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Delito de Opinião

O comentário da semana

Pedro Correia, 04.08.13

«Querida Helena


Sei do que fala, ou melhor, penso saber, a dor quando perdemos quem nos pertence é uma dor imensa, sem peso, nem medida - apenas o buraco que em nós deixou e a impotência perante o que não nos pertence. Não há bitolas, nem imagens, nem poesia, nem literatura. Não há nada a não ser o amor dos amigos.

 


Atravessei o ano de 2013 com um cancro, sofri, fui operada duas vezes, tive dores e senti-me a mais miserável das pessoas. Não sofri apenas as minhas dores, sofri as dores de quem esteve sempre a meu lado e me deu a mão quando, desamparada e impotente, não sabia o fim desta história. Tenho dois filhos adolescentes e pais com oitenta anos, vivemos numa célula apertada e almofadada, gostamos muito uns dos outros, mas eu não sabia responder-lhes às perguntas e aos receios, nunca se sabe muita coisa sobre o cancro, apesar de ele saber muito sobre nós. Vivi maus momentos, perdi a coragem, pedi colo e confortei, mas sofri a espera do desenrolar da eficácia do tratamento e a dor da sua ineficácia. Neste momento, no meu caso específico, a única terapia é a prevenção, uma vigilância constante e uma dieta rigorosa. E, é tudo, mas não é nada. Todos os dias tenho mais uma questão a colocar e uma dúvida a esclarecer, preciso de falar como se nada tivesse acontecido, preciso de esquecer que um dia estive doente, preciso de ter uma visão trágica da vida, como diz uma amiga comum, preciso de seguir em frente e não pensar no resultado dos exames que terei de fazer, preciso de viver um dia de cada vez,
(haverá outra maneira de viver os dias?)

como insistem em dizer-me, preciso de pensar que terei de fazer de cada dia um dia novo e inteirinho para ser ser vivido. Não é fácil, nada é fácil quando se usa a cabeça para pensar. Mas tento não dar "muita confiança" a pensamentos mais tristes e afasto, com a ajuda dos amigos, as nuvens negras que vão aparecendo. Há dias mais tranquilos e dias mais compridos. Um dia atrás do outro, não é?
Aprendi a olhar para mim de outra maneira e a valorizar as vitórias mais pequenas, encontrei-me na escrita

(ai, de mim!)

e faço de pequenas vitórias grandes triunfos. Há dias em que nem penso no assunto. Há dias em que penso que foi tudo um pesadelo e há dias em que penso que todas estas pedras são degraus. Mas o melhor é pensar que estou a viver o melhor que sei e que posso, que tenho todos os dias o Amor dos meus amigos e da minha família, acredito que na minha profissão sou respeitada e que os meus alunos gostam de mim, acredito ainda que tenho muita coisa para aprender e para fazer e aprender a fazer e fazer a aprender - não, não são jogos semânticos - é assim que penso.
O resto, qual resto?
Todos nós morremos um dia, certo?

(Tenho conhecido nos últimos tempos gente extraordinária, gente com vidas tão adversas, gente tão lutadora, pessoas admiráveis, que sempre estiveram no seu lugar - eu é que nunca as tinha visto.)»

 

Da nossa leitora Linda Cristina David. A propósito deste texto da Helena Sacadura Cabral.

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