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Maus hábitos jornalísticos

por João André, em 31.07.13

No caso do acidente ferroviário em Espanha, aquilo que mais me incomoda é a forma como a vida do condutor tem sido completamente devassada pela comunicação social. Ainda antes de se saber o que tinha sucedido (além da existência de muitos mortos) já se sabia quem era o condutor, que idade tem, que tinha colocado uma foto na sua página do Facebook, etc. Perante o tratamento dado ao caso pela comunicação social, é normal que o público tenha reagido como uma turba raivosa com ganas de enforcar o condutor da árvore mais alta da Galiza.

 

Neste aspecto não seria de desdenhar o hábito que eu vejo na Holanda. Perante um acusado de um crime, a comunicação social dá habitualmente o primeiro nome e a inicial do apelido, desfocando sempre as fotografias em que ele (ou ela) apareça. A lógica é simples: se a pessoa for considerada inocente (ou mesmo que cumpra pena e depois saia em liberdade), é importante que possa voltar a ter uma vida normal. Como tal, faz sentido que a sua identidade seja mantida em segredo.

 

Não sei se é um compromisso dos media ou uma determinação legal. Para bem da justiça, no entanto, seria bom que fosse adoptado (pelo menos) em Portugal.

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18 comentários

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De curtosinstantes a 31.07.2013 às 18:02

Faz todo o sentido. Apoiado.
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De Aniceto Rui a 31.07.2013 às 18:41

Já deixei instruções expressas para apagarem o meu perfil do Feicebuk no caso de cometer alguma alarvidade pública.
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De João André a 01.08.2013 às 11:40

O melhor é ser previdente. Seja como for, no caso de os media serem rápidos, o ideal é anunciar que a vai cometer, para que o perfil seja apagado ainda antes (e mesmo assim...)
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De Anónimo a 31.07.2013 às 19:36

Em Portugal talvez nunca venha a ser assim, porque não interessa nem à justiça nem a partidos. Nem mesmo o que é segredo permanece como tal. Dito isto, o segredo de justiça deve ter uma determinação qualquer para divulgação. Se isto um dia destes se aplicasse a um cidadão também se aplicaria a todos os outros, mas não podemos esperar demasiado de uma justiça que se pretende somente justiceira.
Entenda-se esta justiça pelas leis feitas, e pela possibilidade que estas oferecem para que a aplicação das mesmas dependa tão somente da convicção de alguém.
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De João André a 01.08.2013 às 11:41

O problema não está tanto nas leis, está na sua aplicação. Isso estende-se a outras áreas, não só à Justiça. Nesse aspecto tem toda a razão.
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De Jesualdo Benigno a 31.07.2013 às 22:16

Tem toda a razão!
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De da Maia a 31.07.2013 às 22:43

O maquinista ter possibilidade de ir a 150Kmh numa zona de 80Kmh é o crime a ser investigado, e que as entidades espanholas tentam varrer, porque há a lógica da falha humana que satisfaz a vontade de culpar alguém em especial, e não toda a segurança da ferrovia.

Infelizmente vivemos numa cultura que facilmente cria heróis e vilões, e ninguém se apercebe que isso só nos deixa mais frágeis, porque os erros querem-se sempre individuais... e assim o indivíduo está sempre rodeado de potenciais grupos de apedrejamento.
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De João André a 01.08.2013 às 11:42

É normal o recurso ao bode expiatório, isso não é só de português. Não tenho dúvidas que a actuação do maquinista deve ser investigada, mas como diz e bem, as falhas no sistema (possivelmente ao nível do conceito geral) têm que ser correctamente avaliadas. É também assim que se aumenta a segurança.
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De jj.amarante a 01.08.2013 às 00:58

Por outro lado (ou pelo mesmo) constatei uma vez que um jornal referia a condenação de um réu num tribunal pubicando apenas o cargo de instituto público que ocupava, sem adiantar o seu nome. Publicita-se assim os nomes dos presumidos inocentes mas esconde-se o nome dos condenados.
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De João André a 01.08.2013 às 11:45

Pessoalmente sou a favor também de manter o anonimato de condenados. Por um lado podem sê-lo em primeira instância e ser libertados em recurso. Por outro, o crime na maior parte das vezes não é tão grave que faça com que a pessoa passe os próximos 20 anos na prisão. Nesse caso deve ser permitida a reinserção na sociedade, o que é algo dificultado se tiver sido publicitado o nome do condenado. Claro que deve haver excepções, mas seriam isso mesmo, excepções.
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De Luís Lavoura a 01.08.2013 às 10:03

Aquilo que mais me incomoda é a forma como as autoridades espanholas estão, com a cumplicidade (normal em Espanha, onde os jornais são altamente subservientes ao poder político) dos mídia, a procurar fazer do condutor o bode expiatório, quando deveriam em primeiro lugar reconhecer que as suas vias férreas utilizam um sistema obsoleto, que permite que o maquinista conduza o comboio à velocidade que lhe apetecer.
A culpa deste acidente é em grande parte da RENFE. Comboios modernos, tal como aviões modernos, são em gande parte auto-conduzidos. Não estão sujeitos aos caprichos do maquinista.
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De João André a 01.08.2013 às 11:47

Bem verdade Luís. Especialmente no caso dos comboios que possam viajar a velocidades altas (como este). Deve haver não só sistemas de controlo mas também vários níveis de redundância para evitar desastres. Nem sempre podem ser evitados (imprevistos acontecem sempre), mas este é um caso em que parece que poderia ser evitado.

Atenção, não nos desviemos de algo fundamental: até se pode concluir que o condutor não teve culpa, mas a sua conduta tem que ser investigada. Raramente há um único factor a causar estes acidentes.
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De Luís Lavoura a 01.08.2013 às 12:10

Claro que o maquinista teve culpa e deve ser condenado por isso.
Mas não foi o único culpado, porque é inaceitável que as linhas férreas de um país avançado como a Espanha não tenham sistemas automáticos que impeçam o maquinista de acelerar o comboio à sua vontade, e que travem automaticamente o comboio quando ele vai depressa de mais.
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De João André a 01.08.2013 às 14:44

Nada contra Luís. Estou plenamente de acordo.
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De IsabelPS a 01.08.2013 às 11:03

Eu, que sou leitora assídua do Correio da Manhã online, considero por acaso que Portugal é dos países que conheço com maior contenção nesse aspecto.
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De João André a 01.08.2013 às 11:48

Talvez, mas idealmente a contenção não deveria ser apenas melhor que a maioria dos países, deveria ser a maior possível.
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De IsabelPS a 01.08.2013 às 19:18

Mais precisamente, eu diria que a contenção em Portugal é a norma, a sua falta a excepção.
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De Fernando Marques Pinheiro a 02.08.2013 às 11:18

Bem vistas as coisas, o mal está na falta de respeitinho.
Ainda há quem diga “O respeitinho é uma coisa muito bonita”, mas são poucas as pessoas que sabem o que é “ser bonito”.
Já nem se diz às criancinhas “Isso não se diz, não é bonito”, ou a um adulto “Não devias ter feito isso, não foi bonito”.
Se se pretende respeitinho, é preciso que se saiba o que é ser bonito e o que é ser feio – e já estamos há algum tempo a navegar num pavoroso mar de total ignorância do que isso é.
Fernando M. Pinheiro

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