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Do respeito pelos depósitos bancários

por José António Abreu, em 19.03.13

Não gosto do plano anunciado para resolver a crise bancária no Chipre. Não gosto por motivos emocionais (é lixado ter poupanças no banco e, sem ter feito nada para isso, vê-las sofrer um corte substancial) e não gosto por motivos de lógica (poupa os accionistas mais do que deveria poupar; reacende, nos países em dificuldades, as dúvidas sobre a conveniência de ter dinheiro no banco; coloca o euro sob pressão). Mas percebo que, olhado por outro prisma, faz sentido: vai-se buscar dinheiro ao único local onde ele verdadeiramente existe (num país com um PIB minúsculo em comparação com os activos bancários, qualquer outra solução está longe de ser evidente). O que não percebo é a reacção de desagrado dos que ovacionaram a decisão da Islândia de fazer recair a falência dos seus bancos sobre os depositantes estrangeiros. Será por, neste caso, os depositantes locais estarem abrangidos, donde se concluiria que ser estrangeiro – ou, pelo menos, investidor estrangeiro – é coisa maligna e que essas mesmas pessoas estariam disponíveis para apoiar um plano segundo o qual os bancos cipriotas fossem nacionalizados (de forma a castigar os capitalistas pérfidos – eu prefiro chamar-lhes, e aos gestores que puseram à frente dos bancos, mais míopes do que Mister Magoo mas sei estar em minoria – que andaram a comprar os títulos que o governo grego insistia em vender) e apenas os depósitos dos estrangeiros fossem taxados? Ou merecer-lhes-ão os russos mais consideração do que mereceram ingleses e holandeses?


19 comentários

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De da Maia a 19.03.2013 às 13:12

"Taxado" é um eufemismo.

Se as pessoas guardassem o dinheiro em casa, isto corresponderia a arrombamento e roubarem de lá o que quisessem... parece que Lagarde e Schaubel queriam ir até 50%.
Já agora, o que fazia Lagarde na reunião do Eurogrupo?...
Já se actua à Lagardère!

Não há outra maneira de colocar as coisas.
Não houve respeito pela propriedade privada.
Uma taxação seria discutida, aprovada em órgãos de soberania, etc... todos os trâmites legais necessários, constitucionalidades, etc...
Até à entrada em vigor haveria opções colocadas aos depositantes.

Sendo assim, trata-se de um roubo de estrada, com mandantes conhecidos - os do Eurogrupo+uma, e outros desconhecidos.

Para informação aos cidadãos, a impunidade com que actuam estende-se a qualquer país, e portanto, nesse momento informaram-nos que podem nos roubar o que quiserem, quando quiserem. Justificações são apenas para vender jornais e continuar a confundir a população... a forma como pressionaram o recém-eleito presidente do Chipre, como culpam os depositantes russos, etc... tudo isso faz parte de um conhecido "modus operandi" da pirâmide mafiosa.

Desde há muito que sou contra a UE, desde que se tornou numa oposição descarada ao EU, ao indivíduo.
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De José António Abreu a 19.03.2013 às 19:04

Sim, taxado é eufemismo. Eu concordo com quase tudo o que escreveu no comentário, da Maia. O problema é: qual a solução alternativa, assumindo que os eleitores alemães, finlandeses, holandeses e austríacos, representados pelo seus governos, não estão disponíveis para aceitar condições mais suaves? (Veja-se neste artigo da edição inglesa da Der Spiegel como nem a passagem de um plano tão duro está garantida no parlamento alemão.) Só há duas: aceitar e preparar tanto quanto possível o fim do euro (o que implica dificuldades gigantescas a muitos níveis, incluindo no sistema bancário) ou deixar falir o que tem de falir e suportar as consequências (que, quase inevitavelmente, passam pelo fim do euro, pelo menos enquanto moeda do número actual de países). O que me incomoda é a tendência para acharmos que as nossas posições são democráticas enquanto as dos outros não o são. Que os italianos votem num palhaço é democracia; que Merkel e Schauble sigam a vontade (por errada que nos pareça) dos alemães é arrogância deles (deles, Merkel e Schauble, porque raramente acusamos os alemães, apenas os seus líderes).
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De da Maia a 20.03.2013 às 00:44

As organizações criminosas podem ser democráticas, isso não faz delas menos criminosas, pode é diluir a responsabilidade do actuante pela eleição.
No entanto, como ninguém em Portugal deu mandato a Gaspar para alinhar num assalto ao Chipre, acho que essa opção foi individual.
Ah!... e tal, mas assim os portugueses, alemães, holandeses ficavam pior. Mas, desculpe, falamos de um órgão de decisão europeu, então todos são europeus, incluindo os cipriotas. Se a Europa está mal, avance-se com um imposto solidário sobre os rendimentos.
Agora, uma moeda única com políticas avulso, separação de taxas por nacionalidades, talvez fosse política do Império Romano nas províncias, não vejo onde entra aí o conceito de democracia europeia...
Parece que o Chipre tem afinal um parlamento, a Europa é que parece que não tem nenhum.

Enquanto por inversão do "p" os estados virem a Europa como um "Eu-roba", "Tu-roubas", "Todos-roubam", nunca vestimos a "roupa" da Eu-ropa.
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De Teresa Castelo a 19.03.2013 às 18:49

Os holandeses e os britânicos foram compensados na totalidade pelos respectivos governos. Quem compensa os cipriotas?
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De José António Abreu a 19.03.2013 às 19:07

Mas isso justifica o acto, tão aplaudido por cá, dos islandeses?
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De José António Abreu a 19.03.2013 às 19:13

Ah, espere, só agora percebi que estava a responder à minha pergunta. No caso cipriota, um plano que passe por cortar apenas nos depósitos dos estrangeiros é portanto aceitável, cabendo depois aos governos dos seus países indemnizá-los? É isto, não é?
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De Teresa Castelo a 19.03.2013 às 20:13

O jaa quer comparar os depositantes britânicos e holandeses com os cipriotas quando as situações deles são diferentes. Concentra-se num pormenor, a nacionalidade, ignorando todos os outros factores que podem condicionar as opiniões, e que não apenas técnicos. Ser estrangeiro ou não é a parte que menos interessa. Ter quem os compense ou não e saber em que situação ficam é o mais importante. Para mim, pelo menos, é assim.
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De José António Abreu a 19.03.2013 às 20:56

Não, eu estou a perguntar se podemos comparar os russos e os ingleses que têm dinheiro nos bancos cipriotas com os ingleses e os holandeses que tinham dinheiro nos bancos islandeses. E se, portanto, quem aplaudiu a opção islandesa (não é o meu caso) aplaudiria uma opção similar (fazer cortes apenas nos depósitos dos estrangeiros) em Chipre.
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De Teresa Castelo a 20.03.2013 às 11:19

Ah, ok, não tinha entendido dessa forma. Se esses estrangeiros têm quem os cubra porque não? (menos os mafiosos; esses, por mim, podem e deviam perdê-lo todo)
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De rmg a 19.03.2013 às 20:20


Exactamente como na Islândia .
Penso mesmo que depois do chumbo do Parlamento local ficaram mais próximos disso .

E talvez antecipando isso a Rússia já foi dando a entender que vai compensar os seus .

Porque só faltava agora que a resposta à pergunta de Teresa Castelo fôsse "Ninguém" ...
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De José António Abreu a 19.03.2013 às 21:01

Claro que sim. Aliás, a Rússia ainda vai é oferecer (ou pouco menos) o dinheiro para salvar os bancos cipriotas. Por puro altruísmo, claro. Vantagens das democracias avançadas...
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De rmg a 19.03.2013 às 21:21


Exacto .

O "pouco menos" será para já porque , para depois , quando Chipre saír da UE e do euro ,
fácilmente se contentará com umas bases (aéreas e navais) como pequena compensação pelo referido altruísmo .
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De Rui Romão a 19.03.2013 às 23:35

A Sra. Merkel e os palermas da UE iam meter-se num molho de broculos. O Putin não ia achar muita graça a que lhe mexessem no queijo e a Alemanha e a restante Europa de Leste iria passar um frio desgraçado, com jeito ainda ganhava-mos com o negocio e os Alemães ainda nos compravam o Algarve para fugirem ao frio. Estas azémolas que governam a Europa nao aprenderam nada com a história Europeia do Sec. XX.
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De José António Abreu a 20.03.2013 às 08:45

Rui:
Falando a sério, o problema é desenhar um plano de resgate que seja exequível numa economia como a do Chipre, com um PIB de cerca de 9% do português e muito dependente do sector financeiro, o qual, de uma forma ou de outra - aumento das taxas sobre os rendimentos do capital, por exemplo -, seria sempre afectado. Aliás, as notícias referem que a proposta da taxa sobre os depósitos partiu do próprio governo cipriota - estupidez pura, quanto mais não seja por motivos políticos.
Mas, no fundo, o que hoje se deseja é que os países (ainda) solventes paguem as contas existentes nos insolventes. Sendo que, para além de existirem barreiras constitucionais, e de os cidadãos - ou, para ficar mais claro para algumas pessoas, «o povo» - dos países solventes aparentemente não o desejarem, há o pequeno problema de ninguém implementar quaisquer reformas se tiver o dinheiro de borla, ou quase. Imaginemos que a UE dava - dava mesmo, ou emprestava a juros baixíssimos com prazo de uma centena de anos - o dinheiro a Chipre para salvar os bancos. Espanha, Irlanda e Portugal teriam todo o direito de exigir imediatamente condições similares. E os países que hoje ainda não pediram ajuda para os seus bancos teriam todo o interesse em fazê-lo.
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De zeca marreca a 20.03.2013 às 10:32

Tudo isso é muito certo mas... está a misturar problemas: A Irlanda e o Chipre não precisam de reforma estrutural nenhuma. Eram perfeitamente solventes até à jogatana bancária, de bancos, que embora sedeados nesses países nem eram propriedade desses cidadãos, e que, por imposição da UE (estabilidade do sistema financeiro e tal) "tiveram" que ser salvos (Irlanda). Pôr a populaça a pagar e hipotecar durante décadas populações porque alguns banqueiros andam a jogar ao monopolio não me parece muito justo. O dramático disto é que no Chipre destruiram o principal motor económico do país, apenas com esta ideia idiota... Parecendo contraditório as decisões populares na Islândia e em Chipre são as que melhor se adequam na defesa das economias do seu país. E é por isso que a democracia é de saudar. E se a vontade dos Irlandeses pervalecesse nos primordios da crise, em oposição à da UE, ou se um plano de resgate decente tivesse sido desenhado para a grécia provavelemente não teriamos agora este problema no Chipre.
Em resumo a cupula da UE criou o incêndio, agora que o apague em vez de atirar taxas incêndiárias para a fogueira... os então ainda corre o risco de morrer imolada, e não falta quem tenha rublos para recuperar a zona ardida...
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De zeca marreca a 20.03.2013 às 01:47

O jaa não percebe a diferença entre a situção islandesa e a situação cipriota?
Acho que é bastante simples: na Islândia o povo DECIDIU deixar falir os bancos e suas sucursais (com salvaguardas/nacionalizações da componente nacional da banca). Em Chipre o povo RECUSOU UM DIKTAT que para salvar bancos paralelamente a um confisco das suas contas.
Quem aplaude ambas as decisões, parece-me que aplaude a democracia. Quem não o percebe, não percebe a democracia.
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De José António Abreu a 20.03.2013 às 08:24

Ah, ok, é legítimo recusar devolver o dinheiro aos seus proprietários desde que eles sejam estrangeiros e a decisão popular no país que lho pediu.
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De zeca marreca a 20.03.2013 às 10:11

Mas quem é que recusou devolver o dinheiro na Islândia? O dinheiro esfumou-se, os bancos faliram. Por que carga de àgua é que os pescadores Islandeses, que nem conta bancaria abriram é que têm de assuimir a falência de um "branch" holandês do seu banco? Como disse aguém acima, isto não têm nada a vêr com a nacionalidade do depositante, como bem se viu na reacção cipriota ao confisco!
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De José António Abreu a 20.03.2013 às 11:28

O que torna lógico defender a falência dos bancos e o pagamento das garantias dos depósitos até ao limite legal - seja a nacionais, seja a estrangeiros. Não qualquer outra solução.

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