O dobro do sangue dos outros
Hoje tive o privilégio de passar a tarde à conversa com Simone de Oliveira. Uma mulher que tem o dobro do sangue dos outros, com uma história de vida que é uma lição, um pano encharcado nas trombas, uma miséria, uma montanha russa. Aos setenta e cinco anos, tiro-lhe o chapéu e, podem acreditar, está a cantar melhor do que nunca, ela que diz que a outra voz, a voz da miúda do Festival, da "Desfolhada", não era bem a dela.
Há poucas pessoas com o dom da boa conversa. A Simone é uma delas. A Helena Sacadura Cabral é outra. A Lídia Jorge, que fez anos ontem, é outra. Mas há mais, a minha vida está cheia de mulheres extraordinárias e isso é uma benção. Por serem todas diferentes, por reclamarem todas os seus direitos e não se esquivarem aos deveres, por olharem pelos filhos, mesmo quando estão longe. Umas cantam, outras escrevem, outras pintam, outras estão em casa nos tesouros da poesia, outras estão na vida a fazer coisas, a mexer o mundo. Sim, é um privilégio. Nada isto significa que não existam homens do mesmo calibre na minha vida, acreditem. Conclusão? Não me posso queixar de nada.

