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Da improbabilidade

por Ana Vidal, em 06.08.13


1. No Canadá, duas crianças dormem tranquilamente no primeiro andar de um prédio em cujo rés-do-chão há uma pet shop. Uma piton de 45Kg escapa-se inexplicavelmente do seu "aquário", infiltra-se no sistema de ar condicionado do prédio, sai no apartamento do primeiro andar, vai até ao quarto das crianças e asfixia ambas até à morte.

2. Na Suécia, uma família composta de pai, mãe grávida e duas crianças, viaja de carro em direcção ao hospital onde a mãe vai dar à luz. A meio do caminho a mãe entra em trabalho de parto e tem a criança no carro em andamento. Com o susto, o pai distrai-se da estrada e o carro despista-se, num aparatoso e violento acidente com inúmeras cambalhotas em que todos são cuspidos e se perdem de vista. Reencontram-se horas depois no dito hospital, abismados e ilesos, incluindo o recém-nascido.

Em ambos os acontecimentos, do final trágico ao final feliz, o mesmo inacreditável grau de improbabilidade. Perante isto, pergunto: à luz de que religião, crença ou filosofia podem estes factos ser explicados? Que deus ou deuses, se algum existe, presidiram a estes destinos? Com que bitola de arbitrariedade e de justiça? Com que misterioso objectivo?
Ou não serão eles simplesmente duas provas de que só o acaso, esse imenso absurdo caprichoso e volátil, é o plasma das nossas vidas?


4 comentários

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De Anónimo a 06.08.2013 às 22:31

Aninha, muito Boa Noite. Quero deixar-lhe em particular a Paz, dou-lhe a minha Paz na certeza que não terei necessidade, perante si, de sacudir a areia de minhas sandálias por forma a que a mesma regresse a mim.
Antes de tudo permita que lhe fale sobre esse tal de Acaso. Esse Acaso é aquele que em torno de dois acontecimentos exteriores nos reunem nesta partilha que desejo seja de bastante utilidade para ambos. A esta Ordem Universal acrescentemos portanto o que cumpre dizer:

- Pretende a Aninha uma resposta, à luz da religião, crença ou filosofia, para os acontecimentos que descreve. Pois bem, estou em crer que a resposta só virá depois que falarmos sobre outras questões que a isso nos leve. Desta feita, influenciado certamente por Simone Weil, permita a Aninha que junte todos esses factores - religião, crença e filosofia - neste comentário que pretendo seja destituído de qualquer vaidade ou soberba;
- A questão de Deus tem duas componentes, concêntrica/excêntrica: uma pessoal e outra impessoal. No Ocidente a palavra Deus designa uma Pessoa. Por isto mesmo qualquer Homem cuja fé, atenção e amor recai sobre o aspecto impessoal (fé, atenção e Amor) podem também crer e simultaneamente dizer-se ateus, porque o amor sobrenatural habita suas almas (Ser). Pela sua atitude, reconhecem-se em relação às coisas do mundo. Por isto mesmo todos aqueles que possuem o Amor pelo próximo e a aceitação da Ordem Universal (Acaso), mesmo que vivam e morram dizendo-se Ateus, estão certamnte SALVOS e podem ser considerados Santos.

Se a Aninha reparou bem, eu escrevi SALVOS. Porque a história deste Deus é uma história de Salvação. Mas uma Salvação que visa dar a VIDA e não contrariar a inevitabilidade dita carnal, porque se assim fosse, então, qual o sentido desta VIda?
O Evangelho de João começa por traduzir o seguinte: No início era o VERBO... Este termo, Verbo, na realidade parece ter sido mal traduzido. O significado correcto seria LOGOS, que significa Ligação.
Ao traduzir este significado não pretendo entrar em erudições, pretendo somente referir que sem LIGAÇÂO não há essa VIDA que lhe dou conta. Por isto mesmo esta VIDA alcança-se com um MEDIADOR, Jesus. Aquele que tão plenamente se TRANSFIGURA para que todos possam receber a Vida e a Vida em Abundância.

Na tradição nacional fomos erradamente educados a ser esperançosos, e pouco instruídos no significado da ESPERANÇA. Uma tradição que gerou uma quase catástrofe identitária na medida em que na espera desse Deus pouco cumprimos com o que Devemos. A TRANSFIGURAÇÃO também tem um significado de ruptura, ao contrário do que nos é ensinado. Repare que no monte, no momento da TRNSFIGURAÇÂO de Jesus, Moisés e Elias, que dizem representar a Lei os Profetas, não obstante Pedro Tiago e João pretenderem fazer uma tenda para eles (repare que a narrativa diz que eles não "sabem o que dizem"), estes afastam-se e a Luz resplandece nas vestes e na face de Jesus. Esta Luz tem um significado particular, porque o não saber significa ignorância (TREVAS); eis o sentido da ruptura.
Quando esta LUZ brilhar em cada SER as interrogações que coloca deixarão de fazer sentido, pois um outro significado dos acontecimentos, assim como o sentido dos mesmos, estarão escritos e reimpressos em cada um.

Ao seu dispôr, Aninha.
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De Ana Vidal a 06.08.2013 às 23:05

Tudo isso é interessantíssimo (não estou a ser irónica, acredite) mas não responde à minha pergunta. Anyway, quem me dera ter as suas certezas.
Boa noite para si também, Anoniminho. :-)
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De Anónimo a 07.08.2013 às 14:43

Aninha, boa tarde,

eu respondi à sua questão, no primeiro comentário e no segundo que ainda não publicou. Porém admito que haja necessidade de lhe responder de outra forma mas sempre em seguimento ao caminho da TRANSFIGURAÇÃO.

Todos nós, ou uma grande parte de nós, já passamos por tempestades em nossas vidas. Essas tempestades ocorreram certamente na primeira pessoa e/ou através de outras pessoas. Significa isto que os acontecimentos que nos abalam, por nós causados ou contra nós causados, afectam de forma determinante os acontecimentos futuros. Durante estes difíceis eventos a pergunta que sempre nos afigura é o porquê(?). Consideramo-nos sempre pouco merecedores e vítimas, e até mesmo revoltamo-nos quando as vítimas são por demais a nossos olhos de tal forma inocentes que a razão não "cobre" ou não valida, ao momento, qualquer forma de benefício.
Pois bem, concluída a travessia de tais acontecimentos, e abaladas, agora, as tempestades e não mais nós, é-nos possível analisar e constatar que através desses mesmos acontecimentos se opera uma TRANSFORMAÇÃO em nosso agir, pensar e viver. Mesmo quando o acontecimento diga respeito a um terceiro, se isto proporcionou essa alteração no nosso Ser então estamos perante a evidência do Ordem do Acaso.

Neste sentido, compreenderemos que a questão que se impõe perante tais situações já não será mais o Porquê(?) mas sim o Para Quê(?).

Sei que falamos sobre os acontecimentos que nos descreve em seu texto, algum dia alguém ligado a esses acontecimentos poderá responder sobre esse tal Para Quê (?). É no seu (deles) testemunho que encontraremos a resposta.

Por último, continuo a ver em nossa educação a morte como a causa e obsessão de nossas vidas, mas muito pouco a concepção de como se pode vencer a Morte. Sim, Aninha, o caminho faz-se caminhando e nem sempre quando olhamos vêmos. Por vezes é necessário distanciar dos acontecimentos para vermos o que foi feito.
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De Ana Vidal a 08.08.2013 às 02:18

Tem graça, Inho, sem ter lido este seu comentário estava mesmo agora a falar do porquê e do para quê. Parece-me que ambas as perguntas são essenciais, não no sentido da vitimização mas no do conhecimento. No resto concordo inteiramente consigo: tudo o que nos toca nos transforma, nos altera o rumo de alguma forma. E é preciso distância para ver com clareza.

Mas a minha questão permanece, independentemente de qualquer nomenclatura: existe uma entidade superior (exterior ou interior a nós, porque essa é outra e a mesma questão) ou somos simplesmente produto e veículos do acaso? Perante acontecimentos aparentemente inexplicáveis - escolhi estes casos como poderia ter escolhido outros, são meros exemplos - não escolheremos sempre a resposta menos dolorosa, a que menos nos assusta?

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