vez na América, Sergio Leone, 1984). Al Capone (Os Intocáveis, De Palma, 1987).

Fragmentos decisivos da carreira dele, fragmentos da vida de todos nós. Que se foram prolongando, com intervalos mais acentuados, em filmes como Heat (Michael Mann, 1995), Casino (Scorsese, 1995) e Ronin (John Frankenheimer, 1998).  E também num par de longas-metragens em que De Niro demonstrou não ser apenas bom a representar: é também bom a dirigir filmes. A prova está evidente nos dois títulos da sua cinematografia enquanto realizador: Um Bairro em Nova Iorque (1993) e O Bom Pastor (2006).

 

Já este ano, regressou em excelente forma ao nosso convívio num filme de que gostei muito: Guia para um Final Feliz (David O. Russell, 2012). Interpretando Pat Solitano, pai de um filho bipolar. Com a intensidade e a vibração de sempre.

Foi nomeado para um Óscar que não ganhou. Mas devolveu-nos o privilégio renovado de vermos em estreia um filme com este actor gigante no cartaz.

Robert de Niro, que hoje festeja 70 anos. You're just too good to be true.

 

 

Imagens, de cima para baixo: De Niro em O Último Magnata (1976); capa da Newsweek sobre New York, New York (1977); fotograma do filme O Toiro Enraivecido (1980)


8 comentários

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De Pedro Correia a 18.08.2013 às 23:00

Obrigado pelo incentivo, Antonieta. Pensarei nisso quando terminar a minha actual série sobre livros que deixei a meio. E agradecerei sugestões, claro.

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