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A política tem horror ao vácuo

por Pedro Correia, em 02.03.13

 

Os italianos acordaram ontem com uma estranha sensação de vazio, como notava o correspondente em Roma do El País: "Não há Papa, não há Governo e o idoso Presidente da República, Giorgio Napolitano, já avisou que partirá mal termine o seu mandato, o que sucederá dentro de poucas semanas."

 

Em Itália desenham-se três cenários pós-eleitorais: um entendimento "à esquerda" (mas como considerar Beppe Grillo de esquerda se ele dispara em simultâneo contra a esquerda e a direita, e é contra a naturalização ipso facto dos filhos de imigrantes já nascidos em solo italiano, uma bandeira da esquerda no país?), uma "grande coligação" (com um putativo "abraço de urso" de Silvio Berlusconi ao líder do Partido Democrático, Pier Luigi Bersani, que este terá toda a conveniência em recusar, como aliás lhe pedem os militantes de base) ou novamente um Governo de catedráticos extra-política, versão Monti parte II, a designar pelo respeitado Presidente Napolitano, de 87 anos.
Esta última solução - que já não poderia contar com Mario Monti, humilhado nas urnas - perverte os resultados eleitorais e desrespeita a vontade popular. É bom que isto seja dito com clareza a todos quantos se arrepiam com o "populismo" à solta no espectro político europeu. Por mim, não diabolizo as opções populistas desde que decorram dentro do sistema democrático: as minhas precauções nesta matéria são sempre contra o populismo antidemocrático. O que não vai a votos.

 

Se as forças emergentes deste escrutínio (incluindo naturalmente o estreante movimento de Grillo, que obteve 8,5 milhões de votos, elegendo 54 senadores e 108 deputados) não produzirem uma solução governativa, o menor dos males é ouvir novamente os eleitores.

Sempre mais democracia, nunca menos democracia.

Foi, de resto, o que sucedeu na Grécia, em Junho do ano passado. E com bons resultados, atendendo às circunstâncias.

Felizmente a democracia - como a política em geral - tem horror ao vácuo.


3 comentários

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De Helena a 02.03.2013 às 08:50

Concordo com o que escreve.
Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber esses "arrepios". Há pessoas que vêem estas eleições como uma ameaça à democracia, como se o meio político devesse apenas ser ocupado por uma certa aristocracia corrupta, que já cheira mal de tão decrépita.
Um verdadeiro atentado à democracia, seria ignorar a vontade dos eleitores. Ou pior, permitir que criminosos, como Berlusconi, se mantivessem no poder.
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De Pedro Correia a 02.03.2013 às 11:41

Sim, Helena, a vontade dos eleitores nunca pode ser ignorada. A não ser que estejamos afinal a dar razão a Grillo nas suas diatribes contra "la Casta". A não ser que já não vivamos realmente em sistema democrático nesta velha Europa que tanto se orgulha de ter registado tão nobre patente.
Se assim for, chamemos outro nome qualquer ao que existe, mas sem perverter esta palavra - uma das mais belas que conheço. Democracia.
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De rmg a 02.03.2013 às 15:00


Totalmente de acordo .

Acho que muita gente que se desgosta com razões ou sem elas - pois cada tem as suas e nem sempre são louváveis - do "sistema" tal como está , aceita com entusiasmo tudo o que apareça e pareça fazer frente a esse mesmo "sistema" .

Portanto chamemos-lhe outra coisa qualquer enquanto existe .
A história do século passado , que já ninguém tem 10 minutos para estudar , está cheia dos resultados a que demagogos e populistas levaram o mundo .

Muitas (demasiadas) vezes se esquece que todos os "ismos" nasceram na Europa e , ouvindo uns e outros , nenhum foi coisa boa .

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