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Políticas da droga

por João André, em 29.07.13

Há em relação à Holanda uma noção sobre as drogas que não é a mais correcta: as drogas leves (Cannabis, no caso concreto) não são legais. As coffee shops, por seu turno, também não. O que há é uma política de tolerância em relação à sua existência. Desde que as quantidades de drogas vendidas sejam reduzidas e a venda ocorra apenas nas coffee shops, as autoridades não intervêm (isto cria a situação curiosa de ser possível comprar e vender drogas sem riscos legais, mas não ser possível cultivar as plantas sem se cometer crime). Este arranjo tornou-se de tal forma corrente que os próprios tribunais decidem habitualmente a favor de acusados quando alguém é detido por venda de cannabis.

 

Uma das cusiosidades deste arranjo ao nível da sociedade é que muitos dos consumidores são estrangeiros (ou residentes ou apenas turistas). Os holandeses vivem num clima de não ligarem a este fruto proibido. Claro que isto motivou bastante o turismo de drogas, especialmente em cidades fronteiriças. A cidade de Maastricht, encostada à Bélgica, a 30 km da Alemanha, a 100 km do Luxemburgo e cerca de 150 km da França, sendo também uma cidade bonita e com bons acessos, é uma das principais vítimas do turismo de drogas. Um dos principais destinos é uma zona fluvial encostada à praça velha da cidade onde existem duas coffee shops construídas em barcos.

 

Ora, há uns anos, a cidade decidiu evitar a aglomeração destas pessoas, as quais causavam um "mau ambiente", limitando a venda de cannabis apenas a residentes na Holanda. Ou seja, os estrangeiros que vão à cidade deixam de poder comprar as suas drogas em ambiente tolerado pela lei. O resultado foi o esperado por qualquer pessoa com imaginação: várias coffee shops fecharam as portas e o influxo de estrangeiros em busca de droga não diminuiu. Isto porque, como seria de esperar, vários residentes (não necessariamente holandeses) passaram a calcorrear a zona oferecendo-se para ir comprar as drogas aos turistas. Além de a decisão não reduzir a entrada de "turistas de droga", teve o condão de os concentrar precisamente numa das mais agradáveis zonas da cidade e de atrair ainda outros residentes que não contribuem para a "atmosfera".

 

O que fizeram então o governo e a câmara? Recuaram na ideia? Adaptaram-na? Claro que não: aumentaram o número de polícias na cidade à medida que a criminalidade reclacionada com drogas foi aumentando e juraram que não se desviariam um milímetro do percurso, com o ministério responsável pela polícia a prometer que apoiaria sempre com reforços quando a cidade o precisasse.

 

O curioso não é a insistência na política nem o destruir de um conceito que tem funcionado (na maior parte da Holanda as coffee shops continuam a poder vender a não residentes). O curioso é que num país tão obcecado por dinheiro, o governo esteja tão disposto a abrir mão de rendimentos (impostos pagos pelas coffee shops) e a pagar o custo disso (mais polícia). Numa altura de crise (quando o dinheiro falta e as drogas se tornam mais atractivas) talvez não fosse má ideia olhar para este caso com mais atenção.

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2 comentários

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De Susana a 30.07.2013 às 22:06

Não sei se este é um retrato de Maastricht, que desconheço, mas em Amesterdão também pensaram fazer o mesmo e a lei nunca chegou a ir para a frente. E dali a Amesterdão é um pulinho, não vejo a necessidade de guetos.

Tem piada dizerem que os estrangeiros é que sustentam as coffeshop. Elas surgiram na Holanda por demanda dos holandeses, não foram inventadas para alimentar turista.

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De João André a 31.07.2013 às 12:46

É mesmo só um retrato de Maastricht. Semelhanças com outras cidades (ainda) só por coincidência. Em Amesterdão nunca iria: o dinheiro que entra à custa das coffee shops é demasiado para as prejudicarem a esse ponto. Ainda assim, Amesterdão não é assim tão perto de Maastricht, pelo menos para os alemães, belgas ou luxamburgueses que estejam perto de Maastricht. Para quem vá de avião, isso sim, tanto faz uma como outra cidade.

A relação dos holandeses com as coffee shops (bem como com muitas outras coisas) é tipicamente holandesa: fechar os olhos aos próprios vícios e atribuir as culpas a outros. Tenho estado em contacto com essa forma de vida quase diariamente desde há quase 10 anos.

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