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À última da hora

por Ana Vidal, em 29.04.13

 

Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele foram, em tempos, de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido (era egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas só perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não era o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque era um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder. Lembro-me bem de assistir a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.

 

A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa "injustiça", nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remoeu o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estavam mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a vida familiar foi cruelmente atravessada por uma tragédia arrasadora. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esse terrível acontecimento. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume começou a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.

 

Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o um dia, por acaso, na Bertrand do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.

 

E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E és tu uma pessoa que vive da escrita?! Francamente, menina!!”.

 

Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tinha sempre de dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, às vezes também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar, saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo de me ir embora.”

 

Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”...


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