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Regresso ao passado (III)

por Pedro Correia, em 30.07.13

 

Os periódicos regionais, como o Jornal do Fundão, cumpriam a vocação de acompanhar os ciclos vitais dos seus leitores. Lembro-me desde sempre de ver pais, avós, tias e primas abrindo o semanário enquanto diziam "deixa cá ver quem morreu..."

 

A primeira notícia verdadeiramente triste de que me lembro na minha família - como já evoquei aqui - foi a morte do meu avô, na segunda metade da década de 60. Lá vem ela relatada também nas páginas do Jornal do Fundão, sob letras grandes e negras: "Necrologia".

Era muito novo para me recordar de pormenores - e nem sequer estive presente no funeral: por esses dias, eu e o meu irmão ficámos à guarda dos meus outros avós, pais da minha mãe.

Deixou-me portanto uma sensação amarga e doce, a leitura desta notícia a tantos anos de distância na sala onde funciona o arquivo do jornal. Amarga por me fazer reviver aqueles dias tristes da minha infância. Doce por fornecer um retrato do falecido que sublinha as suas qualidades profissionais e humanas. Assim ficarão registadas para a posteridade, graças ao redactor anónimo daquelas linhas. A tal ponto que não resisto a transcrevê-la parcialmente:

 

"Na madrugada do dia 25 faleceu no Hospital da Misericórdia o nosso prezado amigo sr. Luís Correia, de 72 anos de idade, funcionário, aposentado, da Federação Nacional dos Produtores de Trigo. Muito considerado nesta vila, de onde era natural, foi vereador da Câmara Municipal do Fundão, regedor da freguesia e durante muitos anos secretário da Liga dos Combatentes da Grande Guerra. Profissional zeloso, bairrista devotado, o extinto, quer pela lhaneza do trato, quer pelas suas qualidades pessoais, contava inúmeros amigos. (...) O funeral, realizado para o cemitério do Fundão, e para o talhão dos Combatentes da Grande Guerra, foi uma grande manifestação de pesar."

 

O avô Luís era "muito considerado", "bairrista devotado", conhecido pelas "qualidades pessoais" e com "inúmeros amigos". Um legado destes, documentado nas páginas de um prestigiado semanário, vale por toda a fortuna que pudesse ter recebido em herança.

Obrigado, Jornal do Fundão, por teres feito do meu avô notícia. E por teres conseguido tornar também doce uma recordação que para mim era apenas triste.

 

Imagem: praça do município do Fundão, nos anos 30 (do blogue Postais do Fundão)


4 comentários

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De Luís Lavoura a 30.07.2013 às 15:57

Observe-se a fotografia que ilustra este post (que não sei de que data é, talvez dos anos 40 ou 50). Procure-se fotografia atual tirada do mesmo ângulo. Comparem-se os fundos. O meu palpite é que, onde na fotografia que ilustra este post se vêem montes escalvados, praticamente sem árvores, se verá hoje montes arborizados, verdejantes.
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De rmg a 30.07.2013 às 23:45


Que tal pôr o link para a adequada foto ?

É que só pelo palpite não consigo ver nada !
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De Eduardo Saraiva a 31.07.2013 às 00:02

O avô Luís (também lhe chamava avô) morava atrás do Casino Fundanense e o acesso à casa era pela Rua do Combatente - homenagem ao avô, combatente da Grande Guerra.
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De Pedro Correia a 31.07.2013 às 12:25

E lá está essa pequena rua, ali na foto, do lado direito do edifício do Casino.

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