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Regresso ao passado (II)

por Pedro Correia, em 29.07.13

 

Leio a notícia do casamento dos meus pais, na segunda metade dos anos 50. São quatro parágrafos, encimando uma coluna também de "notícias pessoais" - incluindo um "pedido de casamento", a transferência para outra zona do País de um tesoureiro que "durante alguns anos exerceu as suas funções no Fundão onde, pelo seu nobre carácter e excelentes qualidades, conquistou sólidas amizades", a partida "com destino a Luanda do nosso conterrâneo e amigo" senhor Fulano de Tal "aceitando um convite que lhe foi dirigido pela Companhia dos Diamantes de Angola" e a boa nova da menina Maria do Céu..., "operada com pleno êxito ao nariz".

A notícia sobre os meus pais publicada no Jornal do Fundão, que transcreverei parcialmente, é muito completa. E obedece aos cânones técnicos da escrita jornalística, respondendo às questões fundamentais: o quê, quem, quando, onde.

"Na Igreja da Sé, em Castelo Branco, realizou-se no passado dia 30 o casamento do nosso distinto colaborador e amigo sr. Félix da Silva Correia, funcionário da Direcção-Geral de Saúde em Lisboa, filho do sr. Luís Correia e da srª D. Maria Ângela da Silva Correia, com a srª D. Isabel de Magalhães Mendes Correia, gentil filha do sr. major Mendes Correia e da srª D. Maria do Patrocínio Mendes Correia."

Além dos nomes dos noivos e dos pais, são também mencionados os padrinhos e madrinhas. E a prosa rematava desta forma: "Em casa dos pais da noiva foi servido aos convidados um fino copo de água. Os noivos fixam residência na Costa da Caparica. Ao novo lar desejamos incontáveis felicidades."

 

Relance de um jornalismo de proximidade, espécie de rascunho dos livros de História do futuro a partir do qual reconstituímos uma parcela significativa da vida quotidiana que passou. Um tempo em que os órgãos de informação desejavam "incontáveis felicidades" a jovens recém-casados: instantes felizes fixados para a posteridade numa coluna de jornal.

 

Imagem: Sé de Castelo Branco, num postal antigo (do blogue O Albicastrense)


18 comentários

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De Fernando Torres a 29.07.2013 às 16:12

Sou do tempo de escrever artigos para os jornais à máquina (não havia o corrector do Word!) e ir a correr à redacção entregá-los e ficar ansiosamente à espera, dois ou três ais para ver publicados.
Saudades de tempos mais puros!
Continue com este seu baú do tempo.
Sabe que li, durante anos, num local onde trabalhei todos esses jornais da nossa província, com particular destaque para os da Beira Alta e Beira Baixa.
Os Jornal de Arganil e o presente Jornal do Fundão eram os que mais despertavam à atenção
Os pequenos apontamentos, como os do casamento dos seus pais ainda se liam muito, nesses jornais, nos idos anos 80 e 90.
Saudades!
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De Pedro Correia a 29.07.2013 às 17:28

Obrigado pelo comentário, caro Fernando "Escrevinhador" Torres.
Também eu conheci bem as máquinas de escrever: foram o meu primeiro instrumento de trabalho. Daquelas pesadas, de metal, que deixávamos erguidas nas nossas secretárias quando zarpávamos da redacção.
TInha - e tenho ainda - uma Underwood portátil, que levava para toda a parte e de que muito gostava (e gosto).
Também ainda conheci a impressão em chumbo, na gráfica onde se produzia e imprimia o primeiro jornal onde trabalhei, ainda adolescente. Quem não conheceu esses tempos nem imagina as dificuldades então existentes para fazer um jornal, em comparação com os tempos actuais em que navegamos por qualquer lugar do planeta à distância de um clique e temos verdadeiras enciclopédias digitais ao nosso inteiro dispor (saber dar-lhes uso é outra questão).
A minha recentíssima visita aos arquivos do 'Jornal do Fundão', onde o meu pai também foi colaborador - salvo erro logo desde o primeiro ano - permitiu-me conhecer melhor a história da cidade e da minha própria família, como há tanto desejava.
Esta série de textos, que se prolongará por toda a semana, decorreu precisamente desta visita.
Gosto muito da imprensa regional: não por acaso, foi precisamente num desses órgãos que me iniciei no jornalismo (o 'Jornal de Almada'). E continuo a admirar o bom jornalismo que se pratica em muitos destes periódicos - desde logo no 'Jornal do Fundão', que conheço desde muito miúdo. O António Paulouro foi um dos jornalistas que sempre admirei. Pude dizer-lhe isto de viva voz e escrever isto enquanto era vivo e tinha ainda muitos anos pela frente - e fiz muito bem. Nós, portugueses, temos demasiado pudor em expressar admiração pelos outros, enquanto vivos, e procuramos depois compensar isso com elogios fúnebres.
Continue a passar por cá, que é sempre bem-vindo. Um abraço.
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De Eduardo Saraiva a 29.07.2013 às 17:47

Tenho uma vantagem sobre ti, meu caro Pedro. Estive neste casamento e recordo, de uma forma pormenorizada os momentos da chegada dos familiares do noivo à casa dos teus avós (atrás do Liceu), a cerimónia religiosa, etc.
Parece que foi ontem . . .
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De Pedro Correia a 29.07.2013 às 18:09

É verdade, meu caro Eduardo: lá te vejo na fotografia de grupo do casamento, logo na primeira fila, vestido a preceito. Uma belíssima foto, como suponho deve ter sido também a cerimónia. É talvez a fotografia que reúne mais pessoas de família, de ambos os ramos. Poucas faltam.
Tenho muita pena de já não ter conhecido a casa dos meus avós, situada precisamente atrás do liceu, num bairro de moradias que permanece intacto e onde praticamente a única demolida acabou por ser essa. Para dar lugar a um mamarracho qualquer. Os meus avós partiram para África 15 dias após o casamento da filha e a casa acabou por ser vendida. E quem a comprou não a soube estimar, como tantas vezes acontece.
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De jj.amarante a 29.07.2013 às 18:14

Então o Pedro Correia chama-se Pedro Correia e Correia?
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De Pedro Correia a 29.07.2013 às 19:06

Podia ser, meu caro. À semelhança do meu amigo José Ramos e Ramos.
Sou, de facto, Correia de pai e mãe - embora só com um Correia no apelido. Com origens no concelho do Fundão, de um lado, e no concelho de Idanha-a-Nova, do outro.
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De Jose F a 29.07.2013 às 19:43

Estes posts tem tambem a vantagem de descobrirmos os nossos vizinhos. Tambem eu vivi na Costa da Caparica durante largos anos. A vida da voltas e no meu caso vim parar ao Kosovo....
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De Pedro Correia a 29.07.2013 às 22:31

A sério? No Kosovo? A Caparica fez parte do meu roteiro estival durante 20 anos - conheço-a muito bem, conheço todas as praias, palmilhei-as metro a metro, da Cova do Vapor à Lagoa de Albufeira. É uma das maiores zonas balneares da Europa, com uma paisagem deslumbrante, infelizmente subaproveitada e condenada a um desmazelo endémico por factores populistas e demagógicos.
Não conheço o Kosovo, nem nenhuma paragem dos Balcãs. Mas é uma zona do globo que me fascina. Pela geografia e pela história.
Agradeço o seu comentário e espero que regresse aqui mais vezes.
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De Jose F. a 30.07.2013 às 10:50

Caro Pedro,
Volto sempre a Costa de Caparica. E um lugar de que gosto, embora votado a maior parte das vezes a projectos que subdimensionam as suas potencialidades.
Estou no Kosovo desde 2009. Pois e tempo de visitar os Balcas. Acho sempre que quem nao conhece os Balcas nao tem uma visao completa deste subcontinente que e a Europa. E aproveite agora que esta tudo calmo... nunca sabemos ate quando.
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De Pedro Correia a 30.07.2013 às 14:50

Agradeço a sugestão, caro José. Procurarei seguir o seu conselho tão cedo quanto me for possível.
Um abraço.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 29.07.2013 às 23:37

Na minha terra, em Évora, nesses tempos existiam dois jornais hoje desaparecidos, o "Jornal d'Évora" diário, e a "Democracia do Sul", creio que era trissemanário, mas nem sempre, porque era da oposição, é verdade, e de vez em quando sofria as consequências dos editorias mais inflamados do seu director e meu vizinho Senhor Queiroga, e a PIDE ia lá e fechava o estaminé.
Vem isto a propósito destes posts com que o Pedro nos delicia, sobre as noticias dos eventos sociais do Fundão desses tempos. Também o Jornal d'Évora, a Democracia do Sul estava mais vocacionada para outras guerras, oferecia aos seus leitores noticias como estas, escritas com o mesmo tipo de linguagem. Sabiamos sempre quem partia, quem chegava, quem ia para a Universidade, de Coimbra ou de Lisboa, quem se casava, quem nascia, e óbviamente "quem nos deixava"...
Em relação à noticia do casamento dos seus Pais, achei delicioso " na casa dos pais da noiva, foi servido aos convidados um FINO copo de água".
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De Pedro Correia a 30.07.2013 às 15:06

Também achei delicioso esse adjectivo, Alexandre. O copo d'água, diz-me a minha mãe, apesar de servido em casa dos meus avós foi encomendado ao Hotel Turismo, então o melhor da cidade. Um hotel infelizmente já demolido e que ainda conheci bem.
Julgo que em Évora a realidade não seria muito diferente nesta relação da imprensa local com os leitores. A especificidade regional, neste caso, é que o Fundão, sem ser sede de distrito, tem desde 1946 um jornal mais conhecido e difundido do que já teve Castelo Branco de então para cá.
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De fernando antolin a 30.07.2013 às 11:14

Leio a sua crónica e lembro-me do Correio do Ribatejo, lá da minha Santarém, nos tempos do saudoso director, dr.Virgílio Arruda.

" ...teve o seu bom sucesso, dando à luz uma robusta criança do sexo masculino, a Ex.mª srª D....., esposa do nosso prezado amigo e assinante, sr M.... "

Ou o " Fatal Tributo " , que anunciava o primeiro afogamento na praia fluvial da Ribeira de Santarém...

Ou o " Cavalo Branco " ,( honni soit...) a cheia a invadir a lezíria lá dos campos do Rossio.

Virgílio Arruda, homem de cultura, escalabitano ilustre. Eram outros tempos.
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De Pedro Correia a 30.07.2013 às 15:00

Viva, Fernando. Também eu gosto muito de me deixar surpreender por essa linguagem da imprensa de outras décadas, com as suas particularidades, os seus rendilhados, os seus eufemismos. Linguagem de época, tal como há fotografias de época ou indumentária de época - os coletes, as luvas "de sair", os chapéus...
A escrita jornalística tornou-se muito mais seca e depurada, por imperativos técnicos e até por contingências de espaço. Ganhou-se em dinâmica de leitura e em precisão terminológica o que se foi perdendo por vezes em riqueza vocabular e diversidade expressiva.
"Cavalo branco" hoje seria algo totalmente diferente... E "fatal tributo" só poderia referir-se à colecta fiscal.
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De José da Xã a 30.07.2013 às 12:09

Pedro,

sabe tão bem ler estas tuas evocações... E (re)descobrir o passado é o melhor caminho para se perceber o futuro.

Obrigado pela partilha destes teus momentos!

Um abraço!
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De Pedro Correia a 30.07.2013 às 14:51

Grato pelas tuas palavras amigas, meu caro. Tu também conheces, por experiência própria, esta realidade dos pequenos meios onde a vida tem uma escala mais humana. Não sucedia apenas no passado: sucede também hoje. Felizmente.
Abraço.
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De maria herminia saraiva a 30.07.2013 às 13:29

e eu sou a única pessoa da família que me posso orgulhar de ter sido uma babada e vaidosa menina das alianças.
Na minha casa Fundão tenho 1 foto dos noivos comigo junto ao altar "SAGRADA FAMÍLIA".
grande beijo
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De Pedro Correia a 30.07.2013 às 14:52

Um beijo muito grande, Maria Hermínia. Gostei muito desta visita da "menina das alianças".

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