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Francisco ou Francisco I?

por Pedro Correia, em 17.03.13

 

Surge a dúvida nas redacções na hora de escrever o nome escolhido pelo novo Papa: Francisco ou Francisco I? A resposta foi dada pelo próprio chefe da Igreja Católica ao ser anunciado, no balcão principal da basílica de São Pedro, pelo decano do colégio cardinalício: Francisco. Apenas Francisco. Com efeito, o numeral ordinal só se aplica numa sequência que envolva pelo menos dois. Daí o facto de mencionarmos também os reis de Portugal à luz deste critério: D. Dinis, D. Duarte, D. Sebastião ou D. Miguel, que não tiveram continuadores onomásticos, são designados assim mesmo, sem numeral. Que resulta absurdo quando é usado ocasionalmente em alusões a uma "Avenida D. Carlos I" (em Lisboa) ou a uma "ponte D. Luís I" (no Porto). Pelo simples motivo de que Portugal apenas teve um rei com cada um destes nomes.

De resto, é esse igualmente o critério na Igreja Católica: Pedro foi o primeiro Papa. Só Pedro. Porque nunca houve um Pedro II. Nem haverá. Porque se houvesse, reza uma velha superstição, seria o último.


8 comentários

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De Fernando Rodrigues a 17.03.2013 às 03:26

As coisas estão longe de serem assim tão lineares, apesar do que escreveu em termos gerais estar correcto.

Pode haver excepções, como no caso de João Paulo I, que escolheu o nome Ioannes Paulus Primus e assim foi anunciado pós-conclave na varanda.

Outra curiosidade é que os papas podem ser ou não anunciados pelo ordinal: aconteceu com Bento XVI, mas não aconteceu com João Paulo II, que foi anunciado apenas como João Paulo.

As expressões "Avenida D. Carlos I" e "Ponte D. Luís I" também não podem ser consideradas absurdas se foram usadas no seu próprio tempo: no reinado de D. Carlos usava-se a expressão "D. Carlos I", sobretudo na importante cunhagem de moeda, que é sinónimo de identidade, poder, independência.

Facto não raro em Portugal, tendo acontecido o mesmo com D. José e D. Maria no século XVIII e continuado no século XIX por D. Miguel, D. Luís e D. Carlos. Daí a ponte que indicou ter sido inaugurada como "Ponte Luiz I", de acordo com as premissas reais do seu tempo. E também a dita avenida, sempre assim conhecida.

Historiograficamente, estão correctas. E não é pelo facto de só ter havido um rei com esses dois nomes que devemos alterar as coisas, a bem da memória colectiva.

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De Pedro Correia a 17.03.2013 às 14:41

Essas são as excepções, como justamente sublinha. Eu limitei-me a enunciar a regra, geral e abstracta. E também concreta, no caso do novo Papa, que declarou expressamente pretender chamar-se Francisco. Apenas Francisco.
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De Luís Menezes Leitão a 17.03.2013 às 07:03

Caro Pedro:

A regra não é universal. Depende do que o próprio pretender. João Paulo I adoptou esse nome (com numeração) em todos os 33 dias que durou o seu pontificado. As velhas pesetas espanholas tinham escrito "D. Juan Carlos I, Rey de España". E D. Carlos quis mesmo ser chamado D. Carlos I e era tratado assim. Por mim, é aceitável com ou sem numeração.
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De Pedro Correia a 17.03.2013 às 11:22

Sim, meu caro Luís. Mas essas, como bem apontas, são excepções à regra. Eu limitei-me a enunciar a regra geral. É o aparecimento de um segundo titular com o mesmo nome que confere sentido prático à numeração do primeiro - que foi, de resto, o que sucedeu com João Paulo I, cujo ordinal foi "legitimado" pelo seu sucessor polaco. Não faria hoje qualquer sentido falarmos de um D. Dinis I ou um D. Sebastião I, fossem quais fossem as suas intenções nesta matéria. D. Carlos, o Diplomata, era demasiado crente na permanência da monarquia como vértice da organização política do Estado português. Claro que, como bem apontas também, em última análise compete ao próprio essa opção - e neste caso o novo Papa deixou bem clara a sua. Sem ordinal. O que não surge por acaso: é uma forma simbólica de restringir o carácter 'monárquico' da Igreja Católica, aproximando-a do cidadão comum.
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De Marta Spínola a 17.03.2013 às 20:28

Pensei precisamente no mesmo quando ouvi, Pedro. Acho que Papa Francisco seria ser o correcto, mas tenho a certeza que Francisco I será muito utilizado.
A propósito dos reis e sua "numeração" tenho uma história, a ver se a alinho em post.
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De Pedro Correia a 18.03.2013 às 22:41

Venha ela, Marta. A história.
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De Carlos Cunha a 17.03.2013 às 20:53

curiosamente, para esta família apenas o primeiro dos primeiros não é o primeiro do nome: é simplemente o filho de henrique...
http://www.casarealportuguesa.org/dynamicdata/Cronologia.asp
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De Pedro Correia a 18.03.2013 às 22:52

Curioso. Fiquei agora a saber, lendo esta lista, que 15 dos nossos reis nasceram em Lisboa e sete em Coimbra. Nenhum no Porto.
(D. Fernando, o Formoso, nasceu em lugar indeterminado pois a lista é omissa neste particular.)
Parece-me igualmente curioso (e totalmente inverosímil) que, a fazer fé na referida lista, quatro reis tenham morrido na Batalha. Alguma confusão haverá aqui.
Tivemos duas rainhas cabeças coroadas. Uma morreu no Rio de Janeiro, outra nasceu na mesma cidade.
Salta-se de Pedro II para Pedro IV sem uma explicação a quem frequenta este sítio.
E, lá está, o numeral ordinal em reis que não tiveram continuadores onomásticos soa a ridículo. "D. Sebastião I, D. Dinis I." Enfim...

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