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Leituras

por Pedro Correia, em 25.02.13

 

«Negar é ainda afirmar.»

Machado de Assis, Contos

Alma Azul, Coimbra, 2005

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4 comentários

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De da Maia a 26.02.2013 às 04:20

A frase tem muito sentido numa sociedade não afirmativa.
Porém, numa sociedade afirmativa, ou seja, onde as afirmações são verdadeiras, as farsas ficam no teatro, e não fazendo da sociedade um teatro, aí, a negação não pode ser afirmação. Se fosse, seria só uma afirmação de falsidade do emissor.

Como já disse num comentário atrás, a negação não precisa de ser personalizada... ainda que possa haver essa tentação simplista.
Por exemplo, se existe o bem, concebemos que existe o oposto, o mal, mas ele existe por simples operação lógica, "de máquina", não necessita de ter um intérprete, que insista em assumir esse papel.

A uma figuração construtiva coloca-se sempre a figuração destrutiva, por simples idealização. É claro que pode haver quem queira assumir o papel, para provar essa evidência... Um exemplo é ensinado aos monges budistas, que fazem belas figuras de areia, para depois serem destruídas por outro.
No entanto, há outras coisas que mostram. Mostram que a ideia de construção que esteve presente é muito mais complexa que o simples "bit"/"beat" negativo, que a destrói. Mostram que essa ideia de construção, de beleza, emerge, apesar de ser confrontada com a sua iminente aniquilação.
Pode não emergir exactamente da mesma forma, mas o mais importante é que há uma mensagem que quer aparecer, e encontra um ou outro intérprete.
Por isso, ainda que se ocultem invenções, criações, há ideias recorrentes que, pela sua importância, irão aparecer com um ou outro mensageiro.

Por exemplo, é um absurdo pensar que não existimos, porque o simples pensar é uma evidência cartesiana de que existimos. No entanto, a "máquina", a lógica, obriga-nos a considerar a sua negação. Por isso, o "não ser" aparece como um medo, neste caso como medo da morte. Só que esse "não ser" não apaga o ser, é apenas um apêndice ligado ao sujeito da frase. O "não" não vive sozinho... só conceptualmente.

A negação tem um significado sintáctico, e pode fazer parte integrante de uma afirmação. No entanto, a afirmação e a sua negação não podem coexistir no plano da verdade. Só podem coexistir enquanto dúvida.
Pode ser uma ou a outra, mas não ambas.
Isto é visto como algo óbvio, mas não é.
Algo e a sua negação só não existem simultaneamente pela percepção do universo no plano da realidade -temos a experiência de uma única ocorrência - foi ou não foi - e não de múltiplas, uma em que foi e outra em que não foi. Mas não é só da realidade física, bem definidos os conceitos mentais, sabemos que o simples raciocínio leva a contradições. Ou seja, há também uma realidade mental objectiva, única.
É claro que podemos florear artisticamente, mas aí entramos nos modelos. Cada um tem o seu modelo, e se não houvesse um plano de realidade, onde todos devem entrar em sintonia, então cada um poderia fazer o seu. Cada um pode fazer o seu teatro, mas esse caminho tende a desligar-se da realidade comum, a ponto de não retorno, onde todos os referenciais caiem. Há muitas formas de ficar sozinho, e talvez a mais temível seria chegar ao idealizado ponto divino, em que tudo é conhecido, nada é surpresa, tudo foi feito e refeito, e não há nada para ser dito... a ninguém.

A negação e a dúvida cumpriram e cumprem um papel na nossa sobrevivência, pelo confronto dos nossos modelos individuais com a realidade comum, mas não devem sobrepor-se à nossa vivência.
Caso contrário, reduziríamos a nossa vivência à personificação de simples operadores lógicos... saídos da "máquina".

Eu sei que o texto ficou longo, mas achei que devia escrever isto... e só mais uma coisa.
Há uma crença de conservação de massa, de energia, que obriga a que umas coisas desapareçam para aparecerem noutra forma. Se acreditarmos nessa "conservação materialista", convinha explicar em que parte do "caldo inicial" do big-bang é que estava já encriptada toda a literatura humana que se escreveu e se irá escrever. Já sei, era na partícula do Higgs...
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De Pedro Correia a 26.02.2013 às 23:27

Agradeço-lhe muito o comentário, da maia. E tenho a certeza - digo isto sem a menor ponta de ironia - que o grande Machado de Assis, se pudesse ler o que escreveu, certamente se sentiria lisonjeado ao verificar a reflexão que aquelas quatro palavras escritas há quase século e meio lhe suscitaram.
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De da Maia a 27.02.2013 às 13:51

Obrigado pelo exagero, Pedro.

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