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Livros que deixei a meio (1)

por Pedro Correia, em 27.07.13

 

20 MIL LÉGUAS SUBMARINAS

de Júlio Verne

 

O primeiro livro que me lembro de ter deixado a meio foi um daqueles de que mais gostei. Custa a crer, bem sei, mas eu já explico.

 

Há livros que devemos ler na idade própria - nem cedo de mais nem tarde de mais. Nunca compreendi aqueles pais que se apressam a proporcionar aos filhos, ainda muito novos, literatura "adulta" para "amadurecerem" com maior rapidez. Também me faz alguma impressão ver adultos mergulhados numa espécie de infância retardada, deliciando-se com a leitura das histórias do Tio Patinhas. Nada melhor do que tudo ocorrer no tempo certo.

Parafraseando o outro, a propósito de algo bem diferente, eu fui um miúdo do meu tempo. Devorei as aventuras dos Cinco e dos Sete, era fanático de banda desenhada, não perdia uma série do bom velho Oeste na televisão (Bonanza, O Maioral, Os Monroe, Shenandoah, High Chaparral). E não perdia também uma só obra de dois autores muito lá de casa: Jack London e Júlio Verne.

 

Associo sempre muitas tardes da minha infância aos livros do aventureiro norte-americano, com as magníficas capas multicoloridas da editora Civilização, e do respeitável burguês de Nantes, que pôs várias gerações de jovens a percorrer o globo sem saírem das quatro paredes do quarto.

Apreciava particularmente o Verne editado pela Bertrand no início dos anos 70, com uma estampa antiga emoldurada por um grafismo moderno. Nunca soube quem era o autor destas capas: julgo que tal referência não constava da ficha técnica. Mas presto-lhe hoje homenagem. Este é um dos segredos editoriais para consolidar uma legião de leitores fiéis.

E, claro, havia a sedução da própria escrita de Verne - didáctica sem nunca ser maçadora, capaz como poucas de nos prender a atenção no fim de cada capítulo, abrindo o apetite para o capítulo seguinte - técnica herdada dos melhores textos folhetinescos, relíquia de um tempo em que o jornalismo era indissociável da literatura.

 

Li vários livros dessa colecção: cada um deles era uma espécie de tesouro íntimo para um garoto como eu, então à descoberta do fascínio da literatura. Tenho ainda muitas dessas obras: A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Náufrago do Cynthia, O Bilhete de Lotaria nº 9672, Viagem ao Centro da Terra, A Carteira do Repórter, Os Filhos do Capitão Grant, O Farol do Cabo do Mundo, Matias Sandorf.

Mas a Bertrand editava por vezes algumas destas obras, um pouco mais extensas, em dois volumes. Eu ignorava tal facto até ler, absolutamente empolgado, o primeiro volume d' A Mulher do Capitão Branican: chegando ao fim, deparei com o aviso de que a continuação viria noutro tomo da mesma obra. Corri à procura dela: estava esgotada. Só muitos anos depois, já quase esquecido do empolgamento juvenil, adquiri esse outrora ansiado segundo volume.

Mas - como seria de esperar - o fascínio perdera-se.

Aconteceu-me o mesmo com as 20 Mil Léguas Submarinas. Com a diferença de que este foi um romance que me atraiu ainda mais. Não tenho a menor dúvida em classificar o capitão Nemo entre as grandes figuras de sempre da literatura mundial. Recordo as ementas minuciosas das refeições a bordo do submarino e a atmosfera claustrofóbica daquelas cenas. E não esqueço a aura de mistério que envolvia Nemo.

 

Terminei o primeiro volume: a mesada não chegava para o segundo. Quando chegou, já não havia o livro. Nem no mês seguinte, nem no ano imediato.

Nunca li a segunda parte das 20 Mil Léguas Submarinas. Talvez com receio de que a magia se perdesse para sempre, como sucedeu com A Mulher do Capitão Branican.

Assim permaneceu intacta.

 


4 comentários

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De Marco a 28.07.2013 às 02:03

"Na altura certa" li Os Filhos do Capitão Grant, mas apenas os primeiros dois volumes (em livros de bolso da Europa-América). Só este ano consegui comprar o terceiro, e último, volume. Claro que aprovei a oportunidade para reler tudo desde o início...
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De Pedro Correia a 28.07.2013 às 11:25

Certos autores ganham muito em ser lidos em determinadas idades. É o caso de Verne. Tive o privilégio e a sorte (as leituras também são feitas de múltiplos acasos) de o ler ainda em miúdo e durante toda a adolescência. Mas, talvez até por isso, é um autor a que regresso sempre com prazer - como se viajasse numa máquina do tempo. Basta-me desfilar alguns dos títulos lidos durante aqueles anos para recuperar o prazer que a obra dele me deu. 'Os Filhos do Capitão Grant', sim. E também 'Cinco Semanas em Balão', 'A Volta ao Mundo em 80 Dias', 'Dois Anos de Férias', 'A Escola dos Robinsons', 'Da Terra à Lua', 'Viagem ao Centro da Terra', 'Miguel Strogoff'...
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De carlos faria a 28.07.2013 às 10:52

Vantagem de ter lido na juventude obras disponibilizadas pelas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian foi nunca ter ficado pendurado por dinheiro a meio de uma obra com vários volumes... mas não me lembro de ter lido Jack London
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De Pedro Correia a 28.07.2013 às 11:34

Foi uma vantagem, sim, Carlos. Por mim, nunca deixarei de estar agradecido às bibliotecas escolares que me permitiram descobrir autores e rasgar horizontes - literários e não só. Falarei disso no próximo texto desta série.

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