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O que torto nasce nunca se endireita

por Pedro Correia, em 27.05.13
Numa semana de Outubro de 1990, dúzia e meia de sábios iluminados reuniram-se no velho edifício da Academia das Ciências de Lisboa para mudarem a ortografia de uma língua falada por mais de 200 milhões de pessoas. Foi assim, neste ambiente de secretismo, quando não havia nenhuma demanda social para esse efeito, que nasceu o acordo ortográfico.
Nasceu torto. E, como diz o povo, o que torto nasce tarde ou nunca se endireita. O acordo nasceu torto desde logo por ignorar a esmagadora maioria dos pareceres técnico-científicos sobre a matéria. Foram produzidas notáveis peças de análise crítica por parte de escritores, professores, linguistas - e todas acabaram no fundo de uma gaveta, olimpicamente ignoradas. O poder político fez tábua rasa dos alertas da comunidade científica - não só portuguesa mas também brasileira - que advertiam para as suas inúmeras deficiências técnicas, para as suas incongruências conceptuais, para os seus clamorosos erros.
Temos, portanto, um acordo que quase ninguém defende, que quase ninguém respeita, que quase ninguém aplica na íntegra. O Presidente da República, que o promulgou, confessa numa entrevista que em casa continua a escrever como aprendeu na escola. O Ministro da Educação, que o faz aplicar no sistema lectivo, admite que não gosta de mudar a maneira de escrever. O secretário de Estado que o assinou em nome do Governo português continua a escrever, em blogues e jornais, na correcta grafia anterior ao convénio de 1990.

Este acordo pretendia unificar o nosso idioma, na sua versão escrita, mas acabou por consagrar grafias diferentes. Hoje o Estado angolano, por exemplo, tem uma grafia diferente da do Estado português. E este, por sua vez, acolheu como boas mais de 200 novas palavras que passam a ser escritas de forma diferente entre Portugal e o Brasil. Palavras como recepção ou excepção, que viram cair o p nos documentos oficiais portugueses, enquanto mantêm o p que sempre tiveram no documentos oficiais brasileiros.
Entre nós, em resultado das chamadas "facultatividades" reconhecidas pelo acordo, vai-se abolindo o carácter normativo da escrita, dando lugar a uma espécie de ortografia à la carte, ao sabor da subjectividade de cada um. Assim é possível ver órgãos de informação pertencentes ao mesmo grupo editorial escreverem nuns casos sector, com c, e noutros setor, sem c. Há jornais que adoptaram o acordo, mas adiantando desde logo várias excepções à regra, continuando por exemplo a pôr acento na palavra pára. Ainda há dias, a propósito da co-adopção, registámos quatro grafias diferentes desta palavra: com p e sem p, com hífen e sem hífen.
E porque não haverá de se instalar a confusão geral na escrita jornalística se ela impera no próprio Diário da República, onde já foram consagradas na letra da lei expressões como fato ilícito ou união de fato?
 
O acordo acabou por conduzir, portanto, ao caos ortográfico.
O que fazer?
Aquilo que deve ser feito quando alguma coisa não está bem: mudá-la.
Deve ser constituída sem demora uma comissão de revisão do acordo, com carácter muito alargado e reunindo especialistas dos mais diversos saberes, de modo a produzir um dicionário ortográfico e regras claras, que não violem a etimologia das palavras, como no absurdo espetador em vez de espectador, e não separem famílias lexicais, como na frase «há egiptólogos no Egito».
Enquanto não houver essa revisão profunda e enquanto não for produzido esse dicionário, o acordo deve ser suspenso. E naturalmente a sua aplicação obrigatória, prevista para 2016, deve ser adiada, como aliás o Brasil já fez.

 

Alguém me perguntava há dias por que motivo não se ouvem as vozes dos defensores do acordo.
A resposta é simples: essas vozes não se ouvem porque os defensores deste acordo são em número muito diminuto. Basta folhearmos livros que vão sendo publicados, de escritores das mais diversas tendências, das mais diversas escolas estéticas e de todas as gerações para se perceber que fazem questão em escrever estas suas obras na ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1990. Isto sucede não apenas com escritores portugueses: ainda agora foi editado um livro póstumo de Antonio Tabucchi, intitulado Viagens e Outras Viagens. Lá vem a advertência, na ficha técnica: «Por vontade expressa dos herdeiros do autor, a tradução respeita a ortografia anterior ao actual acordo ortográfico.»
O mesmo sucede nos jornais: mesmo naqueles que aplicam o acordo, aliás cada qual a seu modo, não faltam colunistas e articulistas que insistem em escrever na ortografia pré-AO.
Em todos os sectores da sociedade portuguesa a rejeição das normas acordísticas é claríssima. E maior seria ainda se não houvesse a imposição de adoptá-las na administração pública, incluindo nas escolas, onde são largos milhares os professores que se opõem às regras ortográficas emanadas do AO. A estes professores, tal como a todos os utentes qualificados da língua portuguesa, o poder político tem a estrita obrigação de reconhecer e garantir o estatuto de objecção de consciência.
 
Vou terminar. Mas antes gostaria de contar um episódio que protagonizei e do qual me lembro sempre que ouço alguns dizerem que não vale a pena discutir o acordo por ele ser irreversível. Já tenho anos suficientes para ter visto enterrar muitas coisas consideradas irreversíveis. Em 1984, estava eu no início da minha carreira jornalística, escrevi uma carta aberta a José Ramos-Horta que terminava assim: «Um dia hei-de abraçá-lo num Timor livre e independente.» O jornal onde eu trabalhava tinha uma linha editorial de apoio à integração de Timor na Indonésia precisamente por a considerar irreversível.
Afinal não era irreversível. E vinte anos depois dessa carta aberta, em 2004, pude abraçar de facto Ramos-Horta - já então galardoado com o Nobel da Paz e exercendo as funções de primeiro-ministro do seu país, num Timor livre e independente.
Os timorenses souberam resistir.
Nós devemos continuar a resistir também. Em nome daquilo em que acreditamos. Por isso dedico este livro à minha filha Joana, aqui presente. Porque nós, os mais velhos, somos fiéis depositários de valores culturais que temos o dever de legar às gerações futuras. E nenhum valor cultural é tão nobre e tão inestimável como a nossa língua.
 
Texto lido na apresentação do meu livro, dia 21, em Lisboa.

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84 comentários

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De da Maia a 28.05.2013 às 22:54

PPorto:
... não confunda a funda com o fundo.
Mas quais tangas fundacionais é que você quer vender?
Acaso vocemessê tem fundamentos para vir falar de origem e evolução da língua portuguesa?

É claro que houve aspectos introduzidos por contaminação "erudita" do latim... e daí?
O que é que isso interessa?
Também houve do inglês, do francês, etc...

Do Prof. Pimpão aconselho especialmente a menção dele, após operação à vista, quando se sentiria mais próximo do escritor.

Também aconselho a abrir mais um olho, e não tanto o outro.

Você quer falar de 2 palavras - dicção e subtil?
Só pode estar a gozar...

É isso que retira da Orthographia de Lião?
É muito pouco...

Reparou quais eram as diferenças de pronúncia que Lião assinalava no território continental?
- Os B pelos V no Norte, e os CH de Vicheu.

Praticamente as mesmas que assinalamos hoje, passados quase 500 anos, em que por muito que tentassem não conseguiram mudar a língua.
Por isso, faça o favor de não me inventar evoluções que só existem na sua cabeça.

E quanto à origem, é melhor procurá-la no Vaticano, na biblioteca, que deve ser o último sítio do mundo onde ainda o latim vive.

Ainda não percebeu uma coisa... eu nem discordo de algumas coisas que diz, discordo é por completo das suas ideias sobre a "evolução da língua" e da sua posição lapidar face ao acordo.
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De PPorto a 29.05.2013 às 00:19

Maia,

Portanto, fechamos a conversa desta maneira:

Para além do portuguesíssa "dição", o Lião escreveu ainda os portuguesissimos "perfeito" e "leitor" (porque era assim que se pronunciava). No entanto, tentou enfiar o "perfecto" e o "lector", porque, segundo ele, deixava a lingua mais polida. Essas acabaram por se perder. Deo Gratia.

O Verney, que foi traduzido e lido por toda a Europa, esteve-se nas tintas para os parolos que o ostracizaram por cá e que escreviam "correcto". Vai daí, escreveu "correto", "objeto", "protetor". Como hoje fazemos.

Depois, e segundo vc, o maior especialista português em Camões estava parvo porque tinha sido operado a uma vista e vai daí disse preto no branco que Camões não escreveu mudas que hoje se leem porque naquele tempo não se pronunciavam.
Ainda segundo vc, Camões, teve um problema parecido com o de Pimpão porque só via de um olho, e vai daí escreveu corrução por corrupção, dino por digno, Egito (imagine-se!!!), Antartico (sem c mudo, como antes do AO), contrato, sem o c etimolgico que depois foi enfiado, e escreveu também decer por descer, porque aquele s também foi enfiado na ortografia por bacoquice latinizante. Etc, etc, etc.

Mas, prompto, esta gente só via com um olho.
Vale-nos que vc que vê com três, como já se percebeu.

E a aulinha foi de graça. Seja plas almas.
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De da Maia a 29.05.2013 às 02:59

Não percebeu?
Eu volto a explicar:
- A língua portuguesa não teve nenhuma evolução significativa nos últimos 500 anos.

Sobre isso, o que você disse?
- Calou-se, bem caladinho - que é o que faz bem!

Onde é que você foi buscar a ideia que eu defendia que leitor vinha de lector, ou perfeito de perfecto?

Leu isso nos livros que lhe mandaram ler, foi?

Se calhar você também acha que leite vem de lecto e feito vem de fecto...

Santa Paciência...
- é defeito ou deleite?
- fez-se de feito ou de leite?

Minha Nossa. Camões escreve:
"Sobem aa Ethiopia, sobre Egipto,"

Quer analisar todos os "aa", os "th", ou quer só comer o "p" de Egipto que está no original de 1572?
- É pimpão, vesgo, ou simplesmente mentiroso?

Está viciado em três ou quatro exemplos, sem pés nem cabeça, tem o disco riscado, e como não sabe responder, aparece a falar de "aula"... com uma atrevida ignorância.
Vá partir pedra, e não ofenda uma língua que você trata com um escopro.
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De Bic Laranja a 29.05.2013 às 12:30

Só gostava de saber qual é o problema de escrever dicção, dizendo 'dição'? Gostava, a sério.
Já escrever 'seção' com toda a gente a dizer secção é que...
Enfim!
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De ghj a 30.05.2013 às 05:01

Verney seguiu as modas da altura que foi traduzindo.
As modas, já se sabe, mudaram.
O Verney ficou, por ser maçon - e a maçonaria em Portugal manda - e porque dizia que o soneto de Camões "Alma minha gentil" e o "Sete Anos de Pastor Jacob servia" seriam "sem graça nenhuma" e que a expressão "longo amor", também de Camões, era uma "parvoice" (sic).
Já se vê que um homem destes, com esta apurada e superior visão não podia deixar de ter admiradores seus em Portugal, passados 250 anos.. e que não fosse citado pelos defensores do acordo: estão todos bem uns para os outros.

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