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Como desperdiçar clientes em tempo de crise (2)

por José António Abreu, em 09.05.13

Um estudo da GfK indica que em 2012 se vendeu menos um milhão de livros em Portugal do que no ano anterior. Dificilmente alguém ficará surpreendido. Embora a crise force muita gente a permanecer mais tempo em casa, os livros estão caros, têm forte concorrência (telemóvel, cinema, TV por cabo, internet) e, não obstante as ilusões de quem gosta deles, dificilmente podem ser considerados bens de primeira necessidade. No que me diz respeito, tenho a sorte de ainda não ter sido forçado a comprar menos. Nem por isso editoras, gráficas e livrarias portuguesas mantiveram o nível de rendimentos que tradicionalmente obtinham comigo. Uma contagem rápida e aproximada (não anoto datas de compra) permitiu-me determinar que, desde o início de 2011, adquiri cerca de cento e setenta (há ainda os do kindle mas estes foram quase todos gratuitos ou a menos de cinco dólares). Dos cento e setenta, as editoras e livrarias portugueses venderam-me pouco mais de quarenta, metade dos quais em saldo. Numa inversão de hábitos (até 2011 fizera questão de privilegiar as edições nacionais), comprei os restantes em edição estrangeira, através da internet (quase todos na Amazon britânica). Porquê? Obviamente, por causa do acordo ortográfico. Não comprei nem – já o afirmei várias vezes – faço tenções de comprar nos próximos anos um único livro cuja edição lhe siga as regras. Who cares?, perguntarão alguns. (Peço desculpa pelo uso do inglês mas os hábitos vão-se instalando.) Pois, talvez seja irrelevante. Sou apenas um cliente. Perder um cliente e uma centena de vendas em dois anos e meio é capaz de não ser grave, mesmo em tempos de crise. A não ser que a crise não explique uma parte relevante do tal milhão de exemplares vendidos a menos. Se existirem mais novecentas e noventa e nove pessoas como eu, a crise não pode ser responsabilizada por várias dezenas de milhares dessas vendas perdidas. E bastará que, em resultado do acordo, vinte mil pessoas tenham comprado menos dez livros cada uma em 2012 para que a crise apenas represente uma quebra de oitocentos mil exemplares. Quem pode ter a certeza? Não eu – mas continua a parecer-me má ideia alienar clientes em época de crise económica.

Enfim, signifique a implementação do acordo uma quebra de quarenta ou cinquenta exemplares por ano (os que eu compro a menos) ou de várias centenas de milhares, uma coisa posso acrescentar – e muitos não gostarão das linhas que se seguem mas a intensidade da minha opinião é clara desde há bastante tempo: notícias sobre editoras em dificuldades apenas me causarão pesar se as atingidas estiverem entre as poucas que continuam a resistir; notícias sobre livrarias forçadas ao encerramento levar-me-ão (ou levam-me, porque já são uma realidade) a encolher os ombros. A forma como quase todo o mundo editorial português foi cúmplice desta reforma de mangas-de-alpaca, renegada ou adiada em todos os países de língua portuguesa excepto aquele onde ela nasceu, torna certas consequências merecidas. Ou, no mínimo, a encarar com a falta de boa vontade inevitável nos escorraçados.

Demasiado duro? Está bem, acabo com uma nota positiva: para além de ser bastante melhor ler as obras no original (e uma tradução para inglês não é necessariamente pior do que uma tradução para português), a implementação do acordo permitiu-me melhorar a leitura do francês e descobrir que consigo ler espanhol. Pelo que se calhar até devia estar agradecido a quem mo impôs. Obrigadinho. Ou melhor: thanks; merci; gracias.

 

Adenda

Obviamente, irei comprar este livro – e ainda hoje. Parabéns, Pedro. 


Como desperdiçar clientes em tempo de crise (1).


22 comentários

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De SC a 09.05.2013 às 16:40

Quando li o título do "post" dei a resposta que, depois, vi ser também a sua. A crise poderá muito, mas à minha conta, de Janeiro até agora, já lá vão perto de 15 livros que deixei de comprar em Portugal por causa do acordês. Alguns deles comprei na Amazon. Seria interessante saber os valores das compras portuguesas na Amazon.
Quando os editores portugueses resolveram começar a violar a lei em vigor (Decreto 35228 de 8 de Dezembro de 1945) deixei de comprar.
Pensei que seria uma teimosia minha, mas fui-me apercebendo que a partilhava com muitos.
De igual modo, deixei de ler qualquer jornal ou revista que use o acordês.
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De José António Abreu a 11.05.2013 às 23:14

SC:
Peço-lhe desculpa; por alguma razão, na altura em que respondi aos comentários escapou-me o seu. Sim, eu também gostaria de conhecer as vendas da Amazon para Portugal. E então se lhes juntarmos as de livros electrónicos...
Quanto a jornais e revistas que comprava com regularidade, abandonei a Ler, a Blitz, o Jornal de Letras, a Exame (que comprava mais raramente) e várias revistas de automóveis e de cinema. Só compro a Sábado e, à sexta-feira, o Público (por causa do Ípsilon). Enquanto não adoptarem o acordo.
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De Sc a 12.05.2013 às 00:19

Não tem de quê. E quando o acordês falir, agradeço que me diga a sua morada, para instalar um quiosque à sua esquina :)
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De Vasco a 09.05.2013 às 16:44

Bem feito! Ahhahahahah. Pois eu desejo que todas as editoras que adoptaram o AO vão rapidamente à falência. E a Galp e a EDP também, esses ratos de esgoto. Tenho dito. Parabéns aos que só compraram livros estrangeiros este ano.
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De José António Abreu a 09.05.2013 às 20:12

A Galp e a EDP vai ser mais difícil...
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De Sc a 09.05.2013 às 17:01

"renegada ou adiada em todos os países de língua portuguesa excepto aquele onde ela nasceu"
Acho que talvez convenha distinguir: até 1985/6 foi uma tolice mais portuguesa, mas depois disso, e quando o Brasil percebeu que o brasileiro de que tanto falavam não podia ter estatuto de língua internacional (e por isso agora dizem "português brasileiro", passou a ser um desígnio brasileiro, imposto em e a Portugal pelas lojas - livrarias e as outras.
Desde Sarney maçon e muito alegadamente o político mais corrupto do Brasil, ("José Sarney defendeu nesta quinta-feira, em Lisboa, que Portugal e Brasil devem ``marchar inevitavelmente para um acordo ortográfico'') às "pressões no Brasil" de que fala Cavaco, a coisa toma a forma de uma imposição que não se coaduna com essa "teimosia portuguesa".
Oiça o Buarque que é bastante elucidativo (aos 5" http://www.youtube.com/watch?v=CuIQp1STBDo).
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De José António Abreu a 09.05.2013 às 20:11

Sc:
De acordo (credo!). Quando escrevi "adiada" estava a pensar na decisão recente da presidente Dilma. E talvez seja melhor acrescentar (a frase pode não estar clara) que "ela" (em "onde ela nasceu"") refere-se à língua, não à "reforma".
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De SC a 09.05.2013 às 21:34

Ah, interpretei mal, desculpe
Pois eu, mais do que não lamentar, terei um gosto feroz na falência de algumas delas. De servidoras e defensoras dos seus clientes, tomaram para si o papel de comissárias do acordês.
Porque são os editores: uma "cronista" dizia que escrevia em acordês para não desiludir (ou algo semelhante) o seu editor. Percebi então que as crónicas eram um assunto entre cronista e editor e que nós, pobres leitores, éramos apenas destinatário mediatos e secundários daquela correspondência, a quem cabia pagar e calar.
Claro está que nunca mais na vida lerei uma palavra escrita por alguém que nem percebe a grosseria do que escreveu...
Quanto às livrarias, pergunto se têm em português ou acordês. Se não têm digo-lhes que comprarei quando voltarem a publicar em português.
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De Pedro Correia a 09.05.2013 às 18:37

Obrigado, JAA. Percebo-te bem e por te perceber vou dando aqui indicações aos nossos leitores sobre livros, dos mais diversos géneros, que poderão comprar sem receio de estarem conspurcados pela escrita acordística. Há felizmente muitos, embora nem todos o indiquem expressamente na ficha técnica, o que constitui um erro comercial para o qual chamo desde já a atenção das editoras.
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De José António Abreu a 09.05.2013 às 20:17

Nem mais, Pedro. E continua o bom trabalho.

Aproveito para acrescentar que afinal não comprei o livro hoje porque não ainda não chegou às duas livrarias onde entrei. Isto de viver fora da capital...
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De zedeportugal a 09.05.2013 às 18:40

Desde já me apresento como um dos 999 que mudaram os seus hábitos de aquisição de livros (agora leio quase tudo em inglês e francês, mas também em espanhol alguns livros técnicos por ser mais fácil entender de imediato a terminologia). E, estou certo, aqui virão declarar o mesmo mais alguns dos 998 que faltam para atingir o número que referiu. ;)
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De José António Abreu a 09.05.2013 às 20:20

Ah, mas as editoras devem ter estatísticas segundo as quais houve pelo menos 9999 pessoas que passaram a comprar mais livros por causa do acordo...

Ou, atendendo à quebra nas vendas, talvez não. Talvez sejam apenas dirigidas por idiotas teimosos.
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De linda david a 11.05.2013 às 20:32

Aqui vou eu, mais uma vez, fazer de advogado do diabo...Creio, apesar da clareza e correção do seu texto, que incorre em alguns erros e injustiças. Sou professora de Português há trinta e dois anos e não tenho nada contra o acordo ortográfico (escrevo com minúsculas para não o ofender), o dito acordo, que tanto desacordo tem provocado, não me impediu de ler, nem de comprar livros, nem de escrever, nem de ensinar a minha língua e o prazer da leitura. Sempre incentivei os meus alunos, os meus filhos para a leitura e recomendo-lhes, tanto quanto possível, a leitura na língua original. Leio com fluência o francês, o castelhano e o galego. O inglês é o meu calcanhar de Aquiles, acontece. Considero e presto aqui a minha homenagem a todos os livreiros - profissão em desuso, o que muito lamento - , desde o Senhor Silva da livraria Silva em Faro, até ao senhor Carlos ou senhor Silva da Livraria Portugal e outros senhores que tanto me ajudaram a ser melhor leitora. Era a eles que pedia conselho sobre a melhor tradução, a melhor edição, a mais económica. Eles tudo sabiam e muito bem aconselhavam, (eu achava que eles viviam num paraíso, foi a mim que o Borges roubou esta imagem), conheciam os tradutores ou tradutoras - alguns viriam a tornar-se bons escritores - e sabiam como funcionava esta e aquela editora. Sim, eram outros tempos, sim, blá, blá. A senhora alemão, de quem todos tinham medo, da livraria Bücholz, foi, para mim, uma espécie de guia literário e conselheira, esta 'temível' senhora sabia tudo sobre livros e tudo ensinava, apesar do mau feitio. Perder estas livrarias, perder os livreiros, provoca um rombo muito maior na nossa cultura do que qualquer acordo ortográfico. Não deixei de comprar livros, não deixei de oferecer livros, não deixei de ler, não deixei de amar os livros, porque são escritos sem o 'c' antes do 't'. Se compro hoje menos livros é porque tenho menos dinheiro do que tinha ontem. Sei que as editoras,os críticos, ou cronistas não têm as melhores relações de amizade e solidariedade, porque as minhas amigas escritoras desabafam comigo e contam-me as "intrigas palacianas", as invejas e as maledicências. Sei também que as editoras não pagam a tempo e horas e o trabalho de tradução continua ser muito mal pago. Sei que as livrarias foram substituídas por grandes superfícies e que os livros perderam a dignidade quando procuramos o "tal" romance numa prateleira, como quem escolhe um kilo de arroz, ou um desodorizante. Sei também que a única razão que nos faz comprar livros, agora, sem o conselho avisado de um bom livreiro, é o gosto pela leitura, o prazer imenso de sermos conduzidos, pelo escritor, para um universo desconhecido que ele faz o favor de connosco partilhar. O acordo? As editoras? Os cronistas? Quem são? Os críticos literários? Quem são? Serão assim tão importantes que nos impeçam de ler e de gostar de ler? Não me parece. Por fim, mas igualmente importante, tenho outro lamento, outra tristeza: por que não leem os portuguese os seus autores? Será por se sentirem incomodados por o chapeuzinho de leem, ter desaparecido? Não me parece. Será mais fino e sinónimo de "ser-se culto"ler os autores estrangeiros? Pelos vistos.... Ai! Eça, Eça a falta que nos fazes!
(Isto sou eu a falar que nem tenho livros publicados, nem gosto da língua inglesa.)
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De José António Abreu a 11.05.2013 às 23:03

linda:
Se ler o texto a que se acede através da segunda hiperligação (não escrevo link para evitar o inglês) encontrará explicação para a intensidade da minha reacção. Mas cada qual tem a opinião que entende ter e reage da forma que considera mais adequada.
Quanto aos autores portugueses, creio que actualmente até são razoavelmente lidos. Eu leio-os - desde que publiquem em português pré-acordo, o que sucede com quase todos, se não todos, os que vale a pena ler.
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De Sc a 12.05.2013 às 00:27

Eça teria palavras à altura para esta criminosa ilusão de mudar a língua por decreto, em nome de teorias de há 150 anos e para satisfação da toleima de um país estrangeiro com 75% de analfabetos.
Há uma coisa que vai de parelha com a indiferença pelo acordo: é conivência ou a indiferença e a convivência com o analfabetismo e a iliteracia. A democracia portuguesa, que gastou milhões com as maiores futilidades, não conseguiu acabar com o analfabetismo - os brasileiros também não -, mas para essa coisa essencial parece que não há vontades políticas nem voluntarismos. Porque será que não me surpreende?
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De Sc a 12.05.2013 às 00:54

Uma pergunta à prof. de português: há um parecer oficial encomendado e pela Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário que condena em termos enérgicos o acordo ortográfico.
A senhora sabe em que estudos posteriores se estribou a ministra alçada para ignorar esse parecer e impor o acordês de uma forma material e formalmente ilegal aos seus alunos?
Ou não sabe e isso - que é, também, um atentado ao estado de direito, sem o qual não há democracia - não lhe faz, também, impressão nenhuma?
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De Miguel a 13.07.2013 às 10:26

Cara Linda,

Com todo o respeito, mas para uma professora a sua capacidade de interpretação textual deixa muito a desejar. Pois uma pessoa que escreveu isto -

"O acordo? As editoras? Os cronistas? Quem são? Os críticos literários? Quem são? Serão assim tão importantes que nos impeçam de ler e de gostar de ler? Não me parece. Por fim, mas igualmente importante, tenho outro lamento, outra tristeza: por que não leem os portuguese os seus autores? Será por se sentirem incomodados por o chapeuzinho de leem, ter desaparecido? Não me parece. Será mais fino e sinónimo de "ser-se culto"ler os autores estrangeiros?"

- claramente não percebeu o que leva certos leitores a boicotar autores e editoras portugueses. Não, não tem nada que ver em fingir ser-se culto - se bem que uma pessoa que tenha gosto pela literatura do mundo forçosamente sê-lo-á mais do que o neófobo que se fica pela literatura doméstica - tem que ver com desobediência civil. Compreendo que, visto que não tem grande estima pela literatura estrangeira, talvez desconheça o conceito, formulado pelo Americano Henry David Thoreau. A Linda claramente não tem personalidade para ser uma objectora de consciência. É lamentável, mas deixe estar, também é muito português, por isso ao menos é coerente: é de esperar que uma pessoa que só lê livros nacionais desenvolva o temperamento nacional - resignada, servil, complacente, alienada das grandes questões, preferindo deixar as decisões nas mãos de uma minoria porque ainda não se conformou a viver numa democracia em que o povo é chamado a decidir o seu destino.
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De linda cristina david a 14.07.2013 às 15:30

Não percebo o alcance da sua crítica, nem dos seus insultos. Se sou culta ou não, isso é problema meu. Não me parece que seja da sua conta. Fala de boicotes de leitores e eu, pelos vistos e de acordo com as suas palavras, devo ser pouco inteligente ( para utilizar um eufemismo cultural e intelectual, a seu gosto), não sei a que boicote se refere. Não pertenço ao mundo editorial, não escrevo, não publico, não vendo livros. Apenas os compro e leio, e leio muito e desde sempre. Leio autores portugueses e autores estrangeiros, há muito, muito tempo. Eu não pretendia ofender ninguém nem incomodar quem quer que fosse, dei a minha opinião sobre aquilo que eu considero ser a desatenção, grande desatenção aos autores portugueses e afirmei e afirmo que muita dessa desatenção se deve ao «tratamento» que a crítica dá a muitos dos nossos -bons - autores. Não sei a sua idade, nem sei há quanto tempo lê. Eu tenho cinquenta e quatro anos e comecei a ler há cinquenta anos, sempre li. Não percebo a que se refere quando me chama"alienada" e "servil", nem percebo o que o leva a fazê-lo. Insultar-me? Insultar a minha defesa e gosto pelos autores portugueses ou de língua oficial portuguesa, não percebi. O senhor pode ser um democrata muito culto, muito intelectual, muito participante e atento à res publica, mas deixe-me dizer-lhe que de gentil, educado tem muito pouco. Lamento. Deixe-me acrescentar que o mundo não tem a dimensão do seu quintal, nunca teve, mesmo que o senhor não tenha quintal. O mundo é um pouco maior. Já agora, quanto à minha capacidade de interpretação, enquanto professora de Português, "deixar muito a desejar", não me parece que tenha capacidade e os meios para o julgar. Não conhece o meu trabalho, nunca foi meu aluno, mas se fizer questão, pode perguntar a quem foi, a quem comigo trabalha, pergunte a quem quiser. Se precisar dou-lhe explicações, está interessado?

Passe muito bem e continue a ler.
Ler ajuda a compreender o mundo e a respeitar o próximo.

Sobre este assunto não voltarei a pronunciar-me, nem responderei a mais nenhum comentário seu. Tenho o direito de o fazer, vivemos em democracia, certo?
Quanto a isso estamos de acordo!
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De Miguel a 15.07.2013 às 01:13

Cara Linda,

Vamos por partes:

"Não percebo o alcance da sua crítica, nem dos seus insultos."

- Se não percebe, temo então que não estava completamente errado quando observei que a sua capacidade de interpretação textual deixava algo a desejar.

"Se sou culta ou não, isso é problema meu. Não me parece que seja da sua conta."

- Se é realmente uma professora, é da minha conta, sim. Quer dizer que ensina crianças, e se for inculta, quem pode garantir que está a ensiná-los bem? E a não ser que seja professora numa instituição privada, então é paga com os meus impostos, e eu não ando a pagar a professores para serem incultos. Uma professora que até coloca a possibilidade que possa ser inculta é uma aberração! Devia mostrar mais brio pela sua profissão.

"Fala de boicotes de leitores e eu, pelos vistos e de acordo com as suas palavras, devo ser pouco inteligente ( para utilizar um eufemismo cultural e intelectual, a seu gosto), não sei a que boicote se refere. Não pertenço ao mundo editorial, não escrevo, não publico, não vendo livros. Apenas os compro e leio, e leio muito e desde sempre. Leio autores portugueses e autores estrangeiros, há muito, muito tempo."

- Bem, para evitar prolongar o triste espectáculo das suas capacidades, o boicote em questão, como ficou bem claro, é contra livros que usem a grafia do AO. Era apenas disso que aqui estávamos a tratar, até a Linda trazer o ridículo argumento de que estamos a descurar escritores portugueses para parecermos mais cultos lendo apenas estrangeiros. Compreenda , se conseguir: estamos apenas a falar de boicotar livros escritos com o AO; é uma forma de protesto, de desobediência civil, de marcar uma posição contra um comportamento que julgamos pouco ético, da mesma forma que protestaríamos contra uma empresa que anda a poluir rios ou um banco que anda a desfalcar clientes.

"Eu não pretendia ofender ninguém nem incomodar quem quer que fosse..."

- Pois, esse é o grande mal dos portugueses, nunca querem ofender nem incomodar...

"... dei a minha opinião sobre aquilo que eu considero ser a desatenção, grande desatenção aos autores portugueses e afirmei e afirmo que muita dessa desatenção se deve ao «tratamento» que a crítica dá a muitos dos nossos -bons - autores.

- Bolas, Linda!, o que é que isso tem a ver com a questão deste tópico? Ninguém estava a discutir a atenção ou negligência dada a escritores portugueses. É como se estivéssemos a falar de cinema italiano e alguém se lembrasse de dizer que estávamos a ignorar o iraniano.

"Não sei a sua idade, nem sei há quanto tempo lê. Eu tenho cinquenta e quatro anos e comecei a ler há cinquenta anos, sempre li."

- Tenho 28 e leio desde os 6. Agora estamos em pé de igualdade.

"Não percebo a que se refere quando me chama"alienada" e "servil", nem percebo o que o leva a fazê-lo. Insultar-me? Insultar a minha defesa e gosto pelos autores portugueses ou de língua oficial portuguesa, não percebi."

- Claramente não percebeu também que estamos a pôr em causa que o AO seja a "língua oficial portuguesa."

"O senhor pode ser um democrata muito culto, muito intelectual, muito participante e atento à res publica, mas deixe-me dizer-lhe que de gentil, educado tem muito pouco. Lamento."

- Lamentos, lamúrias? Isto não é uma aula de Ultra-Romantismo.

"Deixe-me acrescentar que o mundo não tem a dimensão do seu quintal, nunca teve, mesmo que o senhor não tenha quintal."

- De facto, não tenho, mas como sou bom a interpretar textos, não obstante compreendi a metáfora. Acho-a banal e oca, se quer a minha opinião.

TO BE CONTINUED...
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De Miguel a 15.07.2013 às 01:55

Parte II

"O mundo é um pouco maior."

Certamente maior do que esta República da Ilusitânia . Há por exemplo os EUA, que não tem uma língua oficial, e o RU , que não precisa de revisões ortográficas para manter o inglês como a língua franca. Para eles a ideia de que um bando de políticos possa legislar sobre a língua é grotesca e absurda. Os ingleses começariam logo a gritar newspeak! Newspeak! Newspeak!"

"Já agora, quanto à minha capacidade de interpretação, enquanto professora de Português, "deixar muito a desejar", não me parece que tenha capacidade e os meios para o julgar. Não conhece o meu trabalho, nunca foi meu aluno, mas se fizer questão, pode perguntar a quem foi, a quem comigo trabalha, pergunte a quem quiser."

- Conheço as suas palavras aqui, isso dá-me uma boa ideia. Sei que sofre do que os ingleses chamam de schizothemia ,' o hábito de interromper diálogos introduzindo tópicos novos, como iniciar uma diatribe sobre a negligência dos autores portugueses quando estamos a falar de boicotar livros que adoptaram o AO. (A propósito, já que se apresentou como professora de português, cabe-me apresentar-me como um licenciado em Estudos Ingleses.)

"Se precisar dou-lhe explicações, está interessado?"

- Ah, Linda, obrigado, mas eu sou um escritor com um livro publicado. Acredito que me safo sozinho.

"Passe muito bem e continue a ler."

- Fá-lo-ei, com ou sem o seu beneplácito. Caso esteja curiosa, comecei a ler a tradução inglesa do Satantango ,' do húngaro László Krasznahorkai , ainda não disponível em português.

"Ler ajuda a compreender o mundo e a respeitar o próximo."

- Bem, sim, se passar a vida toda a ler só O Principezinho ou a Bíblia. Já eu também gosto de ler Leonardo Sciascia , Dario Fo , Vaclav Havel , José Saramago, George Orwell , Pepetela, Mario Vargas LLosa , Imre Kertész , escritores corajosos e combativos, sem medo de sofrer pelas suas convicções, que expõem injustiças e levam os seus leitores a reflectir sobre as dinâmicas do poder no nosso mundo. Escritores que convidam os leitores a pensar pelas próprias cabeças de forma a que não deixem que os outros façam deles gato sapato. A Linda, pelo contrário, parece preferir seguir à regra tudo o que tem cunho oficial, sem pensar se é certo ou não. Tremo só de pensar que seja essa a mentalidade que traz para a sala de aulas e que transmite aos seus alunos.

"Sobre este assunto não voltarei a pronunciar-me, nem responderei a mais nenhum comentário seu."

- Claro que vai, porque as minhas respostas vão incomodá-la, e vai querer ter a última palavra.

"Tenho o direito de o fazer, vivemos em democracia, certo? Quanto a isso estamos de acordo!"

Não, não estamos. Se vivêssemos em democracia, a vontade da maioria que repudia o AO já teria sido ouvida e respeitada. Se vivêssemos em democracia, os meios de comunicação não estariam a tentar normalizar a sua implementação à revelia da vontade do povo, nem estaria sempre a silenciar a oposição ao AO. A Linda sabia que um ministro ameaçou a Academia das Ciências de Lisboa com extinção se esta não apoiasse o AO? Compreende a gravidade disto? Cientistas, homens e mulheres que deveriam pautar-se por autonomia intelectual, foram intimidados e coagidos por um representante do governo português, e essa notícia nem passou nos grandes meios de comunicação:

http:/ delitodeopiniao.blogs.sapo.pt /5328950.html

Tendo em conta que nasceu e fez os primeiros estudos no Estado Novo, compreendo que a sua definição de democracia seja algo, digamos, retorcida, mas eu não dou um tostão pela democracia que temos hoje em dia.
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De Nuno Ferreira a 25.07.2013 às 10:31

Se fossem apenas os livros...
Eu deixei de ir ao cinema por causa das legendas com o aborto ortográfico.
Deixei de comprar revistas e jornais com o aborto ortográfico.
Há canais de TV que já não vejo por causa do aborto ortográfico.
Etc.
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De José António Abreu a 25.07.2013 às 11:17

Certo. No que me diz respeito, ao cinema já não ia muito, agora pura e simplesmente não vou. Na TV, por falta de opção, acabo por me resignar às legendas em 'acordês'. Jornais e revistas só compro o Público de vez em quando e a Sábado com alguma regularidade - até ao momento em que adoptem.

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