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Tavira, Verão de 2013

por Pedro Correia, em 07.07.13

 

Rolas, andorinhas e pardais, à vez, vêm beber à borda da piscina. O calor é tanto que, mesmo antes de a manhã chegar a meio, só conseguimos estar à sombra: à falta de guarda-sóis, servem as palmeiras, substituindo-as com vantagem. Miúdos de várias nacionalidades, esquecidos por momentos dos gadgets electrónicos, brincam como sempre as crianças brincaram: correm, saltam, riam, jogam à bola, ensaiam movimentos ritmados de natação. "Agarra-te aos pelos do peito do pai", diz alguém. E todos riem.

 

Duas senhoras exercitam a antiquíssima arte da conversa, ao recato da sombra: "Então a sua menina como está?"; "Muito bem, por enquanto muito bem." Tão português, tão cauto e previdente, este "por enquanto"...

Mais adiante, uma jovem abre-se em confidências a uma amiga em tom suficientemente elevado para ser escutada nas proximidades: "Ficou chateado por eu estar na boa com ele..."

Eles e elas aparecem cada vez mais tatuados. Não tatuagens discretas, mas tão espampanantes quanto possível, em tentativas de imitação do jogador Raul Meireles e da sua mulher Ivone, presenças constantes nas páginas da imprensa tablóide. Um dia, não muito distante, haveremos de lembrar esta absurda moda como hoje lembramos os longos cabelos frisados e os bigodes à Obélix dos anos 70, paradigmas da breguice tuga.

 

O calor tudo dissolve: obrigações inadiáveis, ponteiros do relógio, preocupações que sobraram dos meses precedentes. Aguardamos por ele todos os anos - mas desta vez já o ansiávamos com alguma impaciência após a maratona de um Inverno que parecia não ter fim.

Como os primeiros figos do ano - as saudades que eu já tinha deles. Logo à noite, na Noélia, virá para a mesa um arroz de limão com corvina e amêijoas: carne não entra nestes menus algarvios.

Muitos franceses, alguns ingleses e alemães, mas desta vez quase não vejo espanhóis: na vizinha Andaluzia o desemprego já se situa nos 37% e há dois terços de jovens sem trabalho.

Apesar da crise - ou por causa dela - a Olá lançou cinco novos sabores do seu Magnum para este Verão. Falta-me só experimentar um. Até ao momento, o meu favorito é o de merengue e frutos silvestres.

 

 

Basta dar uma olhada em redor para se perceber que o livro electrónico vai ganhando terreno acelerado ao formato tradicional - serve, desde logo, para ocupar menos lugar na mala. Conservador, prefiro a leitura em papel: acabo de ler Amantes e Inimigos, um delicioso volume de contos de Rosa Montero.

Quatro estrangeiros em redor de uma mesa no bar junto à piscina: todos em silêncio, cada qual mergulhado no seu iPad. Dizia o resmungão Nelson Rodrigues, numa das mais saborosas frases que conheço em língua portuguesa: "A televisão matou a janela." Parafraseando o mestre, concluo que a vida virtual vai matando a vida real.

Um brinde desta fresquíssima sangria branca às senhoras que vão praticando a arte da conversa. Elas não sabem, mas são já uma espécie em vias de extinção.

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22 comentários

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De Encalorado a 07.07.2013 às 14:07

A crise tem uns aspectos muito curiosos, como seja a proliferação exponencial desse bem de primeira necessidade designado tatuagem.
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:47

Tatuagem cafona: autêntica poluição visual.
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De Helena Sacadura Cabral a 07.07.2013 às 14:13

Belo e refrescante post, meu caro Pedro.
Tal feito em tempo de vagas de calor - sejam elas de que natureza forem - é colírio para a alma!
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:48

É como dizes, caríssima Helena. Gosto muito dessa expressão: colírio para a alma. Vou adoptá-la também para mim. Com a devida vénia desde já.
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De Teresa Ribeiro a 07.07.2013 às 17:09

Sente-se a brisa que sopra da ria a passar por aqui
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:49

Se há coisa que eu aprecio é uma boa brisa, Teresa. Melhor que isso só uma boa brasa.
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De João Campos a 07.07.2013 às 17:42

Que inveja, caro Pedro. Ainda ontem falava com um grande amigo daí, que me perguntava se este Verão rumava ao Sul por uns dias. É incerto, e com pena minha - mesmo nestes dias de calor medonho (e Tavira é bem mais quente que a minha aldeia no Alentejo) gostaria muito de aí passar.
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:50

Tavira é das terras com clima mais temperado do País, João. Nunca há excessivo frio, nem excessivo calor.
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De João Campos a 08.07.2013 às 13:12

Ah, mas no Verão aquece sempre bem. Nem por isso, porém, deixa de ser um dos sítios mais agradáveis que conheço neste país.
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De Pedro Correia a 08.07.2013 às 22:33

Por estes dias tem estado com 31, 32 graus. Cerca de dez menos do que em várias outras zonas do País. Mais recomendável ainda por causa disso.
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De Custódia CC a 07.07.2013 às 18:47

Na canícula que por aqui está, vir ao Delito e ler este texto quase poético é como sentir uma brisa refrescante a passar por nós :)
Boas férias Pedro!
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:51

Viva, Custódia (já tinha saudades). Em Tavira está-se sempre bem.
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De Outside a 07.07.2013 às 20:01

Sorriso.

Belo texto Pedro. As férias; férias de tudo menos de Nós, dos Nossos, e assim sempre, inesquecíveis.

O cheiro e tacto das páginas de um livro, novo ou velho; sentires sentidos, únicos.

Boas Férias.
Forte Abraço.
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:52

Muito obrigado, meu caro David. Um forte abraço, com saudações leoninas.
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De Alice Alfazema a 07.07.2013 às 21:18

Bons mergulhos
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De Pedro Correia a 07.07.2013 às 22:52

Splash, Alice.
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De Eduardo Louro a 08.07.2013 às 17:14

Bela ria. Bela e Formosa. Belos petiscos... ai Santa Luzia... Bela sangria. E um belíssimo texto de férias. De belas e boas férias, Pedro!
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De Pedro Correia a 08.07.2013 às 22:35

De facto esta ria faz jus ao nome, Eduardo. Espero escrever dentro de poucos dias sobre a Casa do Polvo, em Santa Luzia: se há petisco que eu aprecio é este mesmo.
Aqui as férias são sempre óptimas.
(Obrigado pelas suas palavras.)
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De CeC a 08.07.2013 às 18:53

Pegando na questão do "ereader Vs livro", fiquei a pensar na última vez que fui à praia - também aí por esses lados (praia do Cabeço).
Chegando cedo à praia e levando de arrasto filho e irmão mais novo, por lá ficamos até o meio-dia se aproximar; começaram então as disputas geracionais. Eu, arrumando as coisas e já pensando no peixe que ia almoçar, acompanhado de um belo Branco fresco, e os miúdos que me foram massacrando a paciência, da praia ao carro, pedindo para ir ao McDonald's (Olhão).
Digamos que o almoço foi um manjar do mar (Vela 2 - Tavira), acompanhado não só de vinho como também de amuos.
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De Pedro Correia a 08.07.2013 às 22:37

Os amuos (diz-me a experiência de pai) passam e a semente do bom gosto fica, CeC. Tem graça a coincidência: ainda há dias estive a jantar no Vela 2: é um dos meus clássicos da gastronomia em Tavira.
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De Ana Vidal a 09.07.2013 às 21:50

Na praia é que se está bem. Boas férias, vai dando notícias como estas para refrescarmos todos. E até... sábado (espero que já estejas por cá)!
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De Pedro Correia a 10.07.2013 às 01:07

Sim, Ana, sábado estarei em Sintra. Também para refrescar.

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