Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Meu caro 25 de Abril

por Gui Abreu de Lima, em 25.04.13


Naquele último ano em Angola eu tinha feito uma exemplar 1ª classe. Lia todos os reclames da cidade com destreza, contava dinheiro sem dúvidas e inaugurava-me nos caminhos da Liberdade. Vagueava pelas ruas, juntava-me a uns quantos como eu, e a praia Morena era toda nossa. Eu já estava lançada e a minha família habituada, quando vossemecê apareceu todo badalado. Foi vir e ver: só desgraça, só confusão. A bem dizer, tramaste-me a vida. E não foi pouco. Estava tudo muitíssimo bem encaminhado lá em Benguela. Tudo sobre rodas, 25! A minha Liberdade acabou quando a tua começou. Isso não gostei. Não gostei mesmo, ó 25.


Foto: Carlos Pires


43 comentários

Sem imagem de perfil

De Zélia Parreira a 25.04.2013 às 18:25

Se aqui na "metrópole" a vida fosse tão livre como lá em Benguela, o "25" não teria sido necessário. Mas não era. Era bem diferente, só que os que a viveram vão sendo cada vez menos e a memória esvai-se.
Lamento tudo o que lhe sucedeu por causa do "25". Foi injusto, é verdade, tão injusto como a perda desnecessária de vidas numa guerra travada para que a sua liberdade pudesse continuar como se de uma peça de teatro se tratasse. O que se vivia em palco nada tinha a ver com os bastidores.
Lamento tudo o que perdeu e estou solidária com esse sentimento de perda que deve ser avassalador. Tão avassalador como a falta de liberdade do dia 24.
Por isso, obrigada 25!
Sem imagem de perfil

De eduardo a 25.04.2013 às 18:47

Parece que o 25 de abril desagrada a quem convivia bem com o colonialismo e a guerra colonial. Felizmente sao uma minoria.
Sem imagem de perfil

De Cristina Torrão a 25.04.2013 às 19:23

Não esqueçamos que, neste pequeno texto, estamos a ver os acontecimentos sob a perspetiva de uma miúda de 6 ou 7 anos, totalmente despida da sabedoria dos adultos. Eu acho interessante. E, de uma certa maneira, corajoso.
Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 25.04.2013 às 19:42

Ai o politicamente correcto...
Sem imagem de perfil

De eduardo a 25.04.2013 às 21:33

Quem escreve não e uma menina de 6 anos e sim uma cidadã adulta que devia saber melhor o que representava o colonialismo.

Para a proxima vez, para nao cair no politicamento correcto vou defender o incesto, o racismo e o genocidio. Assim ja terei o respeito dos rebeldes politicamente incorrectos?

E um post que revela um ressabiamento execravel. E a minha opiniao - algo que posso defender livremente gracas ao 25A
Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 26.04.2013 às 09:12

Respondo só para que não se diga que não li. De resto, não merece resposta.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 26.04.2013 às 16:39

Não é só o politicamente correcto. É a lamentável incapacidade de ler para além do literal, e a ainda maior incapacidade de situar um texto no tempo e no espaço. Enfim, cada um vai até onde pode.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.04.2013 às 01:14

Caro Eduardo,
conheço bem a história do colonialismo, da guerra e das aspirações de muitas de suas gentes, em Portugal e em Angola. "Descolonizar" para gerar o que se gerou foi crime: houve sangue, muito sangue depois da "descolonização" que não pode ser esquecido. Mas também houve um roubo: a vida e o futuro de toda uma gente que construiu suas raízes na terra que os viu nascer e acolheu, e que ali investiu seu esforço, dos muitos que morreram (sem esquecer os desgraçados que vestiram as fardas e lá tombaram).
Apoiar a descolonização, sim, mas não o que foi feito. Se me disserem que foi o que melhor se pôde fazer, então digo que muito pouco tinham para dar os que a fizeram nesses moldes.
Quem não convivia bem com o colonialismo era a maioria dos que lá estavam (brancos, negros e mestiços). Por exemplo, não se esqueça que Angola foi o único sítio onde se registou, sem manipulações, a vitória do General sem medo (Humberto Delgado), foi lá que Venâncio Deslandes teve um sonho: uma Angola multicolor. Na realidade quem lá viveu e nasceu não convivia bem com o colonialismo metropolitano que cerceou, tanto quanto lhe foi possível, a capacidade de desenvolvimento naquela terra (incluindo a abertura de Universidades, que se realizou muito mais tarde, e também do desenvolvimento da TV, que ocorreu em 73/74, e dinheiro não faltava), para poder entregar uns nacos a umas quantas famílias estabelecidas na metrópole. Não obstante, 80% do funcionalismo público em Angola era constituído por negros e mestiços, o grande suporte da nação angolana pós "independência".
O 25 de Abril, que muito me apraz, ainda voltará a ser re-escrito. Da miséria então existente deu-se origem aos miseráveis que hoje conhecemos. Venha outro "25".
O projecto dos irmãos Pinto de Andrade era outro completamente diferente da forma como aconteceu.

Aos irmãos africanos, aos de todas as raças, que não puderam, e não podem, crescer e viver na dignidade e grandeza daquela terra o meu sincero lamento e a minha solidariedade. Aos meus/nossos avós (brancos, negros e mestiços), bisavós e trisavós, que deram o corpo e alma pela grandeza de África e de Portugal, o meu sincero lamento pelas traições sofridas e pela pequenês a que foram votadas ambas as nações.
Politicamente correcto? O quê? Dizer o contrário da verdade?

À minh@ agridoce Lima deixo-lhe aqui NGASSAKIDILA ANGOLA:

http://www.youtube.com/watch?v=kiNparbi_Eg
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 25.04.2013 às 19:47

Quando aconteceu o 25 de Abril eu tinha 23 anos, e esperei por ele toda a vida.
Nessa época eu estava em Angola, na tropa, e fiquei à espera que os três Ds prometidos aos portugueses que viviam cá , Democracia, Desenvolvimento e Descolonização, fossem extensivos aos portugueses que viviam lá, pretos, brancos ou mulatos. Mas para além do D da descolonização, mais nenhum estava previsto; o que estava previsto era as Guis e as respectivas familias abandonarem tudo com a roupa que tinham no corpo para não as matarem, porque o MFA que por cá andava entretido a fazer uma revolução e a destruir o país de mão dada com o PCP, se esqueceu delas, ou melhor as traíu para entregar aquelas terras à União Soviética, e de caminho deixar Angola e Moçambique mergulhadas em guerras civis que custaram muitos milhões de mortos.
Eu saí de Angola em meados de 1975, e tive oportunidade de ver o que as tropas portuguesas que para lá foram depois do 25/4 imbuídas do espírito do MFA fizeram: foram humilhadas e achincalhadas e não mexeram uma palha para proteger as vidas e os haveres de quem lá vivia. Entretanto as tropas veteranas e com experiência de combate foram rápidamente desmobilizadas e enviadas para a metrópole; no meu caso, porque fui incorporado em Angola, desmobilizaram-me e obrigaram-me a ficar lá.
Para se viver em Democracia em Portugal, não era necessário obrigar quase um milhão de pessoas a abandonar tudo e virem viver para uma terra que muitos nem sequer conheciam, com uma mão à frente e outra atrás.
A memória esvai-se, mas não a minha: 39 anos depois, continua bem viva no meu espírito a ignomínia que foi o processo da descolonização das colónias portuguesas a que assisti ao vivo e a cores!
Sem imagem de perfil

De William Wallace a 26.04.2013 às 02:07

Sou filho de um ex-combatente da Guerra incorporado em Moçambique , foi para lá em 64 através da celebre carta de chamada (de um irmão) que lhe permitiu ir pois o futuro na Beira não era risonho.
O meu Pai saiu de Portugal com 14 anos e foi ganhar a vida para o meio do mato onde só se via um branco de longe em longe e depois quando chegou a idade teve de fazer tropa , 2 anos. Do que conta era que vivia bem , Ninguém passava fome , havia trabalho e abundância , hoje eu não sei como será mas os últimos relatos de Moçambique não são bons.
Sem dúvida o 25 de Abril foi algo que permitiu a muitos melhorar economicamente , educar-se e mais que tudo deu-nos a Liberdade de podermos escolher como e por quem queremos embora nesse aspecto ainda haja longo caminho a percorrer como se vê todos os dias.
A descolonização atamancada resultou em parte da decrepitude do regime anterior não ter sabido interpretar os sinais dos tempos mas se foi madrasta para 1 milhão de Portugueses também o foi para milhões de Angolanos , Moçambicanos , Guineenses , Timorenses , Cabo-Verdianos e São Tomenses .
A outra parte foi a habitual rede de interesses instalados que nestas situações lucram com a desgraça alheia.
O 25 de Abril foi Muito Bom a descolonização como foi feita foi muito má para os que foram obrigados a regressar sem nada , mas mesmo muito má para os Povos dos novos Países que se vêem ainda hoje oprimidos por oligarquias.
A história é escrita pelos vencedores ainda que a da descolonização seja a de derrotas por isso meu caro compreendo-o perfeitamente e não serei de certeza o único mas temos de pensar no futuro e não iremos lá se continuarmos a valorizar o que nos separa e não o que nos une.
Haja esperança !
Sem imagem de perfil

De Indignado a 25.04.2013 às 19:51

Que nojo! Eu conheço uns meninos nas CERCI bem mais inteligentes
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 25.04.2013 às 19:53

Com o devido respeito: vá prá puta que o pariu, seu indignado de merda!
Sem imagem de perfil

De Indignado a 25.04.2013 às 22:19

Não posso ir, porque não conheço a sua mãezinha
Sem imagem de perfil

De ilda pontes a 25.04.2013 às 20:47

Ai Gui que me apetece bater-lhe... leio-a sempre com tanto entusiasmo! Mas acho que a compreendo.
Hoje sinto-me irrequieta, o 25A é muito importante para mim, embora sinta ruir esperanças construídas duramente durante anos e anos ...Se olharmos para trás, atravessamos crises com mais de 80 anos, recordei isto mesmo hoje, com um colega, fomos buscar 1929, 1974 e a actualidade...Falamos de Kluge, que é difícil, mas apaixonante!, muito mais quando se insere numa teia tão densa de produtores culturais que atravessam quase um século...como disse o José. Então eu recordei Gorki, não passo um 25 de Abril sem o (re) ler,
" Somos todos filhos de uma só mãe, de um mesmo pensamento invencível: o da fraternidade entre os trabalhadores de todos os países. Este sentimento de fraternidade é para nós um conforto, é um sol a brilhar no céu da justiça, e este céu está no coração do operário; que lhe chame cada um o que quiser, o socialista é nosso irmão em espírito, agora e sempre por todos os séculos dos séculos." Máximo Gorki, A Mãe.
Dá-me alegria, sinto fé, Esperança ao ler estas palavras! Mas o meu coração é tonto... não, não o posso deixar vacilar...os tempos difíceis serão cada vez mais longos e profundos, mas a coragem não pode faltar!
Sabe Gui, a pobreza e a solidão dão-me cabo da minha alma...e a Liberdade... é um "Bem" que não podemos deixar escapar! Eu amo o chão que piso, eu amo Portugal! 25 de Abril, Sempre!
Deixo-lhe um Abraço aconchegadinho para a ajudar a prosseguir... :)
Sem imagem de perfil

De Costa a 25.04.2013 às 22:53

Como se vê, os comentários ao seu "post" (oscilando, com a corajosa e realista excepção de um comentador, entre a pura boçalidade fanatizada e a idealista e submissa adesão a um dogma que o tempo desmascarou), revelam o que você foi: benevolamente, um efeito colateral perfeitamente admissível e como tal a esquecer; revolucionária e justiceiramente, não mais do que o destino devido aos brancos das ex-colónias. Todos, como se sabe, cruéis e insaciáveis exploradores, merecedores do pior castigo.

Nada a fazer...

Costa
Sem imagem de perfil

De Bic Laranja a 26.04.2013 às 01:46

Nada a fazer, é a grande verdade. E o tal esquecimento a que deva ser votada se não confunda com censura nem com coisa do género daquela fotografia do Estaline sem o Trotski.
Cumpts.
Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 26.04.2013 às 09:27

Bem dito.
Independentemente do julgamento da história sobre o o 25 de Abril e a descolonização que se lhe seguiu (e o desencadeou, aliás), ou independentemente do julgamento da história sobre quaisquer sucessos passados, existiram e existirão sempre crianças cuja vida é abalada por coisas que lhes escapam completamente. Negar ao adulto em que se transformam a possibilidade de lhes dar voz independentemente de qualquer juízo e posição ideológica a posteriori, em nome de uma qualquer verdade histórica mais vasta e mais "correcta", é da maior curteza de vistas e de sentimentos.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 26.04.2013 às 16:44

Ora bem, curteza de vistas e de sentimentos é a expressão certa, Isabel. E fanatismo, já agora.
Sem imagem de perfil

De Cristina Torrão a 27.04.2013 às 11:10

Muito bem, Isabel, é mesmo isso.
A família de uma criança é o seu mundo, ou melhor, o seu lar é o centro do mundo, um microcosmos, do qual ela depende para sobreviver. Claro que, ao tornarmo-nos adultos, vemos as coisas com outros olhos e sabemos avaliar melhor as situações. Mas deveremos, nesse caso, calar a criança que fomos? Eu acho que não, acho que devemos manter essa capacidade.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 26.04.2013 às 01:05

Bravô, Gui. Essa terrível História ainda está por fazer, mas o dia há-de chegar. Quando os controleiros da opinião descerem à terra; a investigação sobre a política e as mentalidades de então avançar; os factos ficarem todos a nu; os donos dos diamantes da época passarem a ter nome. E o complexo de esquerda deixar de assombrar as cabeças pensantes. Basta que a tua geração o queira.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 26.04.2013 às 16:47

Não será a dela, Laura, e talvez nem a seguinte. Mas um dia a visão destes acontecimentos será menos cega, mais distanciada e por isso mais justa. A História é sempre feita de versões, claro, mas o tempo encarrega-se de aproximá-las mais.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 26.04.2013 às 22:24

Não, claro: a História precisa de um lapso mínimo de 50 anos para que esteja em condições de ser feita com distanciamento, até por causa do livre acesso aos documentos (este aspecto tem uma importância fulcral). E, ainda que todo o historiador seja 'engagé' (claro que é, pretender o contrário seria ingenuidade) existe uma História científica que fica acima das versões. Quando eu falo do papel da geração a seguir à nossa é porque sei que é muito menos condicionada. E que pode fazer uma prévia, indispensável e simples coisa: começar a querer realmente levantar os véus.
Sem imagem de perfil

De Bic Laranja a 26.04.2013 às 02:24

Os culpados têm nome. Serve de nótula introdutória...

P.429. (...) Tinha saído de Angola em Setembro de 1973. Passara pouco mais de um ano e, por essa altura, viajava-se por toda a parte nesta terra em plena segurança. Havia-se ganho a dupla batalha, batendo o inimigo armado e conquistando a população. Agora, assinara-se o «cessar-fogo» com os três movimentos porque era imperioso fazê-lo, como Mário Soares não se cansava de afirmar, para se proceder à descolonização dentro de princípios que levassem esses territórios a uma e independência justa e em liberdade. Mas estes factos, em Angola, iriam, ironicamente, recomeçar com a guerra e a insegurança. Estávamos, sem dúvida, em condições óptimas para negociar cessar de hostilidades, salvaguardando os interesses e o bem-estar dos angolanos dando-lhes a paz merecida. Não foi assim e o que se passou demonstra bem a inépcia ou ignorância dos nossos negociadores ou a defesa de interesses que não eram os do povo angolano.

P.430/1. UNITA - Por altura do 25 de Abril estava em vias de ser completamente esmagada em consequência de um erro na estratégia militar levada a efeito na área. Savimbi confrontado com um ataque que não esperava nem desejava, aproveitou um maior relaxamento das nossas forças, montou-lhes uma emboscada provocando baixas significativas e deslocou-se para Lusaka onde afirmou estar pronto a negociar o cessar-fogo com Portugal. Não tinha alternativa e Pezarat Correia, não sei com que autoridade, foi ao seu refúgio nas inatas das margens do Lungué-Bungo assinar um cessar-fogo sem qualquer cláusula especial. O movimento de Savimbi ignorado por África e pelo mundo, graças à destreza de Pezarat Correia acabava de ser reconhecido oficialmente por Portugal - uma vitória do então Major Pezarat Correia.

FNLA - Sentindo que estava a perder a batalha de Luanda e não tendo conseguido reforçar a região dos Dembos donde poderia, mais facilmente, apoiar a luta na capital, só tem uma saída: assinar o cessar-fogo e instalar-se oficialmente em Luanda. Mais uma vez encontrávamo-nos numa posição de força que não iríamos aproveitar. Mário Soares negoceia em Kinshasa o fim das hostilidades que o General Fontes Pereira de Melo, como representante do Presidente da República, assina uns dias mais tarde no iate de Mobutu. Abria-se a porta à FNLA para, oficialmente, fazer frente à acção do poder popular e incrementar a guerrilha urbana que nunca tivera lugar durante os treze anos de guerra - uma vitória do então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares.

MPLA - Completamente destroçado militar e politicamente, sem força e com graves problemas internos, inicia a sua recuperação logo a 2 de Maio no encontro de Mário Soares com Agostinho Neto em Bruxelas e, dias depois, com o diplomata Nunes Barata em Genebra. A partir daqui desconheço as diligências das nossas autoridades para conseguirem o cessar-fogo. Apenas tive conhecimento das dificuldades que o MPLA sentiu para encontrar um líder que só poderia ser Agostinho Neto ao qual restavam umas dezenas de guerrilheiros estacionados no Congo junto à fronteira de Cabinda. Consegue, entretanto, criar o poder popular e instalar o caos e a insegurança em Luanda. Acaba por assinar um cessar-fogo nas «terras liberadas» da chana no Leste de Angola que, para além de tudo mais, deixou a porta aberta para a formação do seu exército (as famosas FAPLA) à base da maioria dos quadros e soldados que passavam à disponibilidade com a extinção da quase totalidade das unidades das nossas forças armadas do recrutamento local. Mais uma vez numa clara posição de força, deu-se tudo — mais uma vitória do MFA com a prestimosa colaboração de Mário Soares.

P.431. E foi assim que se conseguiu o tão indispensável cessar-fogo em Angola sem o qual não seria possível iniciar um processo de descolonização «justo e célere para evitar o total colapso das nossas torças» conforme foi afirmado por um dos seus maiores obreiros - Mário Soares - mas não pelo seu cérebro - Melo Antunes.

http://rubelluspetrinus.com.sapo.pt/primeira.htm
Sem imagem de perfil

De cr a 26.04.2013 às 15:19

Gui,
Reparei que foi “ bombardeada “ por fogo cerradíssimo. Eu entendo ambos os lados, na verdade a “ sua liberdade “ impossibilitava a liberdade de outros, os que estavam na metrópole. Ter estado “ deste “ lado, não foi só poesia e cravos, significou caminhos de muita dificuldade. Aqui, até ao 24 de Abril, os nossos pais, tios, amigos e vizinhos eram presos por coisa pouca, como falar o que pensavam, ou das injustiças sociais.
Lembro-me que desde pequena não podia apanhar nenhum panfleto do chão sob pena de ser conotada com algum grupo revolucionário, nada comparável no entanto ao parágrafo atrás.
Lembro-me que existia muita mas mesmo muita pobreza e que os pobres eram tratos como coitados e inúteis.
Não é bom lembrar o 24, a partir de 25 é que nós começamos a viver, data em que começou a minha liberdade, e um dia depois do fim da sua.
Por isso entendo que será muito difícil para muita gente ler o seu texto sem que venham á tona tantos sentimentos contraditórios.
Eu própria, li o texto e pensei a Gui “ passou-se “. Quando reli de novo percebi que é preciso conhecer um pouco da Gui para entender o mesmo.
O 25 para nós que vivíamos na metrópole, foi de uma importância extrema.
Repare não está aqui em causa algumas tontices do que se seguiu, mas penso que até uma criança para aprender a andar, tem de cair muitas vezes.
Percebo que a Gui adulta, sentiu necessidade de falar do 25 da “ pequena Gui “, mas comove-me e não posso esquecer que “ deste lado do mundo “ existia muito mas mesmo muito sofrimento.
O bom mesmo é que estejamos cá as duas, para contar ambas as partes de maneira aberta e livre.
bj
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 26.04.2013 às 16:58

Nem a Gui precisa da minha defesa para nada, nem a Cr está a atacá-la. Pelo contrário, o seu comentário é equilibrado e próprio de quem percebeu o significado do texto. Aproveito, por isso, este oásis de civilidade para acrescentar o que é óbvio: Abril fez-se também para isto mesmo, cada um poder dizer o que lhe vai na alma com inteira liberdade e sem risco de ser crucificado pela sua opinião. Ainda que, neste caso, essa opinião seja a perspectiva de uma criança (a qual, por natureza e como qualquer outra criança, nunca precisará de revoluções para se exprimir em liberdade).
Sem imagem de perfil

De cr a 26.04.2013 às 17:45

No fundo tudo se resume á liberdade de poder falar abertamente sobre tudo e poder assinar em baixo, sejam essas opiniões discordantes ou não.
Isso tem um valor incalculável.
Mesmo ontem senti isso quando desabafei no FB sobre um discurso de um tal senhor que é PR.
No entanto em todo o caso privilegio sempre a pureza sincera de uma opinião, mesmo sabendo (e a Gui certamente teria essa noção ) que iria ferir susceptibilidades.
Enfim!
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 26.04.2013 às 18:01

Não me fale em coisas tristes, Cr...
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 28.04.2013 às 16:49

Um post tão tocante como o da Gui merece um comentário discordante tão compreensivo sem ser paternalista como o da cr. Se não fossemos tão diferentes como nos poderíamos entender?
Imagem de perfil

De Gui Abreu de Lima a 26.04.2013 às 17:54

Olá, a todos os leitores e comentadores do DO!
Não sabia que o texto estivesse a criar tanta controvérsia... a ideia não era essa, e embora se corra sempre o risco de tocar nalgumas sensibilidades, achei que a descrição bastaria para se defender. Ela não ataca ninguém. Só fala da desilusão de uma garota.
Se o 25 de Abril me recorda sempre a ventania que nos pôs a vida de pantanas, não quer dizer (ainda que haja sempre quem prefira presumir) que eu esteja contra o 25 de Abril. Seria estúpida, não ver que Portugal vivia debaixo de uma ditadura insuportável e inaceitável. Por isso em Angola, gritámos felizes, vitória.
A todos aqueles que feri com essa prosa mais humorística que outra coisa, peço desculpa, não era a minha intenção. A quem se deu ao trabalho de tentar o entendimento junto dos comentadores, a minha sentida gratidão, porque revelam grande coragem e enorme paciência em nome da justiça e da verdade dos factos em Angola.
Aos que acharam por bem usar palavrões e insultos, espero que se sintam mais aliviados, que é única razão que vislumbro para comunicar assim.

Um abraço fraterno e vou continuar a juntar a erva ali num campo, que para a semana é preciso começar a lavrar. Até logo!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.04.2013 às 23:20

Estiveste muito bem, Gui. Não ligues àqueles que adoram policiar as opiniões alheias, decretando como devemos pensar.
Imagem de perfil

De Gui Abreu de Lima a 27.04.2013 às 15:02

Um abraço grato, Pedro. Com pena vejo que é muito comum esta tendência de meter tudo no mesmo saco. A Direita faz isso, a Esquerda também. São tão parecidos quando toca a julgar. Usam uma banda estreita demais, vêm a preto e branco e não aceitam que possa haver o cinzento.
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 27.04.2013 às 01:23

Gui, quando li o seu post pensei em escrever um comentário falando dos bons tempos que passei na Baía Azul, onde ia de vez em quando passar uns dias a casa de uns amigos que eram de Benguela. Para quem como eu vivia em Nova Lisboa, o Lobito e Benguela, eram "já ali".
Mas depois pensei em escrever aquele comentário, que mais não pretende ser do que uma chamada de atenção para uma situação que os portugueses de Portugal, que de contentes que estavam com a conquista da sua Liberdade, nunca encararam de frente: Portugal deveria ter instaurado a Democracia nas ex colónias, e depois dar-lhes a independência. Aquele quase milhão de pessoas, não tinham de se vir embora daquela maneira. Podiam lá ter ficado, porque aquelas eram as suas terras.
Aproveito para lhe pedir desculpa pela maneira como respondi ao indignado, mas por vezes não é fácil responder à estupidez do anonimato da maneira mais educada.
Um grande beijinho para si
ACS
Imagem de perfil

De Gui Abreu de Lima a 27.04.2013 às 14:55

Alexandre: eu é que agradeço ter-se dado ao trabalho de explicar aquilo que viveu nesses tempos e a sua visão do assunto. Esclarecedor e valioso testemunho para todos nós e para os que medem tudo pela mesma rasa, tantas vezes sem saber do que falam.
Na minha casa, sempre se trataram bem as pessoas, fossem branco, mulato ou preto. E só não vê quem não quer que depois sairmos ninguém ficou melhor. Tomara aos angolanos voltar a ter um território igual ao havia antes da Independência.
De resto, já sabemos. A descolonização foi atabalhoada e tanto os colonos como os naturais mereciam melhor tratamento.
Quanto à resposta ao indignado, fez o Alexandre muito bem. Dar nomes aos bois foi o que o senhor não fez. Preferiu comparação com os miúdos da Cerci, coitados...
Beijinho grato, Alexandre!
Obrigada.
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 28.04.2013 às 16:54

Mas agora vens pedir desculpa por teres escrito um belíssimo post sobre o 25 de Abril, só porque alguns cabeçudos não o alcançaram? Não poderia eu discordar mais da ideia que dele tens, mas também não tive a tua vida. Por isso te agradeço muitíssimo que a tenhas partilhado connosco. Fiquei infelizmente a saber que tantos anos depois do 25 de Abril isso ainda é um acto de coragem, pelo que só me apetece dizer: 25 de Abril sempre, para todos ou não?
Imagem de perfil

De Gui Abreu de Lima a 28.04.2013 às 22:48

eu é que agradeço, Zé Navarro, tão formosas palavras :) mas estou tranquila, que a ideia deste texto não era pôr lenha em borralha ainda morna. não era mesmo. mas parece-me que os leitores, na sua maioria, assim a leram.
um abraço. boa semana, ZN!
Sem imagem de perfil

De Mussulino a 27.04.2013 às 22:03

Em Angola conheci uma família branca que tinha em casa um criado preto. Tinha salário mensal, em que uma parte acordada, era depositada em conta bancária. Quando essa família foi corrida da sua terra de nascença, foi ao banco com o criado preto e levantado o dinheiro, despediu-se. O criado preto pegou no dinheiro e disse: "...a senhora leva consigo, que eu fico com a recordação de pessoas boas..." !
A família branca lá refez a sua vida, bem longe da sua pátria. O criado preto, de tão políticamente incorrecto, deve ter tido o sumiço que os "kamaradas" costumam dar em nome da pureza ideológica.
Imagem de perfil

De Gui Abreu de Lima a 28.04.2013 às 22:56

obrigada Mussulino. história bonita. à sua!
Sem imagem de perfil

De teresinha a 28.04.2013 às 00:18

Ó valha-me deus. Um texto singelo, cheio de sentimento e autenticidade, e caem-lhe em cima? Esta gente lida mal com a liberdade ds outros. Nao ligue e siga em frente. Se nao entendem é porque nao querem.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 28.04.2013 às 12:02

Não é porque não querem, Teresinha, é porque são incapazes de se atrever a ver seja o que for sem o filtro que outros lhes puseram nos olhos. Quem é assim não muda, infelizmente.
Sem imagem de perfil

De Isabel a 28.04.2013 às 15:40

Exacto. Atrever é o verbo fundamental aqui.
Sem imagem de perfil

De teresinha a 28.04.2013 às 16:18


Se eu disser que o meu avô é um defensor dos valores vigentes antes do 25 de Abril de 1974 caem-me em cima? Pois, bem podem cair-me que não deixarei de compreendê-lo.
O que o meu avô – com 94 anos – não suporta é saber que, entre tanta liberdade, se descambou para a libertinagem. Hoje, os filhos não respeitam os pais, os alunos mandam nos professores e fazem das salas de aulas uma selvageria, as crianças são violentadas pelas próprias famílias ou nas instituições onde são colocadas, os idosos são abandonados em lares e hospitais, a justiça só funciona com alguns, as mulheres são obrigadas a trabalhar para pagar contas e deixam de ter tempo para acompanhar o crescimento e formação dos filhos, os políticos é aquilo que se vê, estão cada vez mais ricos e gravitam à volta dos grandes interesses económicos, os bancos asfixiam as famílias e as empresas, etc, etc,
Ora venham cá dizer que o meu avô é um antidemocrático, um anti-liberdade, anti-qualquer coisa…
Imagem de perfil

De Gui Abreu de Lima a 28.04.2013 às 22:53

Grata, Teresinha. Das fobias as ideologias rezará sempre a história. Da ignorância.
À sua e de seu avô!

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D