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Regresso à política

por Pedro Correia, em 28.02.13

 

De facto, não adianta tentarmos varrer a política para debaixo do tapete substituindo políticos por contabilistas e procurando refúgio num discurso que se esgota na magna questão das finanças públicas. O caso italiano, somando-se a tantos outros, aí está para o demonstrar.

Não farei, por agora, qualquer avaliação sobre Beppe Grillo. Interessa-me, isso sim, analisar a eficácia do seu método para conquistar um em cada quatro eleitores italianos, mobilizando-os para o conceito de democracia directa na terceira maior economia da Europa.

Os gurus do comentário não previam isto - e daí também eles terem sido derrotados neste escrutínio.

 

Há três anos, não havia nada. Ou antes: havia um blogue. E foi aí que tudo começou. No blogue de Grillo.

O actor, especializado em papéis de comédia, ficou indignado com a reiterada manutenção na Câmara dos Deputados de parlamentares imputados pela justiça italiana. E lançou uma petição para pôr termo a isso.

Foi uma espécie de rastilho. Pedindo de empréstimo o jargão revolucionário, as condições estavam maduras para algo mais.

Seguiu-se a reivindicação de listas nominais para as eleições aos mais diversos níveis, do voto electrónico para formar listas de deputados, da redução de 25 para 18 anos da idade para escolher os representantes ao Senado, do referendo à manutenção do país na zona euro, do combate sem tréguas à corrupção que mina como um cancro voraz os órgãos políticos em Itália.

Seguiram-se mobilizações impressionantes nas principais praças das maiores cidades do País. Não houve debates televisivos, nem foram necessários: a força da Rede levou Grillo a comunicar directamente com os cidadãos através das redes sociais. Entre os jovens, foi de longe o mais votado nas legislativas. O Le Monde aponta-o sem rodeios como "único verdadeiro vencedor das eleições".

 

Ninguém levava a sério este movimento, intitulado Cinco Estrelas. Hoje é o mais votado na Sicília, domina a câmara de Parma e tornou-se a força política individual com mais representantes no Parlamento - conseguiu eleger 54 senadores e 108 deputados.

"Em Itália não há democracia: há burocracia: um Estado que se exprime através de 350 mil leis, um aparelho judicial paralisado com nove milhões de processos, um Parlamento que funciona com decretos-lei do Governo no qual se senta gente que não foi eleita pelo povo." Palavras de Grillo, o ex-actor convertido em estrela mediática, em entrevista ao El Mundo.

Palavras que poderiam ter sido proferidas por milhões de italianos.

 

É preciso saber escutar os sinais emanados desta ampla mobilização cívica, de carácter pós-ideológico mas profundamente política. Porque este sinais prenunciam mudanças decisivas nas instituições europeias, que não podem permanecer indiferentes às vozes dos cidadãos. Seria demasiado fácil ridicularizar movimentos como o de Grillo, mas a este suceder-se-ão outros, em qualquer país, todos apontando na mesma direcção: há que aproximar as estruturas políticas da cidadania, sob pena de condenarmos a democracia ao insucesso, um pouco à semelhança do ocorrido nas décadas de 20 e 30 do século passado que serviram de via aberta às piores tiranias que o mundo conheceu.

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14 comentários

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De Anónimo a 28.02.2013 às 21:55

Certamente que se quer referir ao Arpanet (o sistema de comunicações americano) e eu refiro-me ao interface criado com a desigbação world wide web (www). Ficamos esclarecidos?
Que novo penamento se refere? Pode concretizar? Quem condiciona tal uso? O descendente de Rockfeller, com sua proposta no senado americano? Se é este estamos de acordo.
Bem estamos de acordo sobre os problemas, mas não vi que estivéssemos de acordo quanto ao que os causou. Na realidade ter emprego é um conforto, porque permite sustentar uma família, pagar casa, pão e escola. Acha demasiado, ou isto, Alexandre, para si é um luxo?
O Alexandre centra sempre a questão entre esquerda e direita, eu falo de pessoas, da direita e da esquerda. Ou será que umas contam mais que as outras?
Sabe o que coseu a coesão europeia do pós guerra, assim como a coesão americana? Pois bem, foi o equílibrio do medo. Com a queda do muro e a rendição da URSS a coesão acabou, porque o medo deixou de existir. A Europa, Japão, EUA cresceram e foram coesos enquanto souberam que a atitude de uma população desesperada poderia originar fragilidades militares e até mesmo de soberania. Depois que tudo isto acabou foi um reinar vilania, com vilões a corromper outros tantos.
Bem, finalmente, parece que veio ao encontro de meu comentário. Mas parece-me que aqui não necessitamos de reinvenções, basta olhar uns para os outros. Só precisamos de nos converter, ou seja, mudar de sentido.

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