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Mais pobres e menos felizes

por Jorge Assunção, em 19.05.09

 

A OCDE publicou este mês o relatório Society at a Glance 2009 onde, entre outras coisas, é possível ter acesso aos gráficos que acompanham este post referentes aos dados sobre a satisfação média que as pessoas desses países aparentam ter para com a vida que levam. O que há a destacar no primeiro gráfico? Entre os 30 países em causa, Portugal está na quinta posição a contar do fim no que toca à felicidade (isto até permite algum spin, afinal de contas, há outros em situação pior que a nossa). Mas antes de ir à situação portuguesa, ainda sobre a interpretação destes gráficos, Thomas Kostigen aproveita para tentar estabelecer uma relação entre impostos e felicidade, isto porque os países mais felizes, são países com elevadas taxas de tributação. Matthew Yglesias afirma, como é óbvio, que não pode ser o acto de pagar impostos a deixar as pessoas mais felizes. Por isso, segundo este, é mais plausível atribuir estas diferenças às desigualdade de rendimento, no sentido em que países que apresentem maior igualdade, tendem a ser mais felizes. Will Wilkinson contesta, isto porque, entre outras considerações, os Estados Unidos, com o seu nível de tributação baixo e desigualdade grande, aparecem relativamente bem colocados no ranking. Wilkinson questiona mesmo porque as desigualdades de rendimento dentro de um país afectariam a felicidade individual? Diz este, provocando, que "as pessoas não experienciam coeficientes de Gini. Preocupam-se é com o carro dos vizinho".

 

Mas o que me chamou a atenção nos dados foi este gráfico:

 

 

E o quê que este gráfico nos diz? Que entre todos os países em análise, Portugal destaca-se por ser aquele onde a felicidade entre 2000 e 2006 mais diminuiu. Não é só o facto de estarmos cada vez menos felizes, contrariamente à tendência, mas pior que isso, somos o que tem a variação mais negativa no período em questão (aqui não há nenhum spin que valha). A questão é: porquê? A Kostigen não posso recorrer, afinal de contas, se algo aconteceu em Portugal neste período no que toca a impostos, foi a subida destes (e o futuro promete mais subidas). A Yglesias talvez faça algum sentido recorrer, segundo consta a desigualdade aumentou na sociedade portuguesa no período em questão. Mas, para mim, a desigualdade só por si não explica a situação, acredito mesmo que num país onde aumente a desigualdade, mas todos os estratos sociais vejam a sua situação melhorar, a felicidade tenderá a aumentar. O problema português é que a nossa riqueza estancou, deixamos de criar riqueza como até então. E com isto largos sectores da sociedade não só viram estancar o seu nível de vida como, pior que isso, encontraram-se de um momento para outro, contrariamente às expectativas geradas, a empobrecer. E se os dados ficam por 2006, não me admiro que de lá para cá a situação tenha piorado. Digo mais, perante aquilo que o futuro nos reserva, temo pelo que será deste país.

 

Voltando ao carro do vizinho a que Wilkinson faz referência, mas tomando-o noutro sentido, estou verdadeiramente preocupado porque são cada vez mais os carros dos vizinhos parados na minha rua nos dias da semana. E isso transmite uma realidade espelhada nos números do desemprego que vão sendo divulgados a cada mês que passa. E mais preocupado estou porque algumas destas pessoas não aparentam qualquer expectativa de encontrarem novo emprego tão cedo. O que os preocupa não é quando voltarão a ter emprego, mas muito mais se o governo prolonga ou não o subsídio a que actualmente têm direito. E esta é uma questão que devia ser central num ano em que se disputam três eleições: desde quanto nós, portugueses, aceitamos de bom tom continuar a empobrecer de ano para ano. Desde quando a apatia triunfou sobre a esperança. E se é viável uma sociedade onde tantos dependem do dinheiro público para sobreviver. Foi Alexis de Tocqueville quem afirmou que "a República Americana vai durar até o dia que o Congresso descubra que pode subornar o público com o dinheiro público", uma frase que pode e deve ser repensada para esta República Portuguesa, versão século XXI.


10 comentários

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De Paulo Sousa a 19.05.2009 às 08:44

Debati este assunto noutra perspectiva e copiei parte deste texto em jeito de comentário.

O papel do Estado na sociedade e a Crise Financeira

http://vilaforte.blogs.sapo.pt/176790.html
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De Jorge Assunção a 19.05.2009 às 15:23

Caro Paulo,

e eu li e gostei do seu texto.

Cumprimentos.
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De Luís Lavoura a 19.05.2009 às 09:40

1) A nossa riqueza estancou? Como assim? Eu diria que o PIB per capita tem vindo (quase) sempre a subir. Pode não subir tanto como o dos restantes países, mas sobe.

2) Eu considero positivo que haja cada vez mais carros estacionados na rua nos dias de semana. É sinal de que se circula menos e se causa menos poluição e se desperdiça menos carburante. É sinal de que as pessoas usam mais o transporte coletivo. Ainda bem.
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De Jorge Assunção a 19.05.2009 às 15:21

Caro Luís Lavoura,

1) confesso que ponderei se devia usar essa expressão, mas não me parece que seja desadequada para anos com uma taxa média de crescimento do PIB abaixo de 1%. Chame-lhe crescimento residual, se desejar.

2) tomo este seu ponto como pura provocação. Quer porque sou claro no que pretendo transmitir com essa imagem, quer porque o transporte colectivo nesta zona, com a excepção do transporte de alunos, é muito limitado.
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De Luís Lavoura a 19.05.2009 às 15:39

Jorge Assunção,

a) Não sei onde Você mora, portanto não sei se na sua zona o transporte coletivo é escasso ou não. Na minha zona há bastante transporte coletivo e também vejo cada vez mais carros estacionados na rua. Apesar da EMEL.

b) Mantenho o que disse. A sua explicação, de que há mais automóveis estacionados porque as pessoas estão no desemprego, não é única. As pessoas podem, por motivos de poupança, ter mesmo passado a utilizar os transportes coletivos, poucos que eles sejam. Ou podem, pelos mesmos motivos, ter passado a partilhar o automóvel com outro morador. Ou podem ter passado a deslocar-se a pé até a um sítio próximo, onde haja mais transportes coletivos. Em todo o caso, trata-se de uma evolução fortemente positiva, quando se sabe que o povo português utilizava de forma excessiva a locomoção automóvel, e consumia carburantes de forma excessiva, com grande prejuízo para a balança comercial do país e para os níveis de poluição. Portugal é desde há muitos anos fortemente deficitário na sua balança comercial, pelo que se impõe poupar, consumir menos. Andar menos de carro é sem dúvida um excelente começo.
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De Jorge Assunção a 19.05.2009 às 16:09

Caro Luís,

"Na minha zona há bastante transporte coletivo e também vejo cada vez mais carros estacionados na rua."

Repare, para ver se nos entendemos, que eu aceito que na sua rua (isto está a transformar-se numa discussão interessante) mais carros na rua tenham o significado que atribui. Na minha garanto-lhe que não. Não só porque os transportes colectivos são escassos, como porque quando falo dos meus vizinhos, falo de pessoas que conheço. Independentemente disso, acho que podemos concordar que o desemprego tem subido em Portugal.

"Em todo o caso, trata-se de uma evolução fortemente positiva, quando se sabe que o povo português utilizava de forma excessiva a locomoção automóvel, e consumia carburantes de forma excessiva, com grande prejuízo para a balança comercial do país e para os níveis de poluição."

Aqui entramos noutra discussão. O meu ponto era sobre o desemprego, que subiu evidentemente. Mas sobre o que diz não tenho tanta certeza de que se trate de uma evolução positiva. Passo a explicar: poderá ser se resultar da consciencialização individual e da adopção de novos hábitos de consumo. Mas, suspeito, que tal é resultado da diminuição do nosso nível de vida. Ou seja, as pessoas não tomam isso como um hábito saudável, mas como um sacrifício nos tempos que correm.
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De Luís Lavoura a 19.05.2009 às 16:28

Jorge Assunção,

sobre o desemprego, todos estamos de acordo que é uma coisa negativa e penosa. Nem vale a pena discutir o assunto.

O que vale a pena discutir é aquilo de que Você, explicitamente, falou: o facto de se estar a andar menos de carro. Eu acho que isso é positivo, mesmo que as pessoas o façam com sacrifício e não por convicção. O ponto, repito, é que o consumo português é excessivo, e a poluição também. Logo, tem que se poupar, e tem que se andar menos de carro. Naturalmente que isso envolverá uma certa dose de sacrifício, pois claro. Qualquer diminuição do consumo envolve sempre uma certa dose de sacrifício. Isso é óbvio. Mas é necessário. É imprescindível. Quando temos um país que consome dez por cento acima das suas possibilidades (é esse o desequilíbrio da nossa balança comercial), é óbvio que o nível de vida terá que descer.

E, se quer que lhe diga, acho que o andar de carro é dos sítios onde o povo português pode poupar mais com menor sacrifício. (Deve ser, aliás, por isso mesmo que se está a andar menos - porque as pessoas sabem que é dos pontos onde, com menor diminuição do seu nível de vida, podem poupar mais.) Antes andar menos de carro, e comer menos bifes de vaca, do que cortar no pão ou nos livros escolares.
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De Jorge Assunção a 19.05.2009 às 16:57

Caro Luís,

"o facto de se estar a andar menos de carro. Eu acho que isso é positivo, mesmo que as pessoas o façam com sacrifício e não por convicção."

Mas acho que quando o fazem por estarem desempregadas, não é em nada positivo. E foi disso, e só disso, que falei no post. Como você diz, nem vale a pena discutir o assunto.
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De Pedro Correia a 19.05.2009 às 13:19

Caro Jorge,
Estes teus contributos bem apoiados em dados estatísticos são sempre muito úteis para o debate não pairar nas abstracções e nas generalidades tão habituais em Portugal.
Por mim, tomei devida nota.
Abraço
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De Jorge Assunção a 19.05.2009 às 15:51

Obrigado, Pedro.

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