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"A Bola" em Moçambique

por jpt, em 28.02.13

 

Foi o primeiro jornal do qual fui leitor e cliente, o meu pai (que nunca leu um jornal desportivo na vida, e foi apenas duas vezes ao futebol na vida, para me acompanhar em 1975 ao Sporting-Olhanense e ao Sporting-Porto) dava-me dinheiro para o ir comprar. Na época, início dos anos 1970s, a era de Joaquim Agostinho e Vítor Damas, publicava-se três vezes por semana (segunda, quinta e sábado). Nele escrevia gente como Carlos Miranda, Carlos Pinhão, Alfredo Farinha, Aurélio Márcio, Vítor Santos, Homero Serpa. Escreviam bem, olhavam o mundo também, aquilo do "Hoje jogo eu" era antologizável, e eram ecuménicos, gente com simpatias clubísticas mas que escreviam sobre desporto e disso faziam vida inteligente (e o arquétipo era o enorme Carlos Pinhão, benfiquista ferrenho com um humor finíssimo, que a todos conquistava), sem o bacoquismo faccioso que a descendência arvorou.

 

Li-o, militantemente até aos anos 1990s, quando por lá ainda escreviam amigos vizinhos como o Afonso Melo e o João Matias. Depois, cansei-me daquilo. O jornal envelheceu, não se conseguiu adaptar ao fluxo de informação vindo do novo mundo de comunicação televisiva, as parabólicas de então, e à atenção que estas permitiam não só ao futebol internacional como, acima de tudo, à diversidade de desportos internacionais (o râguebi mundial, o basquetebol americano, a própria Fórmula 1 bem analisada, etc.), algo que o "Record" (e a própria "Gazeta dos Desportos", já desaparecida) conseguiram de modo pioneiro na imprensa escrita portuguesa. Mas o pior foi o fim do ecumenismo (mesmo que mitigado) casado com a mediocratização da escrita - [e] uma opção pelo público benfiquista, algo que o benfiquismo dominante na geração anterior dos jornalistas não tinha imposto, e a prosa rasteira. Uma tralha que sempre exemplifico com uma primeira página, já bem mais tardia, que saudava o novo corte de cabelo de Simão Sabrosa, o então jovem ex-sportinguista contratado pelo Benfica.

 

Mas este meu desgosto, já de décadas, com "A Bola" oscila agora, face à memória dos meus 8-9 anos, quando saía da praia às 10.30 para ir para a bicha de compradores do jornal, ali na rua dos cafés de São Martinho do Porto, que o jornal chegava (de Lisboa) às 11 horas. E logo esgotava. Tempos em que os dedos se sujavam com a tinta do jornal ... 

 

E oscila porque vejo a notícia da edição moçambicana de "A Bola", cujo primeiro número sairá hoje. Presumo que se tratará de uma mescla de conteúdo português com conteúdo moçambicano, um pouco à imagem da edição aqui do "Sol". Antevejo-me a comprar um ou outro exemplar.

 

O lançamento da iniciativa foi ontem, e as fotografias acessíveis mostram como a empresa se articulou no país político e económico. Ocorre ainda inserido na viagem a Moçambique do ministro Miguel Relvas, acompanhado de uma delegação de responsáveis federativos do desporto português, para além do "King", Eusébio da Silva Ferreira. E também empresários portugueses acompanham a iniciativa, como os empreendedores imobiliários Luís Filipe Vieira e António Salvador.

 

Também hoje, e no mesmo contexto político, Mário Coluna, o grande "Monstro Sagrado", será condecorado pela estado português, recebendo o colar de honra da ordem do Mérito Desportivo. E isso sim, sem qualquer hesitação, saúdo. Viva o "Monstro".

 

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11 comentários

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De Bola na Marca a 28.02.2013 às 09:51

A madama (que desconheço) terá uma bola na barriga?!
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De jpt a 28.02.2013 às 11:19

Eu sou novo no DO e deparei-me aqui com uma boa prática, a de se responderem a todos os comentários. Mas o que é que um tipo diz a uma coisas destas? Só mesmo repetindo o velho teorema bloguístico, quanto mais anonimato maior o boçalismo ... que miséria de teclados, que gente ....
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De Sou Velho Aqui a 28.02.2013 às 12:46

Há blogues que não aceitam comentários anónimos - não é o caso deste. Este tem os comentários moderados, pelo que se não presta não se publica.
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De jpt a 28.02.2013 às 15:57

Pois, eu não sou velho aqui mas sou-o no bloguismo. Onde também blogo nem sequer edito comentários. E só apago coisas que caluniem pessoas excêntricas ao blog. Mas há coisas que não valem a pena, e nisso julgo que concordamos
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De Joaquim a 28.02.2013 às 12:32

"Mas o pior foi o fim do ecumenismo (mesmo que mitigado) casado com a mediocratização da escrita - uma opção pelo público benfiquista"

Lamento, mas não lhe fica bem este excerto. Dá a entender que a mediocratização da escrita é paralela ao público benfiquista, o que não corresponde à verdade e parece que chama aos benfiquistas medíocres.

Falta uma letrinha - "e" - ""o pior foi o fim do ecumenismo (...) casado com a mediocratização da escrita - e uma opção pelo público benfiquista"". > o sentido da frase fica totalmente diferente.

Sabe, eu também li a bola, na fase que ainda não era diária, na fase que era diária e até meados da década de 2000, mais ou menos até ao Euro 2004. Concordo que a bola perdeu o que tinha em abundância - a qualidade na escrita. Nele escreviam Baptista Bastos e combinava bem o sportinguismo de Rui Santos e o benfiquismo de Alfredo Farinha. Ainda era o jornal de todos os desportos. Havia seçcões especiais dedicadas à NBA e excelentes revistas dedicadas a outros desportos (que aliás ainda as guardo, inclusive uma dedicada a Joaquim Agostinho - é normal admirar grandes desportistas que engrandeceram o desporto português).
Publicou ainda historiografias com bastante qualidade e grandes resumos dos desportos portugueses.

Na década de 2000, recuou o espaço da escrita e entraram os balões de imagens e o exagero dedicado aos grandes. Entraram as notas do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Entraram as campanhas pró-Vieira e pró-Ronaldo. Em suma, o jornal ganhou dinheiro com o sítio na internet, com a publicação noutros países, mas perdeu o seu melhor lado, a qualidade da escrita. E por isso deixei de comprar o jornal há bem mais de seis anos, algo impensável ao longo da década de 1990.

Quanto ao record e as suas páginas de capa e conteúdo não me merecem comentários, porque é bem capaz de ganhar a competição de tralha.

Está a ver como um benfiquista pode preferir o conteúdo ao acessório e admirar a prosa?

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De jpt a 28.02.2013 às 16:00

Tem razão, enfio a carapuça toda, até ao pescoço. Falta o tal "e", para ser mais explícito. Ainda que, e que já levanta, a mediocridade da escrita se associa à mediocridade da opção de facção, não por ser benfiquista, mas porque as mentes mais pobres (e desajeitadas) têm essa tendência/necessidade de "abancar" num clube qualquer.

Mas não era essa a tese, a da mediocridade benfiquista. Aliás, já há tanta pantomina a separar as gentes, que não será a da linha de fora-de-jogo que julgarei significante
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De jpt a 28.02.2013 às 16:03

E, já agora, não veja no texto qualquer elogio à excelência do Record. Apenas recordo que naquela década de 1990 o jornal foi mais lesto do que a Bola a preocupar-se com um conjunto mais alargado de desportos.

Benfiquistas preocupados com outras coisas do que o perdigoto grosseiro? Claro que sim, é coisa que não falta. Menos do que sportinguistas morcões, ainda assim. E é lamentável.
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De jpt a 28.02.2013 às 16:12

emendei o texto, seguindo a sua sugestão/reclamação. Muito obrigado pela colaboração
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 28.02.2013 às 14:38

Há muito que deixei de comprar e de ler "A Bola". Concordo com o que diz sobre os jornalistas já desaparecidos, que sendo quase todos benfiquistas, nunca o esconderam, e (quase) nunca os condicionou.
Mas o que me levou a deixar de comprar A Bola, não foi o futebol foi a politica. Porque se os jornalistas quando escreviam sobre desporto eram suportáveis, já quanto à politica, outro galo cantava.
Eram maioritáriamente simpatizantes do PCP, o que só por si não trazia mal ao mundo, mas condicionava-os quanto tinham de falar de politica.
No que me diz respeito, a gota de água foi uma certa vez que o meu Sporting foi jogar à ex URSS , e um "jornalista" que agora regurgita cretinices na SICn ao domingo à noite, foi o "enviado especial" de A Bola para cobrir o evento. Isto passou-se algures nos anos 80 do seculo passado, e na reportagem que de lá enviou, tipo "hoje jogo eu", entre outras alarvidades, escreveu que não fazia juizos de valor sobre o regime soviético, porque não estava lá há tempo suficiente para poder avaliar a coisa: precisava de mais tempo para perceber se o que lá se passava, era uma democracia, ou uma ditadura! Isto numa época em que todos os dias se escrevia no jornal que o Chile e a Argentina, p. ex.,eram ditaduras hediondas, mas já quanto ao "sol na terra" havia muitas duvidas.
A Bola desses tempos mostrava bem que pode haver limites para tudo, até para a honestidade intelectual.
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De jpt a 28.02.2013 às 16:06

Sim, também sim, coisas do tempo daquela geração. Em relação à qual tenho muito mais pruridos em invectivar do que às sucessoras, feitos e germinados em diferente Portugal. Mas, já que refere o assunto (Pinhão era um comunista indefectível e um prosador magnífico, já agora), lembro bem Alfredo Farinha irado nos seus "Hoje jogo eu" dando pancada nos colegas (e sócios, acho) da esquerda.

Outros tempos, outras gentes. E, defendo, a pedirem outras valorações nossas, em particular hoje.
cumprimentos
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De jpt a 01.03.2013 às 05:36

O comentador sammyopaquete deixou este interessante comentário. Ao moderar enganei-me e apaguei-o em vez de aprovar. Aqui o reproduzo:

"Quando “A Bola” fez 43 anos, convidou, algumas personalidades para se pronunciarem sobre a efeméride. O cineasta João César Monteiro escreveu assim: “Se não estou em erro, sou ledor de “A Bola” há mais de trinta anos. Do tempo em que era quase afrontoso ser visto com “ela” debaixo do braço e nem sempre se ousava confessar o pecadilho que era gostar de a ler. Para restituir a boa consciência a esse perverso apetite, criou-se um álibi curioso. “A Bola” passou a ser, antes do mais, um modelo de virtudes prosódicas, uma escola de bem escrever jornalístico. Com alguma razão, diga-se, se fecharmos piedosamente os olhos a certas piroseiras metafóricas que, de onde em onde, ensombram com a má literatura o bom jornalismo. Para ser franco e sem cair no pretensiosismo de ter mais em que pensar, nunca pensei muito n’”A Bola”. Passo os olhos por ela, deixo-a deliberadamente na mesa do café, encontro-lhe utilidades culinárias para embrulhar tachos com arroz ou para absorver o óleo dos carapaus fritos. Numa ou noutra aflição, já me tem valido, com todos os inconvenientes de estampagem de aí decorrente. Nada de grave: conheço letrados bem piores.” Mais umas achegas: foi por causa de uns textos sobre futebol que Ruy Belo, escreveu para “A Bola”, que parti para a descoberta do poeta. Foi por causa de uma entrevista de Carlos Miranda a António Lobo Antunes que corri a comprar “Memória de Elefante” e até um certo tempo fui leitor atento. Sobre o “Record” dizer que houve um tempo em que teve excelentes cronistas. Um deles foi Fernando Assis Pacheco que tem essas crónicas reunidas num livrinho que dá pelo nome de “Memórias de um Craque”

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