Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O que é uma mesa?

por José Navarro de Andrade, em 17.03.13

Interview(s), de Heman Chong, com Anthony Marcellini, 20120-2013

I.

Bertrand Russell escreveu em 1912 um livrinho de 128 páginas intitulado “Os Problemas da Filosofia”, que começa com esta singela pergunta: “haverá algum conhecimento no mundo tão seguro [certain] que nenhum homem razoável possa duvidar dele?” Para demonstrar a sua questão Russell usa o exemplo de uma mesa – conseguimos definir cabalmente o que é uma mesa? Se o leitor estiver com boa disposição e de boa fé, há-de atingir o mesmo desfecho intrigante que Russell: “perhaps there is no table at all”, depois de ter passado por uma fase em que concluía que: “a verdadeira mesa, se é que ela existe, não é imediatamente conhecida por nós.”

O ponto não é negar a presença material da mesa, mas é impedir que incorramos no erro de acreditarmos que conhecemos o que é uma mesa, ou seja, que possuímos um conceito universal e indubitável de mesa. Donde a conclusão: o melhor é continuar a fazer perguntas em vez de acharmos que atingimos as respostas.

Este modesto jogo filosófico de Russell não só teve o condão de desbancar vinte e dois séculos de platonismo, como permanece dramaticamente actual, sobretudo por ser muito esquecido.

Ainda a semana passada tivemos dois exemplos fulminantes da sua oportunidade.

II.

Entre segunda e quarta-feira, 115 anciãos fecharam-se à chave na Capela Sistina para que dentre eles saísse um Papa. Como se sabe, os cardeais não só estiveram incomunicáveis, como iam votando “às cegas”, isto é, sem discutirem os votos, na presunção de que o Espírito Santo os iluminaria e que o sentido do sufrágio iria emergir por si mesmo, da acumulação de escrutínios. Tal método soberanamente “irracional” e secreto não obstou a que cá fora centenas de jornalistas, cada um mais credível e sério do que o outro, se entregassem com entusiasmo a um bizarro exercício especulativo, antevendo o resultado do conclave. O que sabiam eles sobre o que passava debaixo dos frescos de Miguel Ângelo? Nada, ou seja, tanto como nós que estávamos em casa entretidos a ouvi-los. Compelidos a encherem de palavras e sobretudo de palpites o tempo que decorria, de modo a justificarem as caríssimas ligações de satélite e as não menos caras deslocações a Roma, a nenhum deles falhou a cara de pau e a sincera convicção dos ilusionistas.

III.

Outros saberão explicar técnica e politicamente, com habilidade e suficiência, o que foi feito às contas bancárias dos cidadãos cipriotas, tão banais e minúsculos como qualquer um de nós. Mas debaixo da pilha de factos financeiros, económicos e sociais que geraram tal decisão e dos escombros que ela está a deixar, uma e só uma coisa se revela a um observador ignorante: ninguém sabe o que está a fazer, porque ninguém ainda percebeu qual é o problema. Os melhores cérebros, entre os milhares que se dedicam à “ciência” financeira e económica, quilómetros de páginas com teses, teorias e estudos, perfeitíssimos cálculos, inquestionáveis boas intenções, argutíssimas mentes analíticas e… erros, sobre erros, sobre erros.

IV.

Enquanto perguntarmos desta maneira, nunca saberemos o que é uma mesa. Entretanto vamos usando-a todos os dias.


2 comentários

Sem imagem de perfil

De da Maia a 17.03.2013 às 21:08

Já tinha algumas saudades de um post filosófico seu/teu.
Olha, eu começo logo por duvidar do que é azul ou verde, em certas cores que vejo.

Isso é um típico problema de finitude vs infinitude que o Russell colocava... por vezes mal.
Uma percepção finita, por definição, não pode decidir sempre sobre matéria infinita.
Para o poder fazer com segurança tem que alicerçar o seu conhecimento em coisas simples, consensuais - axiomas.

Só que depois Gödel, usando o argumento de Cantor, mostrou que essa pretensão humana estava condenada ao fracasso. E o problema não é humano, não é a finitude, porque sucede-se ao infinito numerável sucede-se o infinito contínuo, etc.

A questão da mesa é uma questão colocada em termos de infinito potencial... ele considera que há uma infinidade de possibilidades para mesas, e como somos finitos, poderá não haver possibilidade de definir um critério geométrico para dividir as formas, entre o que são mesas e o que não são.
Tudo bem, concluímos que não somos deuses, com capacidade infinita.

Porém temos uma característica importante...
Não podemos ser responsabilizados pelas nossas limitações... e se fomos criação divina, essa responsabilidade não é nossa.

O que podemos fazer é o melhor que conseguirmos, em termos de conhecimento e compreensão, com a capacidade que temos.
Ninguém nos pode exigir, nós não nos devemos exigir menos.

Por exemplo, ninguém pode duvidar de que o próprio existe, da dúvida, dos números naturais, e de umas tantas outras noções que partilhamos e que permitiram "de forma mágica" entendermo-nos com uma linguagem.

Por mais ambiguidade que se coloque, com boa vontade sempre nos entendemos com a linguagem oferecida, só a intolerância foi obstáculo a isso.

Sobre o resto não comento, para não estragar o apontamento.

Um abraço,
da Maia
PS: ... estou a escrever umas coisitas, se quiseres aperta o link amanhã, e depois conversamos.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 17.03.2013 às 23:08

Excelente regresso. Permitir-me-ia, talvez, sugerir que substituísses a pergunta sobre a mesa por uma outra sobre bancarrotas...

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D