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A douta ignorância

por Ana Vidal, em 20.02.13

Quem me conhece sabe como sou crítica em relação à igreja católica. Sou cristã por opção, mas isso não significa que aprove aquilo que os católicos fizeram ao longo dos tempos com a mensagem original de Cristo, admirável e verdadeiramente revolucionária. Tudo foi deturpado por razões bem humanas (mas indesculpáveis), trocando a liberdade e a responsabilidade individual que era proposta aos homens pela disciplina do medo, instaurada através da terrível mas eficaz fórmula "pecado-culpa-castigo". E assim tudo regressou de novo a terrenos mais seguros para quem gosta de exercer poder sobre os outros, aqueles outros que, por sua vez, preferem uma cartilha de pecados e virtudes por onde possam guiar os passos sem risco de excomunhão. Enfim, esta é uma pacífica mas insanável divergência que discuto habitualmente com amigos católicos desde que penso pela minha cabeça. Sou lúcida, curiosa e rebelde demais para não questionar dogmas impostos, para não querer saber o que esteve na sua génese, para não rejeitá-los se me parecem absurdos, desactualizados ou injustos.


Mas, se condeno a manipulação, condeno-a em todas as frentes. Tanto quanto as imposições irritam-me as críticas acéfalas, baseadas numa ignorância desonesta ou preguiçosa que tem como única intenção armar escândalo e alimentar ódios fáceis. Já não bastava sermos todos especialistas em macro-economia, agora também somos todos teólogos e doutorados em latim.

Este vídeo - que se refere a um hino Pascal supostamente demoníaco - foi posto a circular na net e tornou-se viral num ápice, exactamente como se pretendia. O título já diz tudo, para quem nem sequer o trabalho de o ouvir quiser ter. Mas, goste-se ou não da igreja católica, goste-se ou não de Bento XVI e da atitude que tomou, é de uma pobreza confrangedora perorar sobre aquilo de que não se percebe patavina só para fazer coro com a maioria. Para o que também a mim pareceu estranho à primeira impressão, procurei e encontrei explicações de quem entende alguma coisa do assunto. E descobri que Lucifer, em latim, significa apenas "portador de luz". A palavra está assim presente em varias orações da Igreja, em latim, e não se aplica evidentemente ao Diabo. Lucifer era o maior de todos os Anjos e não perdeu o nome apesar de abandonar Deus, de tal maneira que esse nome foi dado a muitos cristãos dos primeiros tempos e até existe um S. Lucifer. Em suma, descobri que a tradução apressada (se não propositadamente deturpada) que aparece no video, está longe de ser a mais correcta.


Gosto de argumentos, não de batotas.

 


51 comentários

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De Luís Lavoura a 20.02.2013 às 09:29

a mensagem original de Cristo, admirável e verdadeiramente revolucionária

Mas como é que a Ana conhece essa mensagem original?

Só se conhecem os relatos da vida de Jesus dos quatro evangelhos (e de mais uns poucos apócrifos, e mais algumas passagens do Corão e dos Hadith islâmicos), e há excelentes razões para supôr que todos esses textos foram de alguma forma falsificados ou alterados - a começar pelo facto de que todos eles foram escritos pelo menos duas gerações após a vida de Jesus.

Visto isto, não sei como é que alguém pode dizer que conhece a mensagem original de Jesus.
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De Ana Vidal a 20.02.2013 às 23:06

Touchée, Luís. Ninguém conhece a "mensagem original" de Cristo a não ser através dos evangelhos, que têm já alguma distorção porque foram escritos posteriormente, e por terceiros. Apesar disso há alguma segurança em acreditar que ela estará no essencial desses textos. E o essencial resume-se em poucas frases: "Ama os outros como a ti próprio, dá a outra face, pratica o bem, sê livre, despoja-te do acessório". É nesta mensagem que acredito.
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De Anónimo a 21.02.2013 às 12:31

Usa erradamente o termo falsificação. Na realidade o primeiro escrito que se conhece pertencente à saga cristã, é a carta de Paulo aos tessalonissences. Para compreender, tanta quanto possível, a vida de Jesus, restam-nos, óbviamente, quer os sinópticos quer os apócrifos, incluindo os textos de qumran e, certamente, a vida dos essénios (uma comunidade que nos apresenta uma realidade pré-cristã. Mas que não é única, também encontraremos essa realidade no Egipto, e não me refiro aos coptas).
Efectivamente, considerando também os textos bíblicos do antigo testamento (e não só), é necessário fazer um discernimento sobre o que é ideológico e o que é teológico.
Por outro lado, é necessário compreender que a dita realidade cristã só acontece após a diáspora (depois da destruição de Jerusalém por Tito), em Alexandria; aqui surge a tão desconhecida septuaginta e/ou Bíblia dos setenta. Não esquecer que o dito cristianismo era originalmente uma realidade judaica.
Certamente que existem discrepâncias em várias traduções, e para compreender os textos também é necessário buscar a correspondência das palavras. Existem palavras aramaicas que não têm correspondência fiel no hebraico, no grego e também no latim, o que permite de certa forma "desvirtuar" o sentido das mesmas. Na bíblia latina há, certamente, algumas adulterações, mas não se pode determinar como falsificações. Tudo isto no que refere aos textos (e não vai tudo dito).
Aonde poderemos encontrar mais adulterações é exactamente naquilo que a Aninha referiu, isto é, no sentido, interpretação e doutrinação sobre os textos, mas isto tanto acontece por parte dos fariseus crentes quanto dos fariseus não crentes; percebe?
Quase concluíndo,
a Aninha tem parcialmente razão, e permito-me citar Cipriano (não vá o diabo tece-las e explico já: Cipriano era bispo e não esse tal Cipriano das bruxarias): "O que o homem é Cristo quis ser, para que o homem pudesse ser o que Cristo é" (in os homens não são deuses). Se quiser encontrar correspondência nesta afirmação recomendo a leitura do sermão da montanha, onde Jesus, o Cristo por antonomásia, afirma: Vos estis sal terrae, isto é, vós sois sal da terra. Contudo, fico sempre na dúvida sobre se é o sal que nao salga ou se é a terra que não se deixa salgar.
Por último, sensibiliza-me a atitude da Aninha, por algo tão importante quanto isto:
Qui non vetate peccare, cum possit, jubet (refere o rei gentio Agamenão), isto é, quem, podendo, não impede o pecado ordena-o.
Finalizando, Aninha, compreendo-a, eu, também, para não perder a fé faço longos retiros, ou seja, retiro-me para longe da igreja e de seus membros, e depois de me passar a camueca regresso, somente por causa do sacramento (sacramentum est et signus...). Mas Jesus referiu: "as minhas ovelhas entram e saem e encontrarão sempre alimento".
Continue, Aninha, nessa busca, a luz virá.
Quanto ao nosso Luís Lavoura, se tiver dúvidas terei muito gosto em conferenciar consigo, aqui.
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 13:39

Anoniminho, obrigada pela contribuição de luxo. As minhas buscas andam neste momento por outras paragens. Ou talvez não. Afinal "tudo é tudo", como disse o Poeta, e o redil em que as ovelhas entram e saem só muda de nome, não de forma. :-)
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De Luís Lavoura a 21.02.2013 às 13:42

Sim "adulteração" é uma palavra mais apropriada que "falsificação".

o primeiro escrito que se conhece pertencente à saga cristã, é a carta de Paulo aos tessalonissences

Foi escrita por Paulo? Aliás, Paulo existiu? Pode-se duvidar disso.

O historiador soviétivo Jacob Lentsman, no seu livro sobre as origens do cristianismo, diz que, segundo os seus estudos, as epístolas foram de facto os primeiros textos a ser escritos (o Apocalipse é-lhes porém anterior). Porém, mesmo essas terão sido, segundo ele, escritas muito tempo depois de Jesus. E o apóstolo Paulo não passaria de um mito.

De qualquer forma, as epístolas, todas elas, basicamente nada dizem sobre Jesus. Nada de nada. Não contêm qualquer informação útil sobre ele, sobre a sua vida, e sobre a sua doutrina.
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De da Maia a 21.02.2013 às 19:06

Caro Luís,

a negação, a dúvida, o vazio (ou silêncio), são operadores que não precisam de personificações.
Existem na cabeça de qualquer um, não é preciso ninguém os personificar. Todos podem negar, duvidar ou abster-se sobre o que quer que seja. Quem afirma algo, tem a faculdade de pensar que haverá negação, dúvida ou silêncio, não precisa de ninguém que lho diga.

O Luís pode duvidar da existência de todos os homens, inclusivé de todos os que não vê quando está sentado à frente do computador. A partir daí, duvidar da existência do Império Romano, ou de Paulo, é só um detalhe.

No entanto, há uma coisa que não pode duvidar, a menos que duvide de si, ou da sua memória... a mensagem cristã existiu/existe, tem uma estória associada, e ainda que não seja claro separar a estória da história, há uma parte da mensagem que é clara, e que foi escrita por outros.

Essa mensagem é o mais importante, pois foi edificada sobre o sacrifício de muitos. Por exemplo, revejo-me na mensagem cristã: "o outro poderás ser tu", que é uma maneira análoga de dizer "ama o outro, como a ti mesmo".
Nesse sentido, a relação que temos com os outros é uma relação diferida do que podemos experimentar por simetria, por reflexão...

Do outro lado do espelho, habituou-se a achar que aquele era o seu corpo... a mensagem cristã diz que do outro lado, quando vê um seu semelhante, também pode estar você. E estaria, se os dois cérebros comunicassem perfeitamente... só que isso não acontece logo.
Você poderá achar que não acontece nunca...
Pois, mas essas certezas são incertezas a partir do momento que você não pode prever o que vai pensar daqui a uma hora, nem o que vai sonhar hoje à noite.
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De Luís Lavoura a 22.02.2013 às 10:05

Eu não contesto a mensagem nem a tradição cristãs, que, evidentemente, existem.
O que contesto está expresso no primeiro comentário que fiz a este post: a atribuição dessa mensagem e dessa tradição a pessoas concretas, primeiro Jesus, depois São Paulo.
Neste post a autora diz-nos que se revê na mensagem de Cristo. Eu não contesto que essa mensagem exista, o que perguntei é com que bases é que ela é atribuída a Jesus (e com que bases a esse Jesus é dado o nome de "Cristo", que significa "unigdo").
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De Anónimo a 21.02.2013 às 21:43

1 - Luís, vou iniciar pelo fim. Diz o Luís que as epístolas nada dizem sobre Jesus, mas parece-me que o que as determina é precisamente Jesus: "Já nou sou eu que vivo, mas o Cristo que vive em mim", escreve Paulo num dos seus escritos. Se não encontra basicamente nada nestas epístolas eu digo-lhe que nelas está tudo, Jesus. Poderemos discutir a concordância ou discordância sobre o pensamento de Paulo, mas penso que o Luís se deixou embrulhar por uma falsa percepção e até mesmo desconhecimento sobre as epístolas;

2 - Seguindo a ordem up side down (figurativamente desenhando o que penso acontecer com o pensamento do Luís nesta matéria). Na realidade as epístolas são escritas muito tempo depois de Jesus, o que revela que estas e outras, num tempo onde poucos tenham acesso à aprendizagem da escrita, foram elaboradas também, repito, também, tendo em conta a tradição oral. O apocalipse (em grego revelação) é um texto que nada tem que ver com as epístolas de Paulo e tampouco com os evangelhos sinópticos. Este foi escrito pelo ano 100, atribuído ao apóstolo João, sob a forma de cartas às igrejas da Ásia menor. Quanto ao apóstolo Paulo ter sido um mito, a certeza é que falamos sobre ele. Permita um desvio, Moisés para muitos também poderá ter sido um mito, e no entanto ele existiu muitos anos antes de Jesus. Porém temos algo verdadeiramente visível sobre a influência e presença de Moisés na história: os dez mandamentos que inspiraram as constituições de todo o mundo;

3 - Continuemos pela mesma ordem. Foi escrita por Paulo? Aliás, Paulo existiu?
Bem, na realidade o verdadeiro nome de Paulo era Saulo, mas citarei a apresentação que ele mesmo faz na epístola ao Gálatas:
"Paulo, apóstolo - não da parte de homens, nem por meio de algum homem, mas por Jesus Cristo e Deus pai, que o ressuscitou dos mortos - e todos os irmãos que estão comigo; às igrejas da Galácia, a vós graça e paz da parte de Deus...".
Bem, caríssimo Luís, certamente que não sabe quem lhe escreve, mas sou eu, um "anónimo" que existe e digita as letras através do um teclado do computador. Provavelmente, se alguém visse este texto daqui por 1000 anos atribuíria um nome ao autor (talvez dissessem que o meu nome é anónimo e o seu é Luís), mas eu existo com ou sem nome, e reuno-me consigo pelo nome de Jesus que ambos não conhecemos pessoalmente.
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De Luís Lavoura a 22.02.2013 às 10:12

(1) Se o Apocalipse foi escrito por volta do ano 100 (concordo), então não pode ter sido escrito pelo apóstolo João, o qual foi contemporâneo de Jesus.
(2) Se as epístolas paulinianas foram escritas ainda (muito) mais tarde do que o Apocalipse (também concordo), então não foram escritas por Paulo (mais exatamente Saul, que era o seu nome judeu), o qual, mais uma vez, foi contemporâneo de Jesus.
(3) Dos textos das epístolas paulinianas que transcreveu apenas se confirma que elas nada dizem sobre Jesus, sobre a sua vida, sobre os seus atos, sobre a sua mensagem. As epístolas apenas informam que Paulo diz falar em nome de Jesus, o qual estará dentro dele. Mas isso não constitui nenhuma informação sobre o verdadeiro Jesus, o homem concreto. O facto de Paulo se afirmar possuído por Jesus em nada nos diz sobre quem na verdade Jesus foi.
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De Anónimo a 22.02.2013 às 22:56

! - Na informação que enviei sobre o apocalipse escrevi: "atribuído ao apóstolo João", não referi que foi o apóstolo João;
2 - Sobre Paulo ou Saulo, pretendi referir que existiu um acontecimento em sua vida, que foi Jesus. Sobre Jesus já referi algumas das pesquisas que podem ser feitas para tentar compreender as mensagens que a TRADIÇÃO ORAL vinculou através dos tempos, tendo bem noção, através dessas pesquisas, que por vezes quem conta um conto acrescenta um ponto. Todavia, através dos evangelhos e das cartas, e de outros textos, nenhum historiador poderá garantiar a fiabilidade de suas afirmações. Significa isto que poderemos todos ficar pelo parece-me. Não obstante, a época em que Jesus nasceu, as crenças, a situação social e religiosa, a situação política e tantas outras podem conduzir-nos a uma melhor percepção de tudo quanto se passou. Uma coisa é certa, e tomada como garantida por todos quantos se debruçam sobre esta matéria: os evangelhos referem a cobardia dos apóstolos aquando da prisão e morte de Jesus. Referem que eles se encontravam aterrorizados e sem norte, mas há algo que diferencia a atitude destes discípulos em relação a todos os restantes que seguiram outros auto-denomianados messias (antes e depois de Jesus); e a diferença é a seguinte: um pequeno grupo que surge na Galileia e que, durante a vida de Jesus, evita as grandes cidades (ao contrário de Paulo, um excelente estratega, diga-se) e consegue, após o momento designado por pentecostes (shavuot, o quinquagésimo dia) torna uma mensagem na maior religião do mundo. Acaso? Há paralelo na história? Mais importante que isto, determina a contagem do tempo (antes e depois de Cristo), transforma uma sociedade poligâmica em monogâmica, conduz à libertação de escravos e ao reconhecimento da importância da pessoa humana independentemente da sua origem social, muda um regime que era um Império... Se não é capaz de ver nisto a acção de um Homem, que leva por nome Jesus, e de alguns tantos que assimilam essa mensagem e derrubam muros e fronteiras, a interpretação dos evangelhos que faz são por demais superficiais para compreender todo este acontecimento que ainda hoje faz tremer, por exemplo, a China (não esquecer que existem duas igrejas cristãs na China: uma cujo Bispo é apoiado pelo regime e outra que é apoiada por Roma, considerada a legítima).
Dos estudos que tenho feito sobre a vida de Jesus cheguei a muitas conclusões, sem excluir a parte do parece-me que era assim ou que não podia ser desse modo. Contudo, compreenda-se, sempre no domínio do parece-me.
Por último, Paulo não privou com Jesus, mas os apóstolos eram doze; onde estão os outros, para além de Pedro, Tiago e João? Já procurou esta via em suas pesquisas? Paulo surge no período após a morte de Jesus? De onde surge ele? Quem era este intelectual, estratega e irreverente personagem que assumia para si a cabeça dessa nova Igreja? Já foi por esta via em suas pesquisas? Afinal o que quer dizer aquilo que propositadamente, no comentário anterior, eu transcrevi sobre a forma como Paulo se apresenta aos Gálatas? Já explorou esta via? Compreendeu a mensagem que lhe enviei ao transcrever a forma como ele se apresenta? Reparou que ele afirma que não recebe esse apostolado de Homem, mas de Deus, por Cristo Jesus? Que quer dizer isto? Então e Pedro?
Penso que deu para compreender que aqui não poderemos entrar em grandes questões, sob pena de conduzir muitos ao engano. A substância é Jesus, um personagem real que determinou o curso da história, e que para uns é o Filho de Deus e para outros o Filho do Homem (filho do Homem também é um nome atribuído ao messias que havia de vir. Já explorou esta vertente em seus estudos? O que significa isto de ser Filho do Homem? Em que contexto também refere Jesus a filiação a Deus? Que quer dizer isto na tradição judaica?).
Agora, para concluir este parágrafo, as epístolas aos Tessalonissences foram escritas por volta do ano 50 (são estas as mais antigas, até a Boa Nova, os sinópticos, foram escritos depois destas cartas - ter em conta, uma vez mais, a Tradição Oral-. E, também para sua informação, nos evangelhos sinópticos encontram-se factos que pertencem aos apócrifos. Sabia deste pormenor?);
3 - Pretendi dizer-lhe o que disse, mais o que aqui digo.
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De Ana Vidal a 23.02.2013 às 01:58

Anónimo, anónimo, quem és tu?
(não vale responder "Ninguém"...)

:-)
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De Anónimo a 25.02.2013 às 00:08

Ó Ana, sou o anoniminho!
Vou ali responder umas coisitas ao nosso Luís.
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De Ana Vidal a 26.02.2013 às 01:03

Pronto, Anoniminho, não pergunto mais nada. Precisava de uma pista para confirmar as minhas suspeitas...
Mas enfim, seja quem eu penso ou não, saiba que é uma honra e um prazer tê-lo como comentador dos meus posts.
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De Luís Lavoura a 25.02.2013 às 09:50

conduz à libertação de escravos

Não vejo bem como.

Diversas epístolas contêm referências bem explícitas à obrigação de os escravos obedecerem aos seus patrões, inclusivé quando estes os maltratam.

A ideologia do cristianismo não foi contra a escravatura, a não ser, provavelmente, num seu momento inicial (talvez até ao ano 100). Depois acomodou-se bem a ela. Aliás, esse terá sido uma das razões pela qual o cristianismo acabou por ser adotado como religião do Império.
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De Anónimo a 26.02.2013 às 20:48

Caro Luís,
uma vez mais tenho de socorrer-me de uma epístola, desta feita a epístola a Filémon. Nesta carta encontramos Onésimo, o escravo fugitivo que Paulo conheceu na prisão, diz o seguinte:
"Por este motivo, se bem que eu tenha plena autoridade em Cristo (entenda-se, plena autoridade pela doutrina de Cristo) para prescrever-te o que é de TUA OBRIGAÇÃO, prefiro fazer apenas um apelo à tua caridade. Eu, Paulo, idoso como estou, e agora preso por Jesus Cristo, venho suplicar-te em favor deste filho meu que gerei na prisão, Onésimo. Ele poderá ter sido de pouca serventia para ti (ele joga com a palavra serventia e a palavra grega Onésimo, que significa útil), mas agora será muito útil para ti e para mim. Torno a enviá-lo para junto de ti, e é como se fora o meu próprio coração, Quisera conservá-lo comigo... Se ele se apartou de ti por algum tempo, foi sem dúvida para que o pudesses reaver para sempre. Agora, NÃO JÁ COMO ESCRAVO, mas, bem mais do que escravo, COMO IRMÃO CARÍSSIMO, meu e sobretudo teu, tanto por interesses temporais como no Senhor..." (cf. 1,1-21)
Luís, para bom entendedor meia palavra basta, e já vão muitas.
Escreve sobre o cristianismo ter sido transformado numa religião do Império, mas não refere que nesse Império também constavam outras crenças. Creio que subjaz neste seu comentário a relação de poder que se estabelece com a derrota de Maxêncio. Mas, caríssimo Luís, isso são águas passadas. O cristianismo centra sua atenção na salvação do Homem e não da alma, ainda que esta, pela salvação do Homem, também se purifique. Logo, o instinto religioso do Homem não é histórico (ou seja, não pára no tempo), é a evolução desse instinto que constitui um excelente registo histórico (por isto mesmo encontramos diferentes perspectivas à medida que o tempo avança). E muito tem evoluído.
Sejamos práticos ao menos nesta matéria, não podemos fazer uma leitura de acontecimentos passados à luz do conhecimento presente. Se assim fosse, nossos pais, avós, bisavós... estariam, por seus erros, completamente arredados de nossa presença. Compete a nós melhorar (melhorando-nos também), e deixar que as gerações futuras corrijam nossos erros, e os delas. Chama-se a isto, no conceito cristão, lavar os pés.

Por último, no Evangelho Jesus refere que o reino dos céus é dos violentos. Repare bem, esta violência não é aquela que se exerce contra os outros, mas contra a nossa natureza.
Permita ainda que o faça entender o sentido desta natureza.
No mito da criação (Adão e Eva), repito, mito, somos confrontados com algo de belo. Repare que nesta narrativa estamos perante duas realidades humanas: uma de natureza simbólica e outra diabólica.
A natureza simbólica préfigura-se na imagem de Adão (Adama - Adão - significa terra boa, terra fértil, onde a natureza divina vivÍfica) e remete-nos também para o húmus, que significa in terris, dependentes dessa natureza divina que nos vivífica; a natureza diabólica préfigura-se na imagem da serpente, que significa a tentação. Aqui chegados, verificamos que o que é introduzido no mundo (em nós) não é o pecado, porque Deus não cria o pecado, mas sim a tentação. É neste confronto, entre o que em nós é simbólico e diabólico, que se determina o estabelecimento do reino, começando sempre por cada um.
A palavra hebraica para pecado é techouva ou teshuvá, e esta significa errar o alvo. É quando estamos conscientes de ter errado o alvo, e nada fazemos, que se determina o pecado. Porém não está tudo perdido, porque temos o arrependimento, método que purga o Homem de seus pecados.

Já agora, sabia que Febe foi diaconisa em Cêncris? Sim, uma mulher diaconisa!
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De Luís Lavoura a 22.02.2013 às 14:52

Quanto ao apóstolo Paulo ter sido um mito, a certeza é que falamos sobre ele.

Sem dúvida. Falamos e dizemos que Paulo, de seu nome original Saul, era um judeu cidadão romano, um pouco mais novo que Jesus, que primeiro combateu os cristãos (já depois da morte de Jesus) mas depois se converteu ao cristianismo e se tornou o seu maior pregador entre os não-judeus. E dizemos que escreveu muitas epístolas. E dizemos que morreu por volta do ano 60. Mas depois vemos que as epístolas, com toda a probabilidade, foram escritas pelo menos uma ou duas gerações depois desse ano, contendo referências diretas ou indiretas a realidades (como a revolta judaica de Bar-Cocheba, por volta do ano 130) que só ocorreram muito depois desse ano e das quais Paulo, ou qualquer outro que tivesse vivido no seu tempo, não poderiam ter conhecimento. E aí vemos que há uma contradição: aquilo que dizemos sobre Paulo não pode estar tudo certo. Aquilo que atribuímos a Paulo não lhe pode ser atribuído. E se calhar o próprio Paulo nem terá existido, sabe-se lá.

E então, chegados aqui, podemos continuar a afirmar que as epístolas paulinianas são importantes e verdadeiras e fundamentais, mas o que já não podemos afirmar, com sinceridade e verdade, é que elas foram escritas por um São Paulo que era um pouco mais novo que Jesus e etc etc. Isso sabemos nós não ser verdade. Com toda a probabilidade, aliás, as epístolas paulinianas foram redigidas por mais do que uma pessoa e em épocas diferentes.
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De Anónimo a 25.02.2013 às 13:16

Caro Luís, ontem, ao enviar-lhe a minha resposta, aconteceu um problema com o meu browser. Aqui estou uma vez mais para concluir.

Refere o Luís: "E se calhar o próprio Paulo não terá existido, sabe-se lá". Esta é a argumentação de quem, pretendendo sempre negar, argumenta num sentido por forma a manter a negação.

Vamos lá ver onde reside a dúvida. As controversas epístolas no que respeita à data são aquelas denominadas por cartas pastorais (duas a Timóteo e uma a Tito). Presume-se que foram escritas após a provável libertação de Paulo no ano 62, repito, no ano 62.
Sobre Paulo também sabemos que foi fabricante e vendedor de tendas. Sabemos ainda que se intruíu com Gamaliel (cf. Actos) e que também pregou a judeus essa nova doutrina (entenda-se, proposta).

Da leitura que faço de seus comentários fico ainda com outra certeza: Paulo, para si, já não é um mito; não obstante esse conflito que revela entre a negação e a aceitação.

Permita agora uma pequena deriva a esta nossa conferência epistolar:
A Bíblia não é um livro, mas sim uma biblioteca. para ser entendida necessita sempre de outras tantas bibliotecas para que tudo seja melhor compreendido. Dito isto, revelo-lhe que que sempre que a leio, e continuo a ler, surgem sempre novos desafios. Um exemplo:
Sempre me intrigou aquela narrativa sobre Jesus ter afirmado que destruíria o templo e que o reergueria ao terceiro dia. Sabendo eu que os números, na tradição judaica, contêm mensagens - neste caso o dois, um e, consequentemente, o três -, sempre me desafiei a descobrir o que estaria para além desta mensagem que não somente o facto aceite, ou seja, o de que se referia a seu próprio corpo e, consequentemente, à ressurreição. Pois bem, coloquei uma saco de gelo na cabeça, que ainda o mantenho (para evitar que os fusíveis estoirem, a crise não permite a sua substituição :-)), e lá me lançei neste empreendimento. Andei, andei e voltei a andar é lá dou comigo em Óseias, refere este no capítulo 6, versículos 1-2: "Vinde, voltemos ao Senhor, Ele feriu-nos, Ele nos curará; Ele causou a ferida, Ele nos pensará. (a partir de agora é o mais importante) Darnos-á de nova a vida em DOIS dias, ao TERCEIRO dia levantar-nos-á".
Repare que estamos novamente perante o número 2 e, mais um dia (1), e o número 3. Perguntava-me sempre o que significava isto. Que paralelo teria com o número 3 da destruição do templo? Que significado se poderia obter deste número? Os anos passam e, em 1945-46, um amplo conjunto de textos é descoberto em Nag Hammadi (estes textos nada têm que ver com os textos de Qumram). Destes textos, a um é atribuído como sendo o evangelho segundo Tomé.
No lógion 30 há uma afirmação atribuída a Jesus que diz:
"Onde há TRÊS deuses, são deuses; onde houver dois ou um, eu estou com ele":
Pois bem, estamos perante o número dois, um e, consequentemente, o três. Que significa isto segundo o Evangelho de Tomé?
A dialéctica do dois e do um é a forma sempre retida neste Evangelho. Então que significa isto? Os números dois e um significam a polaridade e a UNIDADE. Repare agora, Mateus 18, 20 refere também o número de três fiéis. O que lhe interessa é que, sendo muitos, eles estejam unidos, pois, assim, aí está Jesus. Repare agora: "Onde estiverem dois ou três aí estarei eu (ou estarei no meio de vós)", afirma Jesus, mais uma vez a polaridade e unidade. Então, posso concluir que a ressurreição determina a unidade, e que a trindade, ou somente Pai e Filho (dois), determinam tal polaridade (o UNO e TRINO): "Eu e o pai somos um", mas, entenda-se, uma unidade na diversidade.
Fiz-me entender? Fui ao encontro das dúvidas que o Luís não foi capaz de reproduzir?
Jesus é o Salvador, resta saber que Salvação nos propõe.
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De Ana Vidal a 26.02.2013 às 01:18

Resta saber, sobretudo, que salvação somos capazes de ler na proposta de Jesus. E até que ponto a queremos. :-)

Obrigada por estes seus comentários, que tenho lido com enorme interesse. Talvez este tema seja interminável porque cada resposta levanta novas perguntas, mas fazê-las já é, de alguma forma, encontrar um caminho.
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De Anónimo a 26.02.2013 às 12:09

Sim, Aninha, é isso que refere: "que salvação somos capaz de ler". Deixe-me agora satisfazer a sua curiosidade. Não me vai encontrar em universidades, em conferências e ou deambulações por qualquer sala de debates, que não esta (sou anónimo para tudo e para todos). Sou um franco atirador. Aprendo a Bíblia por mim. Não quero, nesta matéria, professores, e não os quis, ainda que os leie e escute a todos (pena tenho de não ter meios para ir mais longe. Mas quem procura, encontra; quem pede, recebe; quem bate, brir-se-á a porta, a do Alto): Basta ao escravo ser seu senhor e ao discípulo ser seu mestre.
Isto que aqui tenho reproduzido é reflexo de um interesse que sinto desde criança, sem saber porquê. Neste percurso, atravessamos sempre a noite escura. Porém, estou desejoso pelo dia em que possa afirmar: "Sei que nada sei". E estou assim tão desejoso porque sei que só se poderá dizer isto depois de muito saber; e eu ainda não sei nada. O ser cristão, a meu ver, é como subir a uma montanha, chegar ao topo que nos TRANSFIGURA. E, mais belo ainda, depois dessa transfiguração, somos obrigados a descer essa mesma montanha, porque o que vemos não pode ficar para nós. O que recebeste por graça, dai de graça. Este percurso, o de subir a montanha, em nada tem que ver com o mito de Sísifo, é bem mais belo.
O mérito é todo seu, Aninha. Foi a sua generosidade que fez despoletar toda esta partilha. Sou eu que lhe estou grato.
Mais logo virei aqui responder ao Luís. Necessito meditar na resposta. Não faço esta meditação para saber as resposta que lhe devo dar (já as sei). Necessito somente reflectir sobre como lhas hei-de dar. Até logo.
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De Ana Vidal a 26.02.2013 às 14:42

A minha vénia, Anoniminho. E não faz ideia até que ponto a simbologia da "montanha que transfigura" (subida e depois descida) faz sentido para mim neste momento. Parece-me que ambos andamos à procura de respostas sobre quem somos e o que fazemos aqui. Acontece a quem se questiona e é muito saudável, acho eu. Nestes tempos de esmagadores pragmatismos, quase sem espaço para pensar em alguma coisa que não seja a mera sobrevivência, as questões espirituais são mais importantes do que nunca.

Quanto à sua identidade, não se preocupe. Respeito o anonimato, desde que não seja usado para insultar ou atacar sem dar a cara.
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De Anónimo a 26.02.2013 às 20:51

Aninha, já lhe disse duas vezes que a luz virá.

Que ideia; insulto? Para quê? A Palavra tem força para superar tudo isso.
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De Ana Vidal a 26.02.2013 às 23:56

Já me disse duas vezes?? Nesse caso não há duas sem três, como diz o povo. E se seguir o fio da sua simbologia, 2+1... 3. Ou seja, à terceira espero uma revelação extraordinária. :-)
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De Anónimo a 27.02.2013 às 11:11

A terceira (3) está implícita no aviso às outras duas.
:-)
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De Ana Vidal a 27.02.2013 às 12:09

Sim, acho que percebi. Cá fico à espera da epifania.
:-)
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De Anónimo a 27.02.2013 às 12:43

Aninha, desde 1981, um acontecimento tem abalado a consciência de muitos crentes e não crentes (cristãos, judeus, muçulmanos, budistas... e ateus). Estes acontecimentos ocorrem em Medjugorje. Vários cientistas, de todas as especialidades, têm desenvolvido estudos em busca de respostas para os fenómenos e acontecimentos ali registados. Não me pronunciarei sobre esta matéria.
Mas, se lhe interessa a busca da espiritualidade, tente analisar também o que leva à mudança em tão diversas pessoas, sem excluir os fenómenos ditos de cura ou milagres. Se lhe envio este comentário é porque sei que para muitos os sinais têm significado, e que por vezes são uma necessidade. Não sei se para si terá alguma importância. Veja o que daqui poderá trazer de útil à tão esperada "epifania". Dê uma voltita por Medjugorje.

Deixo aqui um link, muitos outros encontrará em Portugal, Brasil....; em suma, em todo o mundo:

http://www.medjugorje.org/
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De Ana Vidal a 27.02.2013 às 22:35

Sim, conheço os acontecimentos de Medjugorje e é impossível não me deixar impressionar por eles. Só não gosto - mas isso é pecha minha - do circo mediático em que tudo aquilo se transformou, mesmo sabendo que seria inevitável. Curiosamente estive lá em 1980, antes portanto da primeira aparição. Mas Medjugorje não é caso único, e esse é outro sinal interessante: nas últimas décadas têm proliferado por todo o mundo histórias de aparições semelhantes. O que quer isto dizer? Não sei, há várias explicações possíveis. Mas uma coisa é certa: há uma inquietude latente, um interesse renovado pela dimensão espiritual da humanidade, talvez por contraste com o peso do pragmatismo reinante. Há muita gente à procura de si própria.
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De Anónimo a 27.02.2013 às 23:15

Sobre este acontecimento, sem nunca lá ter estado, tenho lido os resultados dos especialistas em várias matérias, em particular o batalhão de testes feitos aos ditos videntes. Tenho conhecimento de relatórios e testemunhos, em particular de médicos; é por aqui que também tenho seguido tais acontecimentos. Já li centenas de testemunhos, assim como os relatórios feitos pelos psiquiatras, incluindo os psiquiatras do regime da ex-Jugoslávia. Tive particular interesse em saber a opinião oficial da ICAR, e sei que, por ainda estarem em curso os acontecimentos, não existe pronunciamento oficial, mas também não houve negação.
Mas há um dado novo em tudo isto: os videntes são casados, agora, têm filhos e não se confinaram a um convento.
Quanto às mensagens, tenho procurado seguir, tanto quanto possível, essas mesmas mensagens (não me refiro aos denominados segredos que, segundo a Vicka, poderão estar para breve as revelações) e compará-las com os registos bíblicos. Sei que existe um grupo de teológos, incluindo protestantes, a debater e a analisar estes factos. É bom que assim aconteça. Uma coisa é certa, que há algo há; que se iniciou durante um regime que assustava as crianças, prendendo-as, para que negassem as versões, sem nunca as terem negado, lá isso iniciou; que este tipo de grupo tão distinto, cujos membros (as crianças, então) apresentam características e interesses diversos e, de acordo com estas características particulares, o grupo jamais poderia subsistir, ou seja, permanecer unido, a não ser por uma causa forte, também se sabe.
O circo, nestas circunstâncias, tem de existir. Recorda-se das aparições de Fátima? O resto, creio, é matéria de fé. E aqui....
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De Ana Vidal a 28.02.2013 às 00:16

Tem graça: por coincidência (ou não?) tinha aqui hoje em casa uma amiga que sabe muito mais destas matérias do que eu. Estive a ler-lhe o seu comentário com a sugestão de pesquisar sobre Medjugorje e ela acabou por me contar muitas coisas que eu desconhecia. Esses testes de psiquiatras e cientistas, por exemplo, sempre negativos quanto a patologias conhecidas. E a estranha quantidade de conversões instantâneas por parte de quem lá vai com a intenção de desmistificar tudo aquilo. Há muitas semelhanças com Fátima, sim, não só na descrição da Senhora como no conteúdo das mensagens. O resto, como diz, é matéria de fé. :-)
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De Anónimo a 28.02.2013 às 01:06

Não, não é semelhante a Fátima, ainda que a Senhora tenha afirmado que o que iniciou em Fátima concluirá em Medjugorje. Aqui há segredos que estão para ser revelados ao mundo e à Igreja, repito, ao mundo e à Igreja. Entre outros, há-de haver um sinal permanente que ficará para atestar estes acontecimentos e a veracidade dos segredos. Os acontecimentos serão revelados antes de ocorrerem (creio que são 10 por cada vidente). O sem número de milagres, repito, milagres, que a ciência médica não compreende também estão em cima da mesa. E as mensagens não são semelhantes. O que é semelhante é o pedido de oração e conversão, em particular a oração pelos "eleitos de Seu filho", entenda-se, os sacerdotes (e não só os católicos), ainda que os videntes tenham uma educação católica. Depois há um pedido que é o de não criticar as outras confissões e até mesmo os ateus, apelando somente para que a vida das pessoas sirva de testemunho perante todos os que não acreditam. Há uma quantidade de dados novos que não têm que ver com a mensagem de Fátima. Repare que até tenho lido testemunhos sobre a conversão de sacerdotes, do sentido de seu sacerdócio e da prática no seu sacerdócio. É verdadeiramente novo.
Pelo que até agora li, e ainda assim não tive qualquer epifania :-), acredito. Pela primeira vez na história tais acontecimentos estão a ser escrutinados por todo o mundo, em tempo real. Ainda um dia, se a Senhora o quiser, vou lá fazer uma visita. Ahh, já me esquecia, os videntes, devido ao facto do regime não consentir a divulgação, não tinham conhecimento da existência de Fátima e das aparições em Fátima.
Bem, vou encerrar, amanhã há muita coisa para fazer. Boa noite.
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De JdB a 20.02.2013 às 09:33

Vizinha,
O que se tem ouvido nas televisões acerca da resignação de Bento XVI é confrangedor. A última foi ouvida na RTP1, parece-me, e assemelhava-se bastante a isto (e cito de cor): "resignou o papa que tirou a vaca e o burro do presépio". Eu, na minha infinita irritação, só me questionei quem tiraria os mesmos animais da televisão.
Uma achega, relativamente ao seu texto. Em inúmeras discussões que vou tendo sobre a Igreja Católica (e confesso que discordei da colagem que fez do Jardim Gonçalves à Igreja Católica, mas esse post era outro) se fala nos dogmas e na sua falta de razoabilidade. Tomo a liberdade de reproduzir parte do que a Enciclopédia Católica Popular refere sobre o assunto:
"Os mais importantes dog­mas (sobre a SS. Trindade e sobre J. C.) fo­ram definidos nos primeiros concílios ecu­ménicos; o Conc. Vat. I foi o último a definir verdades dogmá­ti­cas (primado e infalibilidade do Papa); entre as de­fi­ni­ções mais recentes estão a da Imaculada Conceição (Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 8.12.1854) e da Assunção de N.ª Sr.ª (Pio XI, Const. ap. Munificentissimus Deus, 1.11.1950)."
Estes dogmas serão assim tão absurdos? Porque quando se fala de dogmas é disto que se fala. O preservativo, o celibato dos padres ou a ordenação das mulheres são "opções" da ICAR, não são dogmas, ao contrário do que muitas pessoas pensam.
Fica o link, caso queira ver o resto do texto (procurar em definição dogmática): http://www.ecclesia.pt/catolicopedia/
Alonguei-me. É sempre um gosto lê-la.
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De Ana Vidal a 20.02.2013 às 22:18

O nosso jornalismo está cada vez mais básico, vizinho. Quanto à nuance entre dogmas e opções da igreja católica admito a minha ignorância, mas confesso que o que me interessa mais não é se são uma coisa ou outra. Ambos se reflectem em práticas, e algumas delas parecem-me muito questionáveis. Outras, mesmo inconciliáveis com o que eu penso. Não está nas minhas mãos (nem eu o pretendo) mudar a orientação da igreja, por isso me afastei. Espero que não faça o mesmo comigo, porque gosto muito de vê-lo por aqui a comentar os meus posts. As suas achegas são sempre uma mais-valia. :-)

Em que é que não concorda comigo quanto ao Jardim Gonçalves? Não sou eu que faço essa colagem entre ele e a igreja católica, é ele mesmo que faz gala nisso.
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De JdB a 21.02.2013 às 09:25

"Ah, Pedro, esta é a minha batalha de há anos com a igreja católica! É obsceno, como dizes, e a igreja devia demarcar-se claramente destes "fiéis" milionários que demonstram uma insensibilidade social contrária a tudo o que defendem quando batem no peito."

Vizinha,
Acha que a Igreja devia demarcar-se? E como? E porquê relativamente ao Jardim Gonçalves? E deveria fazer o mesmo relativamente aos que enganam, matam, prejudicam o próximo? Como disse um comentador, não é a ICAR que paga a pensão do cavalheiro, nem a Igreja terá dado o seu assentimento à pensão, porque não lhe competia.
Admitamos que de entre os condenados no processo Casa Pia há católicos. A Igreja deve demarcar-se deles especificamente? Ou a Igreja deve claramente defender o que lhe parece correcto e demarcar-se do que não é, mais do que de quem não é...
É sempre um gosto voltar. Quem nos tira a vizinhança...
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 13:46

Acho que não me expliquei bem, vizinho. Na casa de Deus cabem todos e é assim que deve ser, concordo. O que quero dizer é que a proximidade excessiva com o mundo que Jardim Gonçalves representa não é nada saudável para a igreja. Ou seja, digamos que JG tem lugar na igreja (como todos, porque todos são filhos de Deus) mas o contrário não é de aconselhar.

Bom... lendo-me, acho que ficou mais confuso ainda. Confio na sua cabeça privilegiada e na sua compreensão cristã. :-)
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De da Maia a 20.02.2013 às 10:42

Pois... quem com ferro ferra...

Quando S. Jerónimo introduz a designação "Lucifer", transforma a expressão "portador da luz", que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o "Demo", que é afinal o próprio povo, e ainda "Lucifer" que era designação de Cristo - ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.

... quem quiser, pode continuar a ler aqui:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/05/mayday.html

É claro que etimologicamente se dirá que "demónio" vem de "daimon", e nesse caso será de procurar aí a raiz "democrática", que iludindo dar voto a todos, coloca todos os votos empilhados numa pirâmide zarolha.

Também etimologicamente não se dirá que "diabo" significaria "rico".... mas já se disse em tempos idos.
Por isso, o povo teme a ira dos diabos (ricos, mafarricos), e para isso confia que os "ricos" o protejam do "demónio", ou seja, de si próprio. Algo em que estão implicitamente de acordo, porque os "ricos" também não querem ser vítimas do "demónio"-povo.

A ideia é que para que o povo seja ordeiro, cordeiro, há um sacrifício "cabrão", que Abraão fez, e que veneramos em nome da Paz-coa (coar é filtrar, digamos, uma paz filtrada).
Acrescenta-se que "venerar" virá de Vénus que, enquanto estrela da manhã, é Lucifer, pois anuncia a alvorada.

Uns são ovelhas, e os pastores temem ser bodes expiatórios, porque se os pés-de-cabra abrem portas, também os denunciam na figura de "cabrões". Isso e os chifres, cifras que se traduzem em cifrões.

Mas, como diria o outro, são tudo trocadilhos... e por isso, se não há pressão, qual é a pressa?
Não se passa nada!
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De Ana Vidal a 20.02.2013 às 21:49

Da Maia, é sempre um gosto ler os seus trocadilhos. E de preferência sem pressas, que só pressionam quem se deixa impressionar. :-)
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De da Maia a 21.02.2013 às 01:04

Muita amabilidade a sua, Ana. E, como é óbvio, saúdo o seu texto, muito pertinente, e que traz "luz" sobre o assunto.
De resto, os trocadilhos são uma espécie de joga, de ioga, que nos podem mostrar evidências.
Depois, há quem ache que basta só negar ou ignorar evidências... porém, elas não desaparecem, e assim aparecem novas evidências - ou seja, os personagens que as ignoram ou negam, sem argumento.
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 02:07

Obrigada, da Maia. Mas ali o amigo Rabelais tem uma certa razão, eu não digo nada de novo. A minha preocupação não era iluminar as mentes (cada um que procure a informação que lhe interessar), mas alertar para estas manipulações fáceis que fazem logo muito barulho na net, sem razão nenhuma.
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De da Maia a 21.02.2013 às 13:09

Exactamente, quando há uma excessiva divulgação de um só significado, mas que tem ambiguidades, é sempre importante alertar para essa ambiguidade.
É indiferente ser-se o primeiro ou não. Não é por uma vela estar acesa que se suprime a escuridão, são precisas tantas mais, quanto maior for a penumbra.
Depois de estarem todas acesas, já dificilmente se sabe qual foi a que acendeu as outras.

Eu gosto de chocolate, mas Pantagruel não é o meu preferido. De qualquer forma, só vejo um problema na luz do Panurgo... é que me parece que usa um abat-jour que dá umas sombras engraçadas, mas prejudica a claridade.
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 13:53

Eu também prefiro o velho Belleville, dá melhores mousses. :-)

Parece-me que o problema do Panurgo foi por-se debaixo do abat-jour, e agora julga-se a própria luz.
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 19:25

Ou talvez

:-)
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De Pedro Santos a 20.02.2013 às 13:12

«Early Christians were influenced by the association of Isaiah 14:12-15 with the Devil, which had developed in the period between the writing of the Hebrew Bible and the New Testament,[39] also called the Intertestamental Period when the Deuterocanonical Books were written. Even in the New Testament itself, Sigve K Tonstad argues, the War in Heaven theme of Revelation 12:7-9, in which the dragon "who is called the devil and Satan … was thrown down to the earth", derives from the passage in Isaiah 14.[40] Origen (184/185 – 253/254) interpreted such Old Testament passages as being about manifestations of the Devil; but of course, writing in Greek, not Latin, he did not identify the Devil with the name "Lucifer".[41] Tertullian (c. 160 – c. 225), who wrote in Latin, also understood Isaiah 14:14 ("I will ascend above the tops of the clouds; I will make myself like the Most High") as spoken by the Devil,[42] but "Lucifer" is not among the numerous names and phrases he used to describe the Devil.[43] Even at the time of the Latin writer Augustine of Hippo (354 – 430), "Lucifer" had not yet become a common name for the Devil.[41] But some time later, the metaphor of the morning star that Isaiah 14:12 applied to a king of Babylon gave rise to the general use of the Latin word for "morning star", capitalized, as the original name of the Devil before his fall from grace, linking Isaiah 14:12 with Luke 10:18 ("I saw Satan fall like lightning from heaven") and interpreting the passage in Isaiah as an allegory of Satan's fall from heaven.[44][45]

However, the understanding of the morning star in Isaiah 14:12 as a metaphor referring to a king of Babylon continued also to exist among Christians. Theodoret of Cyrus (c. 393 – c. 457) wrote that Isaiah calls the king "morning star", not as being the star, but as having had the illusion of being it.[46] The same understanding is shown in Christian translations of the passage, which in English generally use "morning star" rather than treating the word as a proper name, "Lucifer". So too in other languages, such as French,[47] German,[48] Portuguese,[49] and Spanish.[50] Even the Vulgate text in Latin is printed with lower-case lucifer (morning star), not upper-case Lucifer (proper name).[4]

Calvin said: “The exposition of this passage, which some have given, as if it referred to Satan, has arisen from ignorance: for the context plainly shows these statements must be understood in reference to the king of the Babylonians.”[51] Luther also considered it a gross error to refer this verse to the devil.[52]

The modern translations have been decried by adherents of the King James Only movement and others who hold that Isaiah 14:12 does indeed refer to the devil.»

http://en.wikipedia.org/wiki/Lucifer
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De Ana Vidal a 20.02.2013 às 21:43

Thanks, Pedro.
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De Helena a 20.02.2013 às 14:18



Obrigada por este post excelente Ana.

Nestas questões abundans cautela non nocet. E como o jacobinismo ignorante é uma praga recorrente acrescento allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est.


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De Ana Vidal a 20.02.2013 às 21:36

E com esta crise e o valor do cobre, há cada vez mais sinos sem badalos... :-)

Obrigada, Helena.
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De Panurgo a 20.02.2013 às 15:38

Que belíssima erudição. Tanta lucidez, curiosidade e rebeldia impressionam. Se a Ana descobriu que Lúcifer significa somente «portador da Luz» - maravilhoso feito - eu descobri consigo que um dogma é «imposto», que os católicos deturparam a mensagem de Cristo ao longo da história, que se instaurou uma terrível fórmula de «Pecado-Castigo-Culpa», e que tudo foi deturpado por razões bem humanas. Um brilhantismo assim é raro e merece ser exaltado. No fundo, é como você bem nota: «agora também somos todos teólogos e doutorados em Latim».
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De Ana Vidal a 20.02.2013 às 21:31

Monsieur Panurge (quanta auto-estima, hein?), dispenso os seus sarcasmos. Se há coisa que este post não pretende é impressioná-lo ou ensinar-lhe seja o que for, e muito menos demonstrar erudição. Se fosse essa a minha intenção tinha-lhe acrescentado algumas citações de grande efeito, todos temos acesso à wikipedia. Mas talvez queira fazer-me a caridade de dizer-me o que posso eu aprender consigo. Isso é que era. Afinal, não é todos os dias que se tem à mão um especialista em anjos e prostitutas.
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De Panurgo a 20.02.2013 às 23:31

Não deve tomar por sarcasmo a confissão do mais puro deslumbramento. Um deslumbramento mais largo ainda, pois que me revelou uma noção muito mais ampla de erudição - citações da wikipédia que, tal como os remates em arco fora da área, dão um espectáculo de belo efeito. Como é fácil de notar, muito pouco tenho para oferecer à aprendizagem alheia. Até porque, tanto eu como os meus amigos católicos, preferimos a Teologia Negativa à Sistemática. E, convenhamos, ao cristão as prostitutas sempre ofereceram mais encantos do que a discussão. Assim era também com o Cristo, como se depreende pelo Evangelho.
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 00:00

Tem razão, afinal não era sarcasmo. Um perito em sarcasmos nunca faria uma leitura literal da minha frase (a menos que me considere incapaz de tão sofisticada arte, claro). Acha mesmo, então, que a minha noção de erudição é uma citação da wikipédia? Pois bem, nesse caso não tenho muito mais a dizer.
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De Teresa Ribeiro a 21.02.2013 às 15:42

Honestidade intelectual é coisa escassa quando se discute religião, política e futebol. Gostei muito, muito mesmo deste teu post.
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De Ana Vidal a 21.02.2013 às 19:28

Obrigada, Teresa. Procuro mantê-la mas nem sempre o consigo. O que me vale é que não gosto de futebol, parece-me que é aí que a coisa é mais complicada...
:-)

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