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Grandes romances (7)

por Pedro Correia, em 12.05.13

 

RATOS E HOMENS

A Peste, de Albert Camus

 

«Sinto mais solidariedade com os vencidos do que com os santos. Creio que não tenho gosto pelo heroísmo nem pela santidade. O que me interessa é ser um homem.»

(p. 184)

 

Há livros que podem ser lidos de várias formas, permitindo diversos níveis de interpretação - sem nunca perderem o fascínio que exercem sobre o leitor. É o caso deste perturbante romance de Albert Camus sobre uma cidade no norte de África - Orão, na então Argélia francesa - sitiada devido à peste.

Li-o pela primeira vez na adolescência, sem atender ao seu mais profundo significado metafórico, e pareceu-me um poderoso retrato da fragilidade humana confrontada com um mal supremo num mundo que deixou de merecer o interesse de Deus. É muito curta a distância que vai do homem como ser supremo da natureza ao homem vítima das mil contingências causadas por essa mesma natureza que sempre tentou dominar sem nunca o conseguir.

A peste, milenar símbolo do mal, surge aqui com um significado especial num século em que o ser humano, mais que nunca, supôs ser o do progresso irrevogável. Em 1900, houve inúmeros festejos por toda a Europa saudando o advento de uma nova era que se imaginava ser de paz perpétua, luzes universais e prosperidade galopante ao dispor de todos. As ilusões podem tornar-se perigosas - como a realidade rapidamente se encarregou de comprovar.

 

Ao reler este livro muitos anos depois, no entanto, o seu significado alegórico tornou-se-me ainda mais evidente. Quase desde as primeiras linhas, quando um médico residente na segunda maior cidade argelina - "cidade sem pombas, sem árvores e sem jardins", plantada à beira do Mediterrâneo mas crescendo de costas voltadas para o mar - encontra um rato morto no patamar do edifício onde tem o consultório. Depois desse rato, surgem outros. Muitos outros. E em breve Orão estará fechada sobre si própria, de quarentena, transformada num pequeno universo concentracionário, com os seus habitantes a morrerem às centenas, aos milhares. Vítimas de uma doença atávica que todos consideravam já extinta.

O século XX, tempo de peste. Orão, símbolo da Paris ocupada pelos esbirros de Hitler entre 1940 e 1944. Os ratos, a tropa de choque nazi. As brigadas sanitárias que o Dr. Bernard Rieux organiza para combater o mal, num esforço claramente desproporcionado, um evidente paralelo com a resistência francesa ao invasor. O grande romance de Albert Camus - publicado em 1947 - libertava-se do seu significado literal, aos meus olhos de leitor já experiente, surgindo como uma assombrosa metáfora de um tempo de trevas e de um espaço submetido ao bacilo mortal do totalitarismo.

Camus, ele próprio membro da resistência e jornalista envolvido no combate quotidiano às forças ocupantes, nunca teve dúvidas sobre a missão que deve caber aos intelectuais nas encruzilhadas do mundo contemporâneo: a defesa intransigente da liberdade, sabendo que esta é inseparável da justiça. Nenhum sistema ideológico está autorizado a capturar a liberdade em nome de causas que a sufoquem nem a neutralizar a justiça a pretexto de bandeiras que a violentem.

 

De tudo isto nos fala A Peste (com antiga edição portuguesa dos Livros do Brasil e uma reimpressão surgida já em 2013, sob a mesma chancela, sempre com tradução de Ersílio Cardoso). Num estilo lento, pastoso, sublinhado pela voz quase neutra de um narrador omnisciente que confere um efeito de acrescida verosimilhança à narrativa enquanto desfilam personagens com entrada automática na galeria imortal das melhores ficções literárias de todos os tempos: Rieux, que se esgota em incessantes tentativas de cura de cidadãos anónimos mas é incapaz de salvar a mulher, vítima de outra doença implacável; o forasteiro Tarrou, que um dia descobriu com terror ser filho de um procurador que conduzira pessoas ao cadafalso e desde então decidira "recusar tudo o que, de perto ou longe, por boas ou más razões, faça morrer ou justifique que se faça morrer"; Grand, escritor falhado, eternamente em busca da expressão perfeita de um livro que nunca escreverá; o jovem jornalista Rambert, que procura evadir-se de Orão, dizendo não acreditar no heroísmo, mas que acaba envolvido na resistência; o padre Paneloux, que começa por justificar a peste como praga divina destinada a castigar os pecados humanos, com "esse clarão sublime de eternidade que jaz no fundo de todo o sofrimento", e termina a suplicar a Deus, numa inútil prece de joelhos, que evite a dolorosa agonia de uma criança inocente.

 

E no entanto, neste mundo eternamente desaguarnecido da misericórdia divina, Camus mobiliza todos os leitores para o inadiável dever da esperança: "É preciso fazer o necessário para deixar de ser um pestiferado e só isso nos pode fazer esquecer a paz ou, na sua falta, uma boa morte."

Romancista de ideias, habituado a teorizar sobre o absurdo da existência humana, este francês nascido na Argélia em 1913 e precocemente desaparecido num acidente de automóvel em Janeiro de 1960, pouco mais de dois anos após ter recebido o Nobel da Literatura, viu a sua reputação agigantar-se desde então, conquistando novas gerações de leitores em sucessivas reedições das suas obras de ficção, teatro e ensaio. O Primeiro Homem, o romance incompleto que transportava na pasta, ainda em rascunho, quando o retiraram dos escombros do veículo em que perdeu a vida, foi lançado em 1994 e aí percebeu-se como a sua popularidade se mantinha intacta: logo na primeira semana, mais de 50 mil exemplares escoaram-se das livrarias. Quantos escritores imaginariam conseguir um best seller três décadas e meia depois da morte?

Um êxito editorial que já tinha alcançado com A Peste: entre Junho e Setembro de 1947, venderam-se 52 mil cópias em três edições desta obra, galardoada nesse mesmo Verão com o Prémio da Crítica.

 

A identidade do narrador, só desvendada no final do livro, é um dos inúmeros aliciantes deste romance dividido em cinco capítulos, imitando os cinco actos das tragédias clássicas, e que alguns podem ler como um ensaio sobre ética. Não admira que tenha influenciado profundamente outros autores (há, por exemplo, um claro parentesco entre A Peste e o Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago).

Romance alegórico, sim. E romance profético também. Porque Orão viria a ser palco, na década posterior à publicação deste livro que a imortaliza, de algumas das maiores atrocidades cometidas durante a sangrenta guerra da Argélia.

A vida imitava a ficção, como tantas vezes sucede. Dando ainda mais relevância à lucidez das palavras finais d' A Peste, enquanto gritos de alegria incontida explodem de bairro em bairro. Camus sabia que "o bacilo não morre nem desaparece nunca" e que "viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz".

 

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Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Santuário - Sombras profundas num Sul sem sol

Pais e Filhos - Voz do sangue, voz da terra

As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

 

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14 comentários

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De Cristina Torrão a 12.05.2013 às 12:00

"É muito curta a distância que vai do homem como ser supremo da natureza ao homem vítima das mil contingências causadas por essa mesma natureza que sempre tentou dominar sem nunca o conseguir".

A distância não é curta, nem longa. Porque essa distância não existe! O nosso erro é, precisamente, pensarmos que somos o "ser supremo da natureza". Não somos e devíamos ter a humildade de o admitir, em vez de, constantemente, nos pormos em bicos de pés, julgando-nos muito superiores a tudo aquilo que nos rodeia (natureza e outros animais).
Essa superioridade é totalmente ilusória. Enquanto tentarmos dominar a natureza, nunca sairemos da nossa mediocridade, cegos à evidência de que a cooperação é o melhor caminho. No dia em que começássemos a cooperar e a interagir com a natureza, teríamos hipóteses de tornar este mundo mais humano (não deixa de ser irónico). Mas, enquanto acreditarmos na subjugação de tudo aquilo que nos rodeia, nada feito!

P.S. A frase de abertura deste post, que o Pedro cita do livro de Camus, fez-me lembrar uma outra que li há pouco tempo, mas da qual não recordo a autoria. Mais ou menos assim: "é na maneira como lidamos com os mais fracos que revelamos a nossa humanidade" (ou a falta dela, acrescento eu).
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De Pedro Correia a 12.05.2013 às 14:11

Cristina, digo quase a mesma coisa de modo diferente. O homem deve acautelar-se, a todo o momento, contra a tentação de ser um super-homem. Esta concepção, transposta para a filosofia política, serviu de base ao totalitarismo: o "super-homem" só surge à custa de milhões de vidas de seres transformados em "infra-humanos". Está mais do que provado que o homem ou existe integrado na natureza - que não domina nem jamais dominará - ou não existirá de todo.
Mas há também que prevenir a tentação oposta: homem e lagartixa, por exemplo, não se equivalem. A nenhum animal é exigível um comportamento de acordo com a ética: o ser humano, pelo contrário, tem o dever de assumir padrões éticos mínimos - perante si próprio e perante os outros (animais ditos irracionais incluídos).
Disto nos fala também - eu diria: disto nos fala essencialmente - o grande romance de Albert Camus.
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De Cristina Torrão a 12.05.2013 às 18:20

Concordo, Pedro. Não há dúvida de que temos um outro estatuto, os outros animais não se equivalem a nós. Quando eu digo que a nossa superioridade é ilusória refiro-me mais ao aspeto de que, numa catástrofe natural, dificilmente temos mais vantagens (às vezes, até temos menos) do que eles (é conhecido, por exemplo, que, em caso de tsunami, os animais se põem a salvo a tempo).

Mas também entre os animais há diferenças. Não devíamos meter todos no mesmo saco, pois mal se pode comparar a inteligência e as necessidades (afetivas e não só) de um cão, ou um gato, com as da lagartixa, ou da minhoca (que, aliás, têm a sua utilidade. E não só na pesca ;).
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De Pedro Correia a 12.05.2013 às 18:32

Sim, claro, há diferenças entre os animais - e até entre os membros de cada espécie animal. E como diz, por mais insignificante que nos pareçam, todos têm a sua importância. Na cadeia alimentar, por exemplo. E no equilíbrio ecológico. A perseguição irracional aos tubarões desde o filme do Spielberg tem contribuído para perturbar as proporções da fauna oceânica. E até a morte de milhões de abelhas devido à acção de químicos e pesticidas preocupa qualquer pessoa dotada de um mínimo de consciência ecológica: elas são responsáveis por uma grande parte da polenização dos campos.
Há uma frase do Fernando Pessoa que cito muitas vezes e que é uma das mais certeiras que conheço: «O homem não sabe mais do que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.»
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De Cristina Torrão a 12.05.2013 às 19:07

Uma grande frase de Fernando Pessoa, não conhecia, obrigada ;)
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De Pedro Correia a 12.05.2013 às 21:09

Já sabia que iria gostar, Cristina. Eu gosto muito: é uma das minhas preferidas. Do Pessoa ou de outro pensador qualquer.
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De Carlos Azevedo a 12.05.2013 às 15:34

Um belo texto, Pedro. Albert Camus foi um grande escritor (se me é permitido, destaco «A Queda», um livro que, para mim, foi absolutamente marcante), um enorme intelectual e, também por isso e acima de tudo, um homem admirável. É e será sempre um dos meus ídolos.
Um abraço.
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De Pedro Correia a 12.05.2013 às 18:40

É curioso que tenha utilizado a palavra "ídolo", Carlos. Eu também uso essa palavra para mim próprio, aludindo a um conjunto limitado de personalidades - das mais diversas épocas e dos mais diversos domínios e quadrantes geográficos e até políticos - que sempre admirei e nunca me desiludiram. Também eu digo, nessa acepção, que Camus é um dos meus ídolos. Quanto mais conheço a obra dele, e o legado que nos deixou, mais me revejo no pensamento dele.
Não devemos sentir qualquer embaraço em reconhecer que temos ídolos ou heróis. Mandela, por exemplo, é um herói para mim. A emulação, neste sentido, é um dos sentimentos mais positivos que conheço.
Camus teve infelizmente uma vida curta e deixou incompleto aquele que seria o seu grande romance, um livro que ele pretendia ao nível da 'Guerra e Paz'. Trabalhou nele durante todo o ano de 1959 e tinha planeado terminar 'O Primeiro Homem' em Agosto de 1960. Faltaram sete meses para que essa obra-prima se materializasse.
Mas toda a obra de ficção dele é excelente - conto, novela, romance. 'O Estrangeiro' (1942), 'A Peste' (1947), 'A Queda' (1956) e 'O Exílio e o Reino' (1957).
'A Queda', curiosamente, começou por ser um conto e foi-se alargando até à forma que conhecemos. Camus usou, inadvertidamente, a técnica de Hemingway: todos os romances dele começaram por ser contos. Concordo consigo: é também uma obra-prima.
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De Teresa Ribeiro a 12.05.2013 às 15:54

Também eu li A Peste long time ago. Na adolescência tive a minha fase Camus, que começou com a leitura de "O Estrangeiro", que me atingiu como um raio. Daí ao coup de foudre pelo autor foi um passo de formiga. Sinto que se voltar a esse texto vou descobrir que não só não envelheceu, como remoçou.
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De Pedro Correia a 12.05.2013 às 18:21

Não envelheceu, Teresa. Pelo contrário. A guerra, a fome e a peste - infelizmente, e ao contrário do que garantiam os augúrios do optimismo antropológico e do determinismo histórico destinado a desaguar numa aurora radiosa que jamais atingiremos - são temas eternos. Década após década, século após século. Tantos anos depois da sua morte trágica, Camus ainda nos demonstra isso.
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De Ana Vidal a 12.05.2013 às 22:06

Li este livro há muitos anos, mas o teu texto fez-me apetecer relê-lo para descobrir-lhe novos prismas. Ando numa fase de releituras, aliás, e a gostar deste estado de espírito. Um bom livro deve ler-se mais do que uma vez porque nunca é o mesmo, muda com o nosso olhar ao longo do tempo.
De Camus, o último que (re)li foi O Estrangeiro.
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De Pedro Correia a 12.05.2013 às 23:34

Coincidência: também ando em fase de releituras, Ana. Do Camus já reli 'O Exílio e o Reino', 'O Estrangeiro' e agora (em terceira leitura) 'A Peste'. Quero voltar a ler 'A Queda', um dia destes. Um livro que, aliás, esteve quase a ter outro nome: ao editor soava mal que se dissesse«'A Queda' de Camus».
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De Ana Vidal a 16.05.2013 às 01:32

Não sabia dessa curiosidade, mas faz sentido. :-)
"La chute" (só tenho o livro em francês) está na minha mesa de cabeceira, na fila das próximas releituras. Mas para já ainda ando no Camilo, em bom português.
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De Pedro Correia a 16.05.2013 às 08:47

Outra coincidência: também regressei ao Camilo, após muitos anos de ausência. E estou a gostar muito mais do que imaginava.

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