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Grande romances (8)

por Pedro Correia, em 16.05.13

 

VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICAS VIRTUDES

O Delfim, de José Cardoso Pires

 

Todo o livro é irrepetível até prova em contrário. Mas há uns mais irrepetíveis que outros. Tomemos por exemplo O Delfim: livro irrepetível acima dos demais, retrato-documento de uma época de transição, breve pausa entre um mundo que ruía e outro que ia assentando alicerces ainda incertos.

É o mundo do engenheiro agrónomo Tomás Manuel da Palma Bravo, morador na Casa da Lagoa, senhor incontestado da freguesia da Gafeira, a 150km de Lisboa em dimensão física mas a uma distância muito maior em ritos e medos que aqui foram perdurando geração após geração. Este é um palco de espectros, rumores, sombras e presságios em desafio à esquadria da lógica e aos epítomes da modernidade - a começar pelos astronautas que nesse mesmo instante passeiam no espaço sideral e têm as fotografias estampadas nas capas dos vespertinos que ali só chegam nas camionetas da carreira, quase ao cair da noite.

Tomás Manuel, 11º varão da família com esse nome, vive rodeado de fantasmas ancestrais nos salões da Casa da Lagoa. "Tinham rostos nebulosos, esses cavaleiros lavradores. Emergiam de um passado intemporal em que reinavam guerrilheiros de crucifixo no bolso e onde havia lenços vermelhos a flutuar sobre as searas. E javalis nos bosques - faço questão de acentuar, não é qualquer caçador que se pode gabar de os ter enfrentado, visto que, nos tempos que correm, ninguém lhes põe a vista em cima." Palavras do escritor, insuperável na descrição de atmosferas. Palavras que se diriam quase nostálgicas em alusão a uma era da qual apenas sobram rastos de decadência.

A Gafeira, como Portugal, é um território povoado de anacronismos, simbolizados nas imagens a preto e branco exibidas no televisor sem som da mansão e reflectidas nas páginas do romance, sucedâneo do coro das tragédias clássicas aqui em versão silenciosa, num incessante desfile de "padres, militares e políticos" - espécie de assombração geral que serve de fundo à assombração muito peculiar que O Delfim deixa entrever num fio de novelo ficcional pontuado por um narrador omnipresente mas não omnisciente, que presume afinal muito mais do que realmente sabe.

 

Há romances espantosamente premonitórios, que fazem da sua circunstância a principal chave de um êxito a que talvez nunca aspirassem à partida. É o caso deste, o terceiro de José Cardoso Pires (1925-1998), após O Anjo Ancorado e O Hóspede de Job, surgido em 1968, um ano de mudanças várias nas sete partidas do globo - e nomeadamente na sociedade portuguesa, com Salazar a sair de cena após quatro décadas de poder quase absoluto, dando lugar a Marcelo Caetano, a quem se poderia pôr também o apodo de Delfim, novo guarda-mor de um regime em decomposição acelerada que este livro vislumbrava, logo no próprio título, com olhar lúcido e visionário.

Salazar é, de resto, mencionado explicitamente num trecho, muito ousado para a época, à semelhança de vários outros que percorrem esta obra ácida mas nada árida, cáustica sem contemplações - não só para a política mas para o jornalismo e a própria literatura, aqui satirizada na figura de Maria da Paz Soares, Pazinha para os íntimos, versejadora que "todos os anos publica um livro de poemas e todos os anos muda de amante que é para manter os cornos do marido em forma".

O Delfim vem estilhaçar o tranquilo provincianismo português destes anos crepusculares da ditadura, mundo dual, simbolizado nas águas estagnadas da lagoa ocasionalmente penetradas por correntes oceânicas, mundo povoado de vícios privados e públicas virtudes em que desponta um inesperado triângulo: o engenheiro, a sua esposa Maria das Mercês, suposta mulher estéril (o que porá fim à linhagem dos Palma Bravos) e Domingos, o criado mestiço que perdeu um braço e "gastara a infância nos cais do Mindelo conduzindo marinheiros americanos com a sua voz branda e amável".

 

"Pelas vidraças descidas até meio entra o ar da noite que, percebe-se agora, vem cortado de um ligeiro travo de fumo. É bom estar assim, num quarto com borralho na braseira, e receber de frente uma aragem temperada por um fio de aroma. Excelente ideia, a da braseira. Raros caçadores terão tido tantas atenções da parte de uma formiga-mestra estalajadeira."

Este parágrafo demonstra bem o talento estilístico de Cardoso Pires neste romance com claras influências de Hemingway - na caça, na pesca, no álcool, nos touros, no sangue, no trágico determinismo de um universo masculino, polvilhado de contínuas comparações de pessoas e até objectos a animais - os aldeões que pareciam "dois corvos", a dona da pensão "com cabecinha de pássaro", o potente Jaguar semelhante a um tubarão - ou a utilização destes como veículo de sátira social ("o que intriga é o instinto de classe dos cães das classes abastadas, a maneira como escorraçam o pobre e como emparceiram com o rico, ainda que o não conheçam") ou política ("os cães-polícias da GNR, insaciáveis e sanguinários").

 

É um livro que oferece ao leitor um dos melhores primeiros capítulos de toda a literatura portuguesa, um livro capaz de cruzar o olhar subjectivo do autor-narrador com descrições supostamente objectivas de relatórios oficiais, autos de inquérito policial e simples notícias de jornal, cheio de saltos cronológicos e deliberadas faltas de sincronização entre o que se imagina e o que realmente ocorreu.

Um livro com um enredo propositadamente desfocado e algumas imperfeições que permaneceram por limar ao longo de sucessivas reimpressões da obra: Maria das Mercês terá morrido no mês de Maio, supostamente de 1967, mas a data mencionada para o seu óbito é o ano anterior; o abade Agostinho Saraiva, autor da imaginária Monografia do Termo da Gafeira, é denominado Domingos por lapso (na página 46 da 10ª edição, da Dom Quixote, datada de 1988); o outro apelido de Fernando Pessoa era Nogueira e não Seabra (p. 207).

Pormenores que não alteram o fundamental: este romance vale sobretudo como símbolo de um período histórico - o do Estado Novo então já velho, sulcado de mulheres de negro, autênticas "viúvas-de-vivo", de diários "tão lavados pela Censura que sujam as mãos" e de contínuas imagens de sumidades a desfilar numa televisão sem som. "Estúpido mundo quando fala sem voz".

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Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Santuário - Sombras profundas num Sul sem sol

Pais e Filhos - Voz do sangue, voz da terra

As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

A Peste - Ratos e homens


14 comentários

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De Ana Vidal a 16.05.2013 às 10:55

Excelente este livro do Cardoso Pires, um dos que mais me impressionou nas minhas leituras precoces e mais ou menos furtivas. Conheci muito bem este universo, talvez por isso o livro me marcou tanto. E excelente esta tua análise, mais uma. Serias um grande crítico literário se quisesses seguir por essa via profissional.
Noto que temos uma coisa em comum: tropeçar, por inevitabilidade ou azar, em todas as incongruências e pequenos erros de uma narrativa. Geralmente apanho-os também, mesmo sem querer. E às vezes, sobretudo quando gosto muito do que estou a ler, apetece-me pedir ao autor que os corrija em próximas edições.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 17:08

Já aqui tinha escrito sobre o Cardoso Pires contista (faceta pouco conhecida). Anteriormente, noutro espaço blogosférico, escrevi sobre o Cardoso Pires cronista (faceta ainda menos conhecida, o que só posso lamentar).
Chegou enfim a hora de escrever sobre o Cardoso Pires romancista. E só podia fazê-lo com o que considero o melhor romance dele - precisamente este.
Registo mais esta coincidência entre nós, Ana: também, eu, enquanto leitor, estou sempre atento a estes pormenores. Consequência natural de mais de duas décadas a editar textos alheios. Fica-nos para sempre...

(obrigado pelas tuas palavras tão amigas)
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De Luis Eme a 16.05.2013 às 11:17

grande livro!

o que gosto mais do José Cardoso Pires.

também gostei muito do filme do Fernando Lopes.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 16:53

Também eu gostei muito do filme, que aliás segue com a fidelidade possível a narrativa do livro, que li muito antes e agora confirmei manter uma assinalável juventude - de tema, de estilo, de vocabulário, de agilidade expressiva. O que é uma óptima notícia para a literatura mas não sei se será uma óptima notícia para o País.
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De Ana Vidal a 16.05.2013 às 17:52

Também gostei bastante do filme. Fui à estreia, o CCB a abarrotar de cinéfilos. Um sucesso merecido, o Fernando Lopes estava feliz e com razão.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 17:59

Foi uma adaptação longos anos adiada - e não faltava até quem considerasse que o livro era "infilmável". Há sempre Velhos do Restelo por toda a parte.
Afinal 'O Delfim' originou um filme memorável. O próprio romance possui aliás uma estrutura cinematográfica. Lá saiu mais uma profecia furada aos Velhos do Restelo...
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De José Catarino a 16.05.2013 às 11:57

Grande romance e grande post. É esta a crítica literária que aprecio, não a que por vezes predomina nos meios da especialidade, quase ilegível, a fazer lembrar a história do rei que ia nu. E força na cruzada contra o acordo ortográfico, que apoio e acompanho fielmente.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 16:58

Agradeço-lhe muito estas palavras, caro José Catarino. De alguma forma escrever sobre livros dá-me tanto prazer como lê-los. Que isso possa ser útil aos leitores - estimulando vários deles na direcção de determinadas leituras ou releituras - é algo que muito me satisfaz. Em relação ao AO, a intenção é mesmo essa: não dar tréguas nesta justa luta.
Um abraço - e cá o vou lendo também.
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De Teresa Ribeiro a 16.05.2013 às 14:00

Do melhor que eu já li escrito por ti. Apeteceu-me voltar a pegar no livro.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 16:50

Obrigado pelas tuas palavras, Teresa. Foi, de facto, o que me aconteceu: peguei no livro, que já tinha lido duas vezes (a primeira foi com uma edição anterior deste romance, da saudosa Moraes), e só parei no fim. Tantas vezes ouvi dizer que a releitura nos proporciona mais prazer do que a leitura: tenho sentido muito isso por estes dias.
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De Luís Lavoura a 16.05.2013 às 14:18

É um livro bué de chato, com uma história (se é que se lhe pode chamar tal coisa) que não anda para trás nem para a frente, e cujo objetivo não se entende, e com centenas de páginas que não levam a lado nenhum.
Tentei lê-lo duas vezes mas em nenhuma delas consegui passar dos dois terços.
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De Ana Vidal a 16.05.2013 às 17:17

Luís Lavoura em todo o seu esplendor. Ninguém pode acusá-lo de incoerência, pelo menos.
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De Ana Vidal a 16.05.2013 às 17:19

Já agora, uma sugestão: da próxima vez que isso lhe acontecer, tente da segunda vez ler o terço que lhe faltava em vez de repetir a leitura dos dois primeiros. Sempre acaba o livro, e o esforço é menor.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 17:25

Recomendo ao Luís Lavoura que veja o filme, extraído deste livro "sem história": fatiga menos os neurónios, deixando-os mais disponíveis para navegar à bolina nas caixas de comentários deste encapelado mar da blogosfera.

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