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Estrelas de cinema (18)

por Pedro Correia, em 21.02.13

 

O REVERSO DA MEDALHA

****

Adeus, lugares-comuns. Steven Spielberg, de forma surpreendente, fornece-nos neste filme o retrato menos lisonjeiro do político mais idolatrado nos Estados Unidos. Lincoln estilhaça alguns mitos sobre o 16º presidente norte-americano, apresentando-o como um governante idêntico a tantos outros: confrontado com sucessivos dilemas, como sempre sucede a quem exerce cargos políticos, age de acordo com imperativos de consciência mas comporta-se na hora decisiva como um vulgar discípulo de Maquiavel no eterno confronto entre os fins e os meios.

Este é, de longe, o aspecto mais perturbante do filme. E também o que o torna muito recomendável, mesmo àqueles que não escondem a sua habitual aversão a Steven Spielberg e chegam a classificar cada título da sua filmografia com uma frase que constitui a apologia da ignorância: "Não vi e não gostei."

Lincoln - rara incursão do criador de E.T. no domínio da política - parece, à primeira vista, um filme gongórico e reverente, concebido para piscar o olho à Academia de Hollywood enquanto enaltece o nome mais firme da mitologia política norte-americana. De resto, o líder que pôs fim à escravatura nos EUA tem atraído inúmeros cineastas - incluindo figuras da craveira de Griffith e Ford - num país onde a geografia suplanta a história e tem uma carência absoluta de heróis.

Mas aqui as aparências iludem. E o que subjaz afinal é o retrato de um político dilacerado a vários níveis, infeliz na vida familiar e decidido a impor as mais louváveis medidas pelos mais detestáveis métodos. Deixando evidente que toda a medalha tem o seu reverso.

 

Apostado em pôr fim ao sistema esclavagista, que manchava a honra dos Estados Unidos, Abraham Lincoln (1809-1865) recorreu para o efeito ao prolongamento artificial da Guerra da Secessão, o que lhe permitia ganhar tempo para inevitáveis manobras nos corredores do Congresso à custa de uns quantos milhares de cadáveres acumulados nos campos de batalha. Campeão imbatível do idealismo político, não hesitou em comprar os votos de que necessitava entre os congressistas, tanto das fileiras do seu Partido Republicano como dos rivais do Partido Democrático, fomentando a corrupção política.

Ao contrário de tantas outras películas de Spielberg, este é um filme amargo e descrente na natureza humana. Enquanto a carruagem do presidente sulca as ruas enlameadas de Washington, conseguimos decifrar os confrontos morais que perpassam no espírito do inquilino da Casa Branca, através de uma interpretação inexcedível de Daniel Day-Lewis, talvez o maior actor de cinema do nosso tempo e principal candidato ao Óscar (que será o seu terceiro, caso venha a recebê-lo na próxima segunda-feira).

 

"A medida mais importante do século XIX foi aprovada graças à corrupção instigada e favorecida pelo homem mais puro da América", conclui o congressista Thaddeus Stevens, fervoroso anti-esclavagista, quase ao cair do pano deste filme desnecessariamente longo e propositadamente rodado em ambiente nocturno. Não por acaso, este é o Lincoln da fase derradeira, nos seus últimos três meses de existência, com mandato revalidado nas urnas de voto e a caminho da imortalidade através dos disparos fatais do assassino que lhe roubou a vida e o elevou a mártir. Perante o general Ulysses Grant, abismado ao verificar que o seu interlocutor parecera envelhecer dez anos num só, o 16º presidente confessa-lhe: "A fadiga roeu-me até aos ossos."

Fadiga física mas sobretudo fadiga moral. Porque o governo "do povo, pelo povo e para o povo", em nome de um objectivo nobre, liquidou corpos e perverteu espíritos. Há um lado negro em todos os heróis. Spielberg ilumina-o no seu Lincoln, dirigido com a intensidade e a espessura de uma tragédia shakesperiana, e cheio de ressonâncias bíblicas. Conseguimos ler, na mente torturada deste Abraham Lincoln crepuscular, a mesma interrogação de Jesus face aos discípulos: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se depois perde a sua alma?"

 

 

Lincoln (2012). De Steven Spielberg. Com Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Jason Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes


20 comentários

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De Luís Lavoura a 21.02.2013 às 14:59

perturbante

perturbador
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 18:36

Estimulante também. Diferente de estimulador.
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De Luís Lavoura a 21.02.2013 às 15:05

não hesitou em comprar os votos de que necessitava entre os congressistas, tanto das fileiras do seu Partido Republicano como dos rivais do Partido Democrático, fomentando a corrupção política

Não vejo o que isso tenha tido de anormal nem de chocante, pelos padrões da época. Os EUA eram, no século 19, um país com uma política extremamente corrupta. A distribuição de lugares políticos, a corrupção, a compra de votos, o desvio de dinheiro público para fins privados, tudo isso era comummente feito e reconhecido como sendo práticas válidas e, até, recomendáveis. Lincoln terá portanto recorrido a práticas vulgaríssimas no seu tempo e país.
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 18:38

Essas práticas eram frequentes até muito depois disso - e chegaram, de algum modo, aos dias de hoje.
O aspecto mais chocante do filme nem é esse mas a forma como Lincoln, para alcançar a maioria aritmética que lhe possibilitou aprovar no Congresso a XIII emenda constitucional, prolongou as operações de guerra que conduziram à morte alguns milhares de jovens com a mesma idade do filho que, longe dos combates, servia no estado-maior do general Grant.
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De Luís Lavoura a 21.02.2013 às 15:09

o político mais idolatrado nos Estados Unidos

Não creio que o seja, de forma nenhuma. Washington sim, Jefferson também, e os "pais fundadores" em geral, esses sim! Lincoln pode ser idolatrado pelos americanos mais educados, sobretudo negros e judeus mas, na imaginação popular e na propaganda do regime, não é particularmente idolatrado. Eu vivi nos EUA e nunca ouvi falar especialmente dele.
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 18:38

Lincoln é, desde logo, o ícone máximo do Partido Republicano.
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De Teresa Ribeiro a 21.02.2013 às 15:47

Gostei da tua análise. O Daniel Day Lewis é insuperável, a abordagem de Spielberg à bio de Lincoln surpreendente. O melhor do filme é a prestação de Lewis e o subtexto, que tão bem soubeste descrever. O pior é que apesar dos seus méritos não deixa de ser chato e comprido.
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De Luís Lavoura a 21.02.2013 às 16:29

Comprido, quanto? Quanto tempo dura o filme, mais ou menos?
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De Luís Lavoura a 21.02.2013 às 17:35

Obrigado.
Não me parece assim tão longo.
Pelo menos se fôr exibido com intervalo. Infelizmente, já poucas salas exibem filmes com intervalo hoje em dia. É por isso que praticamente nunca vou ao cinema :-)
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 18:42

Obrigado pelas tuas palavras, Teresa. Eu também diria que a interpretação de Daniel Day-Lewis - um actor cujo virtuosismo técnico chega a irritar-me - é insuperável. Pode ser atingível, mas não ultrapassada.
Por outras palavras: se a representação fosse o Everest, ele tinha atingido o ponto máximo. Não há hipótese de subir mais alto.
Dificilmente o Óscar lhe fugirá. A menos que o facto de já ter recebido outros dois funcione contra ele, o que seria muito injusto.
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De Octávio dos Santos a 21.02.2013 às 20:51

Pedro, convém ter presente um facto importante: tanto o realizador como o argumentista deste filme são democratas, ou grandes apoiantes de democratas e do Partido Democrata - Steven Spielberg, aliás, tem sido um grande apoiante, inclusivamente financeiro, de Barack Obama; são liberais bem encostados à esquerda. Pelo que não lhes custaria «pintar» a figura máxima do Partido Republicano (que detestam) como um «político igual aos outros».
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 18:35

Não tinha pensado nisso, Octávio. Julgo, de qualquer modo, que o mito não é derrubado - é apenas questionado. De forma sugestiva e estimulante.
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De J.Silva a 21.02.2013 às 21:08

Vi hoje o filme e gostei. A interpretação do principal actor, Daniel Day-Lewis é muito boa. O que mais surpreende é a luta interior de Lincoln que sendo um homem de princípios deixa arrastar a guerra civil (Norte e Sul com interesses diferentes) utilizando meios duvidosos, para conseguir acabar com a escravatura nos primórdios dos EUA que era a sua obsessão. É o tão velho como criticado aforismo de que os fins justificam os meios ao qual cedem a maioria dos políticos. Por vezes nem os meios nem os fins se justificam o que faz da política uma desgraça. No caso vertente o que seria mais humano e importante? Lincoln acabar com a guerra sem mais delongas o que evitava mais uns milhares de mortos (a abolição da escravatura viria depois por acréscimo) ou deixá-la continuar "artificialmente" como fez para conseguir o seus designios?
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 16:22

Essa pergunta perdurará sempre sem resposta. E o dilema moral de Lincoln residia precisamente nisso: jamais haverá uma história contrafactual que nos garanta que esses milhares de jovens norte-americanos falecidos nas últimas semanas da Guerra Civil não morreram em vão. O filme é exemplar ao focar este dilema - eterno retorno à questão dos fins e dos meios no processo de decisão política.
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De J.Silva a 22.02.2013 às 17:36

Caro Pedro Correia
Li a sua resposta ao meu comentário que agradeço. Resta-me acrescentar porque não o fiz antes, como era minha intenção, que a sua postagem sobre o filme em questão é muito boa.
Mas isso não seria preciso eu dizê-lo porque alguns comentaristas, porventura mais abalizados do que eu, já o fizeram.
Cumprimentos.
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De J.Silva a 27.02.2013 às 20:28

É claro que fiz um comentário baseado no que foi apresentado no filme. Não obstante parece que todos os heróis têm pés de barro. É interessante ler:http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1532.
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De Pedro Correia a 27.02.2013 às 22:00

Interessante mesmo. Obrigado por trazer esse 'link' aqui.
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De José Maria Gui Pimentel a 22.02.2013 às 08:35

Um texto que altera a minha opinião sobre um filme é sempre um ganho de tempo, parabéns. Fiquei de boca escancarada com a interpretação do Daniel Day-Lewis, o modo como ele "veste a pele" da personagem, como parece sentir as suas dores. Faz-nos ter a certeza de que nenhum outro actor poderia ter feito melhor. Não achei o filme extraordinário, mas dá, de facto, uma perspectiva importante -- e diferente -- sobre Lincoln. Se bem que aquele tipo de negociação não seja tão estranha aos americanos como é a nós, europeus. Por exemplo, Lyndon Johnson é muitas vezes citado -- em tom de elogio -- (não sei se bem ou mal) pela sua capacidade negocial, o que em muitos casos se traduzia em pressões sobre congressistas*.

*José Gomes André, se por aqui passares, esclarece-me por favor: estes elogios a Johnson são justificados?
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De Pedro Correia a 22.02.2013 às 16:19

Ainda bem que te fez mudar de opinião, Zé Maria. A ideia destes textos é também um pouco essa. Também eu já alterei várias vezes a minha perspectiva sobre certos filmes em função de críticas lidas posteriormente.
Sim, o Johnson foi um grande negociador - a legislação sobre direitos civis que promulgou em 1964 só foi possível graças a esses dotes que desenvolveu durante décadas como senador (e também à comoção nacional nos EUA na sequência do assassínio de John Kennedy). A diferença é que Johnson passou à história como um presidente muito impopular devido ao envolvimento norte-americano no Vietname, enquanto Lincoln é um dos ícones mais persistentes da história dos States.

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