Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A irrelevância da imprensa tradicional

por João Campos, em 01.05.13

Este meu post começou por ser um comentário a este pertinente artigo da Patrícia (ou melhor, um comentário a um comentário), mas quando a coisa se tornou numa parede de texto decidi colocá-lo antes aqui. Até porque o tema merece alguma atenção (e não tenho escrito tanto aqui como gostaria).

 

A imprensa vive numa pescadinha de rabo na boca há largos anos, ainda antes de a crise crise rebentar à sua volta. Já quando estudava Jornalismo na primeira metade da última década se falava das tiragens em queda, da qualidade a esboroar-se, da crescente superficialidade dos artigos, de modelos online desfasados da realidade. A crise, como é evidente, veio acenturar tudo isto; mas há muito tempo que a imprensa publicada (leia-se em papel) tem vindo a alienar os seus potenciais leitores. São páginas e páginas de intriga política e de economia - temas muito importantes, sem dúvida, mas que não deviam deixar outros sem espaço. Pois o que sobra é dividido com sociedade e com as páginas desportivas de futebol. Para o resto, migalhas. 

 

E isto, parecendo que não, é importante. Diz a Patrícia, em resposta ao Pedro, que "o drama é que os mais novos não compram e o que lêem está on-line e tomam como bom e não questionam. Não tem por hábito ler os cronistas ou as grandes entrevistas (ainda se fazem?) ou o jornalismo de investigação (eis uma espécie em extinção!)." O jornalismo de investigação está mesmo em vias de extinção; quanto aos mais novos - e creio que os meus 27 anos me permitem ainda fazer parte do grupo -, diria que não compram jornais e revistas porque estes meios há muito que deixaram de trazer algo que lhes interesse. Exceptuando casos muito pontuais, para os jovens comprar um jornal ou uma revista é deitar dinheiro à rua, algo que se torna mais grave quando este está longe de ser abundante. A espuma dos dias pode ser lida na Internet (e se há coisa que os mais novos têm é ligação à Internet), de forma gratuita, tanto nas páginas online dos jornais como nos blogues de opinião - com a vantagem, neste último caso, de o alinhamento dos blogues ser quase sempre evidente. E se vamos procurar temas mais específicos, um leitor fica muito mais bem servido na Internet, pois a diversidade e a qualidade oferecida é incomparavelmente superior. 

 

Falando por mim: se quiser ler algo relacionado com os meus interesses, a imprensa portuguesa pura e simplesmente não serve. Bons artigos de literatura fantástica? Coisa raríssima - se os quiser ler, ou recorro a fanzines nacionais mais ou menos regulares, a revistas estrangeirasa ou a blogues e portais online. No dia em que uma revista portuguesa tocar no tema com um mínimo de profundidade (como fez a "The New Yorker" em Junho do ano passado, com um número excepcional todo ele dedicado à ficção científica; tenho o exemplar da revista aqui ao lado), irei ao santuário de Fátima. O mesmo poderia dizer de artigos científicos - a imprensa portuguesa publica poucos, pouco rigorosos e pouco desenvolvidos; as páginas de ciência que ainda resistem nos jornais portugueses são, regra geral, de bradar aos céus, e qualquer blogue geek consegue ser mais rigoroso a escrever melhor. Se eu quiser ler artigos de tecnologia, a alternativa é a mesma - as páginas ou secções de tecnologia desapareceram dos jornais, e as redacções hoje em dia nem entendem a importância do tema. Videjogos? Aqui a coisa vira comédia, com os jornais a referirem o formato apenas na sequência de algum atentado, servindo os videojogos - erradamente, mas não adianta insistir - de bode expiatório. Cinema? Com a honrosa excepção do Jorge Mourinha do Público, todos os outros críticos de cinema dos jornais portugueses parecem iguais - e, pior, desinteressantes.

 

O mais grave é que provavelmente não andarei longe da verdade se disser o mesmo de muitos outros potenciais leitores e dos seus interesses. Quem quiser ler mais do que política e economia - quem quiser ler sobre cinema, televisão ou moda, fica bem servido na imprensa portuguesa? Duvido. 

Autoria e outros dados (tags, etc)


15 comentários

Sem imagem de perfil

De Luis Eme a 01.05.2013 às 21:46

a coisa está de facto pouco animadora.

até os vendedores estão mais interessados em vender raspadinhas que jornais (o que esperei hoje para comprar o jornal...)
Imagem de perfil

De João Campos a 02.05.2013 às 00:07

De facto, deve ser mais rentável.
Sem imagem de perfil

De atento a 01.05.2013 às 23:42

não se estará a alimentar isso ao escrever, por exemplo, neste blog !
Imagem de perfil

De João Campos a 02.05.2013 às 00:07

Não vejo como.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 02.05.2013 às 02:00

A partir do momento em que os jornais ganharam importância política, começaram a alimentar-se e a alimentar a política.

A maioria dos jornais pouco estão interessados em apresentar notícias, estão mais interessados em manter uma audiência, que podem influenciar com finalidades políticas.
Essa é a lógica que tem prevalecido, e por isso é conveniente a patrões manterem jornais, mesmo que vendam pouco, porque lhes dá um espaço de influência política.

As notícias aparecem muitas vezes como copy/paste de agências, já vêm formatadas, e os jornalistas nem arriscam alterar. Sobra pouca margem de manobra, sem ser as habituais tricas cortesãs do diz-que-disse.

O Correio da Manhã até se justificava ter alguma audiência suplementar, porque ia buscar notícias da "mulher que matou o marido", etc...
Essas notícias mundanas, normalmente banidas do jornais respeitáveis, pelo menos ainda traziam o leitor a uma realidade que não era uma pura ficção da narrativa política.

No dia em que os jornais voltarem à realidade, e deixarem de viver da ficção política que os alimenta, e com a qual procuram alimentar a opinião pública, talvez voltem às notícias. Até lá, mais vale ver o resumo na TV... que basicamente se faz do que foi ou será escrito nos jornais.

Para a parte de opinião, não adianta muito ler opiniões cortesãs, destinadas ao joguinho cortesão:
- "ai que eu te vou desfazer na minha crónica", "vou mostrar que os topei na minha coluna", etc...
Sob esse aspecto, os blogs "ainda" são um espaço com maior liberdade de opinião, ficando fora de algumas condicionantes editoriais.

Efectivamente, o que foi deixando de haver foram órgãos informativos, dedicados exclusivamente a notícias não patrocinadas.
Imagem de perfil

De João Campos a 02.05.2013 às 02:19

Excelente comentário, caro da Maia. Um resumo perfeito.
Imagem de perfil

De Bernardo Hourmat a 02.05.2013 às 09:24

De facto, revi-me bastante na situação que o João descreve na medida em que os interesses são muito (mesmo muito) semelhantes, provavelmente por conta da idade ser a mesma :)
Mesmo assim, de vez em quando lá compro o jornal, regra geral o Público ou o i, mas acho que mais por uma réstea de saudosismo em realmente folhear o jornal no lugar de clickar nas diferentes secções, na edição online.
Os conteúdos são, de facto pobres (tanto online como offline) e, mesmo se quero ler alguma coisa de "política", como diz o João, confesso que não encontro grande coisa. Sim, a nossa politiquice está lá de facto. Mas se vamos, por exemplo até à área internacional...Meh. Aí prefiro dar um salto até à Foreign Policy ou o International Herald Tribune e fico melhor servido.
Mesmo em termos de opinião, a coisa é confrangedora. Existem alguns bons cronistas mas no geral, mais uma vez, meh. Ainda gostava de saber exactamente o propósito do Sr. Paulo Malo ter uma "coluna" no i, atendendo à qualidade daquilo que escreve.
Não acho que o que está online seja necessariamente pior do que está escrito. A ideia de que "os jovens tomam por garantido o que está online e não questionam" não se aplica também à imprensa? Exactamente o que é que valida mais uma coisa e outra?
Enfim, são apenas algumas ideias soltas para uma discussão interessante.
Imagem de perfil

De João Campos a 03.05.2013 às 01:21

"Mesmo em termos de opinião, a coisa é confrangedora. Existem alguns bons cronistas mas no geral, mais uma vez, meh. Ainda gostava de saber exactamente o propósito do Sr. Paulo Malo ter uma "coluna" no i, atendendo à qualidade daquilo que escreve."

Se fosse só esse. O Expresso, na sua edição online, tem uns quantos "bloggers" de qualidade confrangedora.
Sem imagem de perfil

De Vacinado a 02.05.2013 às 09:31

Uma pessoa acede à página online do DN e depara com este inquérito (sic): Benfica vai passar à final da Liga Europa? º Sim º Não.

Claro que se fica logo com vontade de o comprar...
Imagem de perfil

De João Campos a 03.05.2013 às 01:21

Então não... (e eu sou benfiquista)
Sem imagem de perfil

De ze luis a 02.05.2013 às 23:42

Não sei que tiragens conheceu em meados da década passada nos seus estudos e se percebia, então, se estavam para cair a pique como vieram a cair.
Que perspectivas apontava?
Como justificava essa queda que começava a ser persistente?
Fala em textos curtos, sem contexto, simples - foi motivo de estudo no seu curso?
Como acha que se chegou a isso? Foram gurus que apontaram esse caminho? Conheceu exemplos disso, do encurtar dos textos sob o pretexto de textos longos não serem lidos pelo grande público?
Essa reflexão é que gostaria de ler. E eu acompanhei de perto essa redução dos textos e o apelo básico a trivialidades. Em nome de um público que uns chico.-espertos assomados a cargos editoriais propagandearam. Este é o resultado.
Ainda agora mesmo li os resultados APCT do bimestre de 2013. Desastroso. Vejo ali um jornal cuja Direcção se vangloriou dos 10 anos à frente do mesmo. É o Record. Em 2003, quando entraram, vendia 92 mil, em 2012 ficou nos 52 mil. O bimestre de 2013 aponta 46 mil. O plano inclinado é irreversível e é esta realidade que deve ser descrita.
Pode-se enganar poucos por muito tempo, pode-se enganar muitos por pouco tempo, mas não se pode enganar todos o tempo todo. As administrações, mais exacto: os patrões, perdem dinheiro porque gostam. O Belmiro falou de 3ME anuais que o Público lhe custa. Dá para acreditar?
Imagem de perfil

De João Campos a 03.05.2013 às 01:32

Os cursos continuam a ser idealistas, meu caro. No meu tempo, continuamos a fazer jornalismo de investigação, grandes entrevistas, tudo e mais alguma coisa. O que foi excelente - fiz alguns trabalhos dos quais ainda hoje me orgulho. Infelizmente não me preparou minimamente para o meu primeiro dia numa redacção (que ainda assim correu muito bem).

Causas? É uma boa pergunta. Por alto, diria que o online representou um papel importante. Nenhum meio jornalístico em Portugal percebeu o que aí vinha. Olhando para trás, é hilariante reler os disparates que foram ditos sobre blogues e bloggers, e reparar que hoje em dia uma parte muito significativa da opinião publicada é produzida por malta que começou... na bloga. Menos dinheiro, por um mercado publicitário em quebra lenta mas progressiva - o que implicou menos editores, mais jornalistas inexperientes e menos "veteranos" com tempo disponível para os orientar. Mas há aqui no Delito quem possa falar dessa realidade bem melhor que eu.

Quanto aos 3M anuais do Público, dá para acreditar.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 03.05.2013 às 00:06

Não precisamos de ir muito longe. Basta comparar com os jornais de referência espanhóis e nota-se a diferença na qualidade da informação. Mesmo insistindo em temas de economia e política, os conteúdos são em regra mais variados e dão ao leitor memória e análise bem fundamentada, que é exactamente o que falta à imprensa portuguesa.
Imagem de perfil

De João Campos a 03.05.2013 às 01:35

Por acaso foi um dos exercícios mais interessantes que fiz durante o curso: uma análise comparativa de imprensa portuguesa e estrangeira. No meu caso, tive de me contentar com a imprensa desportiva (já que - juro! - não consegui arranjar em tempo útil um exemplar do "The New York Times" em Lisboa, e todos os outros títulos principais já estavam escolhidos por outros colegas). Mas no geral chegámos a duas conclusões muito interessantes: 1) os jornais de referência estrangeiros são melhores que os portugueses, e os tablóides estrangeiros são bem mais atrevidos. O "The Sun" fazia o "Correio da Manhã" parecer uma referência.
Sem imagem de perfil

De ze luis a 03.05.2013 às 15:08

Causas? Pois, uma delas foi o dispersar de editores e o dispensar dos veteranos. Malta inexperiente há sempre cada vez que alguém experimenta uma Redacção. Disse isso aos primeiros alunos da Licenciatura em Jornalismo, muito no início dos anos 90. Nada troca a experiência do dia a dia numa Redacção. Havia gente, hoje há "ganapada" sem "entorno". Há uns capatazes nos jornais e uns patrões que comodamente caminham para a falência. Não sei com o o Belmiro aguenta, parece que prazenteiro, os 3M anuais de prejuízo. Eu não entendo, até porque aquilo tem piorado e, como o resto, é irreversível a perda de qualidade, quando não, até, o jeito...
Mas das muitas coisas que nunca entendi, entre mitos que uns experts puseram a circular, foi a necessidade de redução dos textos ao mais básico e incompleto. Quer dizer, percebi que lhe chamavam, não jornalismo, mas "roupagem", um produto embrulhado esteticamente. Predominou em casos o design da página ao conteúdo. Isto é verídico e os resultados traduzem essa tendência de redução...
Alguns desses responsáveis editoriais pululam hoje muito na Informação televisiva. Com o vácuo inerente!

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D