Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Coincidências

por João André, em 02.07.13

Há duas semanas, a Economist publicou um trabalho especial sobre a Alemanha. Num dos artigos falava da falta de mão de obra, especialmente qualificada, que grassa no país. Também referido foi o facto de as empresas alemãs, com mais do que uma mãozinha do(s) governo(s), estarem a importar cada vez mais essa mão de obra dos países do sul da Europa. Que coincidência isto suceder em pleno período de crise (especialmente) do sul da Europa.

 

Como não tenho jeito para a subtileza, adiciono aquilo que me foi confidenciado por uma pessoa amiga que trabalha no Parlamento Europeu há já bastante tempo: um dos objectivos para a austeridade brutal era mesmo o de levar os jovens qualificados a abandonar o seu país e a seguirem para os países que estão na mesma situação da Alemanha. É que os imigrantes da Turquia, Marrocos, África, Ásia ou semelhantes são excessivamente diferentes culturalmente, têm religiões diferentes e não vêm sempre muito qualificados. É mais simples importar os outros que já são europeus.

 

Teoria da conspiração? Talvez. Vindo de quem veio, dou mais credibilidade à ideia do que noutras situações. Tem buracos, como é óbvio, mas quanto mais penso nisso, mais me parece ter lógica. Aliás, pensando bem, estou para ver se o próximo quadro qualificado a aterrar na Alemanha não será um antigo ministro das finanças para inaugurar o seu novo gabinete na  Willy-Brandt-Platz em Frankfurt am Main.


18 comentários

Sem imagem de perfil

De Boémia a 02.07.2013 às 22:28

Coitados dos conspiradores, têm pouca sorte com os tugas, que vão antes para as Angolas deste mundo.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 07:47

Há obviamente muita gente que vai para Angola e muitos outros que vão para o Brasil. Há, contudo, muitos que também vão para a Alemanha e, a ser (pelo menos parcialmente) verdade a história, nem é só a Alemanha a importar gente, nem é só de Portugal. Além disso, eles não quererão toda a gente. Uns quantos bastarão. e, de preferência, qualificados, que até é gente que talvez tenha mais tendência a ir para a Alemanha que para Angola.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 03.07.2013 às 01:44

Mais do que uma teoria da conspiração, é uma teoria completamente gratuita que nem sequer faz muito sentido em termos políticos e económicos. Mas já estamos por tudo.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 07:49

Gratuita? Nem pense. Toca a pagar já os 5 euros pela ideia.

Infelizmente faz sentido e não é pouco (vá lá ler o artigo da Economist). Pode estar errada, como é óbvio, mas eu não escreveria isto se não me parecesse que tem sentido.

PS - o que me faltou explicitar, obviamente, foi que a austeridade não é só para isto. Só que também pode servir.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 03.07.2013 às 10:25

Li obliquamente. Vou reler com mais atenção e depois, se tiver tempo (hoje vai ser um dia diabólico), volto à carga. Cumpts.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 11:52

Não digo que eu o convença, mas o artigo é definitivamente interessante. Bom dia e cumprimentos.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 03.07.2013 às 09:59

Pois, mas o artigo da Economist também dizia que importar pessoal qualificado do Sul não era assim tão fácil, porque a maioria desse pessoal não sabe alemão. E é isso que de facto se verifica na prática. Caso contrário, pois seria fácil, já haveria centenas de milhares de portugueses, e milhões de espanhois, a emigrar para a Alemanha. Mas não há, porque não sabem alemão e por esse facto têm pouca utilidade para os alemães. De que vale ter na Alemanha um bom engenheiro português se ele não se integra facilmente e não interage facilmente, comunicando aos seus colegas alemães?
Uma coisa é mandar vir um borra-botas português para lavar pratos na cozinha de um hotel, como fazem na Suíça, ou para guiar táxis, como em França, outra coisa muito diferente é arranjar um engenheiro português.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 11:51

O alemão é de facto um obstáculo, mas relativo. As empresas estão habitualmente perfeitamente dispostas a contratar gente que não sabe a língua e a pagar as aulas para que o façam. O problema está normalmente ao nível da comunicação com os técnicos, os quais não costumam saber muito inglês.

Além disso, mesmo sem saber a língua e sem ter muito jeito para idiomas, estar rodeado de alemão por todo o lado, ter colegas que ajudam (e ajudam mesmo, especialmente porque estes novos emigrantes, qualificados, normalmente tentam integrar-se com os colegas, não criam os seus guetos de acordo com nacionalidades) e ter uma enorme pressão (compensada por bom trabalho e bom salário) acabam por promover uma aprendizagem consideravelmente rápida.

Claro que há quem não se dê bem, mas a Alemanha não vai absorver toda a gente. os que não se dão são enviados para outro lado. Muitas vezes até dentro da empresa. e apesar de eu ter referido o artigo da Economist, isto não se refere apenas e só à Alemanha. Também poderíamos falar da Holanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia, etc. Nesses países é frequentemente possível viver toda uma vida sem aprender a língua.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 03.07.2013 às 12:00

Já li e continuo na minha: é a re-edição da ideia dos alemães malvados que querem dominar a Europa através de planos maquiavélicos (tão maquiavélicos que até destroem quase a sua própria economia). É um tipo de atavismo frequente entre os invejosos mas agora com requintes de Michael Moore: pega-se em factos disconexos, sem qualquer relação de causalidade entre eles, e compõe-se uma história baseada nos medos históricos, na ideia de que a história se repete e que o filão do Mal permanece intacto.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 19:01

Hmmm, então passei a maluquinho das conspirações, invejoso e desligado da realidade. Parece-me bem. Gostaria de saber porquê, mas tudo bem.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 03.07.2013 às 20:37

Eh? Não me estava a referir ao João André... Culpa minha eventualmente; talvez não me tenha explicado bem. Apenas me parece óbvio que muito do que se acusa a Alemanha - e de uma maneira geral - tem raízes na inveja. Que culpa têm eles de serem bem organizados, cultos e diligentes nos seus assuntos?
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 21:57

Percebi-o mal, peço desculpa. Quanto à organização alemã, já refiro um pouco isso no meu comentário um pouco mais abaixo. Claro que os alemães só tratam da sua vidinha, mais nada. Mas repito, o meu post não se referia apenas e só à Alemanha...
Imagem de perfil

De José António Abreu a 03.07.2013 às 13:53

João:
Evidentemente, a Alemanha aproveita tanto quanto pode as oportunidades que lhe surgem. Se os países do Sul não conseguiram criar economias suficientemente competitivas para garantir emprego aos engenheiros que formam, a Alemanha, que criou essa economia, aproveita-os.
Mas admitamos mesmo que a crise do euro faz parte de um plano maquiavélico que tem por objectivo levar engenheiros para a Alemanha. So what? (Vai em inglês porque também não sei alemão.) Devemos queixar-nos à Comissão Europeia? Ou será melhor ao tribunal de Haia? O que Portugal tem de fazer é analisar o que pode fazer - e fazê-lo. Passe isto por aceitar as condições da Troika ou por recusá-las, com eventual saída do euro. Quanto ao resto, que os outros sejam inteligentes só lhes serve de crédito.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 19:04

Eu nada tenho contra a Alemanha por tratar de si mesma. Se tivesse eu não estaria precisamente na Alemanha a trabalhar. O país, mesmo com algumas coisas das quais não gosto, tem-me tratado bem. Do ponto de vista profissional tem-me tratado melhor que Portugal.

Eu não quis avançar com qualquer solução (sou ainda assim português, só sei dizer o que está mal, avançar com soluções é para os outros... ;)). Só quis falar de uma história que alguém que respeito muito me contou e que até nem é descabida de todo.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 03.07.2013 às 17:40

Além do mais a Alemanha não tem nada a beneficiar com o empobrecimento da periferia europeia; o esvaziamento completo desses países iria afectá-los profundamente em termos de exportações (o grande motor da sua economia). Sem classe média e classe média-alta (os licenciados, engenheiros, etc) quem é que lhes compra os carros, os telefones, as tecnologias, as máquinas de cozinha e ainda a traquitanas do Lidl? Para trabalhar apenas para o mercado interno, não precisam de tanta gente nem tantas empresas.

Mas uma "coincidência" ou evidência ressalta inteligentemente deste artigo, de facto. A emigração do sul da Europa é um tipo de emigração que lhes interessa mais do que outra porquanto os imigrantes de 2ª geração -já alemães- tenderão a ficar no País e os seus pais tenderão a voltar ao seus países de origem, aliviando o sistema social alemão pelo menos na parte dos cuidados de saúde, ainda que na parte das reformas não seja assim. Ou seja, ficou lá 100% do trabalho e da produtividade, mas depois só retribuem 50% dos encargos com os reformados. Mesmo que não seja uma jogada programada, é uma sorte do caraças.
Imagem de perfil

De João André a 03.07.2013 às 19:11

Terá pouco a ganhar, mas cada vez menos está dependente do resto da Europa. Os alemães estão a investir cada vez mais na China (claro), no Brasil (previsível) e nos EUA (talvez um pouco mais surpreendentemente, já que os próprios americanos têm estado a incentivar isto).

Já com a questão dos países do sul da Europa, a Alemanha tem um problema diferente: os seus próprios bancos, que se endividaram brutalmente por estas partes. Essa é a sua maior preocupação. Com a falência dos países do sul da Europa podem eles bem (sentiriam a coisa, claro, mas aguentariam), já uma falência dos bancos alemães deitaria a economia do país completamente por terra.

Em questão aos reformados, não se convença que regressam/regressarão assim tanto. Talvez os que estão actualmente a reformar-se ou na reforma e que chegaram à Alemanha há 20-40 anos. Mas os mais jovens provavelmente ficarão. Para mais, os seguros de saúde continuam a ser pagos na Alemanha e os custos, mesmo noutros países, continuarão a ser pagos pelo sistema alemão. Pelo menos se seguirem o mesmo conceito de quem está empregado na Alemanha e a viver noutro país da UE.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 03.07.2013 às 22:43

Hilariante! agora um cartão de crédito com um limite menor é austeridade!?

Não há austeridade alguma, ter défice de 5% é austeridade? estranho conceito...
Imagem de perfil

De João André a 04.07.2013 às 08:06

Compara esta situação a ter um cartão de crédito com limite menor? Agora já percebo a sua orientação política. Deve-a ter lido nos livros da abelha Maia.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D