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Respect

por Patrícia Reis, em 27.07.13

 

O senhor doutor entende-me, não é verdade?

Ah, eu espero que sim.

Olhe que nunca pensei em ter de recorrer a estas coisas da psicanálise e da terapia, mas uma colega convenceu-me e a minha angústia é tão grande que achei melhor marcar uma consulta com urgência. A sua assistente foi de uma delicadeza sem fim, percebeu logo o desespero na minha voz, até me disse de que nada valia estar assim, que vou morrer e que preciso de canalizar as minhas energias para coisas positivas. Mal sabe ela, a sua assistente, o que eu faço para pagar as contas.

Há mais de vinte anos que escrevo sobre mortos. Não fique tão admirado. É um trabalho honesto. É, para ser sincero, a minha especialidade. Nos dias que correm já não escrevo sobre nada a não ser sobre os mortos.

Se o senhor doutor me disser um nome de um morto, pois decerto que escrevi o obituário e, posso dizer com certo orgulho, tenho livros publicados, sempre correctos, sem margens de risco para a difamação ou eventuais processos judiciais. Escrevi sobre quase todas as personagens importantes da nossa História.

As pessoas confiam em mim, sabe? As famílias. E contam tudo o que podem. Mostram os objectos, as cartas, os guarda roupas, as coisas mais íntimas. Muitas vezes, sou eu que faço censura. Claro que o editor não sonha que tenho informações sobre as quais não escrevo uma linha, mas que sabe um editor? Actualmente? Sabe pouco.

O que me custa mais, senhor doutor, é o arrivismo extremo da juventude que ainda não percebeu que a morte é algo respeitável e que lhes irá acontecer, mesmo que tenham um automóvel de marca ou uma namorada nova a cada quinze dias. Nada disso tem importância.

O que acontece, senhor doutor, é que é muito diferente escrever sobre os mortos, muitas vezes no próprio dia da morte, sob pressão, com os olhos de todos em cima de mim, todos à espera do meu texto. Muito mais fácil do que escrever sobre os vivos. Aqueles que irão morrer.

Pois, a minha ansiedade deriva desta lista que aqui tenho. Veja só o senhor o que me incumbiram de fazer até finais do mês de Junho. Estiveram fechados numa sala a ver quem tem mais probabilidades de morrer e depois, com um enorme desplante, entregaram-me a lista dizendo que deveria ser um alívio ter tempo para escrever sobre um putativo morto.

Não, não estou a brincar, o editor disse “putativo”. Não é uma palavra da minha eleição, mas... enfim, nem todos somos versados no melhor português e morte com palavras destas não andam bem de mão dada.  Mesmo que isto pareça um cliché, terá de me perdoar, mas estou deveras perturbado. À cabeça da lista, como pode ler, está o nome dela.

Ora, foi ao ler o nome dela que eu entrei neste frenesim. Eu posso fazer os obituários que quiserem, de políticos a estrelas de cinema, mas da Aretha Franklin? Sabe quantas vezes eu canto “the moment I wake up...”... Todos os dias, senhor doutor, todos os dias.

Só seria mais dramático se o nome fosse o da Barbra Streisand, confesso.  Sim, sim, todos temos os nossos fétiches, os nossos sonhos e momentos de euforia pessoal. Comigo são estas duas e, senhor doutor, não consigo. Simplesmente não consigo escrever a história de Aretha.

Não sei se está a par. Não tem tido uma vida fácil, agora está semi-retirada. Há três anos ainda a vi em Nova Orleães, comprei o bilhete on-line, estava cheio de medo que as coisas não corressem de feição, no entanto na hora lá estava eu e ela a cantar como mais ninguém. Trazia um vestido com as mangas rendadas. Eu sei que há homens que preferem as mulheres esqueléticas, cadavéricas. Aretha, para cantar como canta, preciso de ter peso, de ter caixa. Como as cantoras de ópera, de certa forma.

A revista Rolling Stone escreveu, há uns anos, que é a melhor cantora de todos os tempos. Eu subscrevo. Gosto especialmente de a ouvir cantar o que começou por ser o seu chão, o gospel. É uma forma de conversar com Deus e, quando a ouvimos, Ele fica mais próximo e acreditamos, mesmo quando não somos crentes.

Em Memphis, onde ela nasceu, pois o gospel era obrigatório e Aretha não tardou a ser solista. Daqui até à fama foi um salto. O Estado de Michigan declarou a voz desta deusa como uma das maravilhas naturais. É a rainha da soul, a rainha do gospel, a rainha. Olhe, é tão importante, que é a primeira mulher a ter conseguido chegar ao Rock & Roll Hall of Fame. Tem dezoito grammies. E mais uma série de prémios que não vale a pena enumerar. Está a olhar para mim um pouco alarmado? Cristo! Não sabe quem é Aretha?

Espere lá... Gosta de George Michael, aquele rapaz que é constantemente apanhado em casas de banho a assediar outros rapazes? Pronto. Aí tem: Aretha gravou com ele o “I knew you were waiting for me”. Não está a ver? Certo. Deixe ver se eu consigo cantar um bocadinho...

 

Like a warrior that fights
And wins the battle
I know the taste of victory
Though i went through some nights
Consumed by the shadows
I was crippled emotionally
Somehow i made it through the heartache
Yes i did. I escaped.
I found my way out of the darkness
I kept my faith (i know you did), kept my faith

When the river was deep i didn't falter
When the mountain was high i still believed
When the valley was !ow it didn't stop me, no no
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

With an endless desire i kept on searching
Sure in time our eyes would meet
Like the bridge is on fire
The hurt is over, one touch and you set me free
I don't regret a single moment, no i don't looking hack
When i think of all those disappointments
I just laugh (i know you do), i just laugh

When the river was deep i didn't fairer
When the mountain was high i still believed
When the valley was low it didn't stop me
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

So we were drawn together through destiny
I know this love we snared was meant to be
I knew you were waiting, knew you were waiting
I knew you were waiting , knew you were waiting for me

 

Acha mesmo que tenho boa voz? Já a minha mãe, Deus a guarde, dizia o mesmo. Eu dediquei-me a esta coisa da escrita e fiquei por aqui. Não é uma escrita qualquer, está a ver? Escrever sobre os mortos é importante e a fronteira entre a elegância e o macabro pode ser ténue. Não imagina o que eu passei para escrever o obituário da Withney Houston. Coitadinha. Estava disposta a recompor a sua vida... Era sobrinha da Dionne Warwick.

Outra que está aí na lista e eu não consigo, não consigo, garanto, escrever uma linha sobre as pessoas como se elas já tivessem ido. É de mau gosto.

Se me pedirem para escrever sobre a Maryln Monroe? Faço as páginas que me pedirem, acho que sei mais da loira burra, que não tinha nada de burra, que muita gente. Há uma série de televisão muito interessante, está a passar agora. Já viu? Chama-se Smash. A ideia é fazerem um musical com base na vida de Maryln. Estou ali a ver, na sala com a Mimi, a minha gata, e fico com os nervos em franja só com os disparates que dizem sobre a senhora.

Com Aretha, tenho de ser honesto, nem sei por onde começar e, depois de a ter visto cantar, acho que preferia que outro colega lhe escrevesse o obituário. Sim, não fique aí a pensar que sou só eu a escrever sobre os mortos. São sete cães a um osso. E nos dias de hoje, a competição é ainda mais estranha. Eu tenho um certo estatuto e tal, talvez por isso me tenham dado a lista. Como é que lhes vou dizer que posso escrever sobre todos menos sobre a Aretha?

O senhor doutor, diga-me, que comprimido é que devo tomar?

 

 

 (este texto faz parte da colecção Divas, colecção que tem saído às sexta-feiras com o DN e JN, sempre com CD e um texto de Ruy Vieira Nery a acompanhar)

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