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Memórias do meu país(1)

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 19.05.09

"O Continentes"

 

 

 

Já alguém lhe chamou “O Continentes”, numa alusão ao cosmopolitismo e diversidade de etnias ali presentes
Quando lá entrávamos depressa esquecíamos a abominável  estética exterior e o nome: Centro Comercial da Mouraria. Como num passe de mágica, abandonávamos Lisboa e aterrávamos a milhares de quilómetros de distância. Os odores e sons standardizados da baixa lisboeta, tão próprios de qualquer capital europeia, eram substituídos por aromas e sons de outros continentes: especiarias, incenso, cheiros fortes e estranhos - por vezes violentos para narizes mais afeitos a perfumes afrancesados - associavam-se aos  sons de pedras de mah–jong espraiando-se sobre as mesas, ou a linguarejares  incompreensíveis, de proveniências variadas. Decibéis competiam à desgarrada, debitando notas musicais vocalizadas, evadindo-se livremente de uma parafernália de fontes sonoras.
Ao contrário do que acontece em espaços  comerciais similares, ali não éramos conduzidos por estreitas ruelas e recantos, obedecendo às  regras do marketing. A variedade e o exotismo do ambiente convidavam  a uma visita em liberdade. E  assim íamos desbravando os espaços que o edifício albergava.
Em plena liberdade, íamos descobrindo mercearias africanas e indianas. Discotecas e cabeleireiros africanos. Lojas de roupas e bijutarias chinesas. 
Das lojas de roupa chinesas saíam vendedores ambulantes, transportando grandes sacos de plástico negros. Lá dentro, camisas Ralph Lauren e malhas Burberrys genuinamente falsas conviviam numa orgia de capitalismo contrafeito, ao dispor de bolsas pouco recheadas, alimentando a ilusão de que a igualdade se alcança pelo consumo das mesmas marcas
Quando chegava a hora do almoço, o Centro Comercial Mouraria animava-se ainda mais. Entre as diversas  ofertas, era possível optar pelos sabores africanos do “Dois Irmãos”, especialista em comida de Angola e da República Democrática do Congo, onde a ementa anunciava «fumbua» (um prato à base de moamba, cebola e óleo de palma), «pondu», com folha de mandioca, «muteta» ou «funji», ao preço de 5€.

Havia dois restaurantes chineses, muito diferentes daqueles a que estamos habituados. Aos tradicionais crepes, “chau-min” e “chop-soy”, adaptados ao gosto ocidental, somavam-se outros pratos de peixe, carne e legumes,  desconhecidos de quem nunca visitou o Oriente.

  

 

 

Se o apetite apelava aos paladares indianos, a melhor opção era o  “Faltas Tu”. Os seus proprietários, oriundos do Bangladesh, serviam caril de frango, de cabrito e vegetariano, camarão frito e “biriani” (arroz com carne e vegetais). Antes de atacar o prato principal, podíamos provar as saborosas chamuças, que nada têm a ver com os sucedâneos gordurosos que aparecem à venda em algumas pastelarias. No final, para adoçar o paladar, recomendavam-se bolinhos indianos, como os “lado”  feitos com manteiga e farinha de grão, ou os “dudh-penda”, com leite condensado. Para os acompanhar,  um chá com leite e especiarias.
Ainda há pouco tempo era possível descer à cave e abancar na esplanada da pequena praça central para tomar uma bica no café “Ilha de Luanda”, no “Bica-Bica” ou no “Faltas Tu”. A esplanada era um dos pontos privilegiados de observação do movimento do Centro e nas mesas podiam ver-se  jovens orientais emborcando canecas de cerveja, acompanhadas por camarão miúdo. Fumavam cigarros americanos, riam e conversavam, enquanto na mesa ao lado parceiros de meia idade jogavam cartas. De quando em vez , o toque de um telemóvel interrompia a partida, anunciando  negócios no ar.

A umas mesas de distância, na esplanada do “Faltas Tu”, indianos de cabelos brancos deliciavam-se com chamuças e chá com leite, aromatizado com especiarias, de olhos fixos no televisor onde, ininterruptamente, passavam telediscos.
Hoje, aquela esplanada é apenas uma recordação, substituída que foi por lojas de chineses. Pergunto a Lu–Yan, proprietária de uma loja de atoalhados, o que aconteceu aos restaurantes. Olha-me com indiferença e, no seu português apalatado,  explica-me que os restaurantes só criavam confusão. “É melhor assim” - garante. Percebendo a minha decepção, insiste:
“Tem muito restaulante chinês lá fola. Aqui é pala complale, não é pala passeale”. Ou, como diria Guterres: “É a vida!”
Não consigo disfarçar alguma nostalgia pela perda de um espaço ímpar em Lisboa, onde era possível conviver simultaneamente, no mesmo prato, com sabores africanos, indianos e chineses, a preços módicos. Invadido por um sentimento indecifrável, decido  terminar aqui a reportagem. É difícil aceitar a perda súbita de um espaço onde me sentia aconchegado, quando me minavam as saudades do Oriente. Resta a simpatia contagiante de muitos lojistas... Até quando?


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